ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA

Ligue 180 recebe formação do Ministério das Mulheres para atendimento de casos de violência política de gênero

Qualificação realizada nesta terça-feira (26) reuniu equipe da Central de Atendimento à Mulher e representantes de instituições parceiras para aprimorar o acolhimento e os encaminhamentos de casos relacionados à violência política contra as mulheres

Publicado em 27/05/2026 16:48
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Secretária Sandra Kennedy facilita qualificação para equipe do Ligue 180.
Secretária Sandra Kennedy facilita qualificação para equipe do Ligue 180. Foto: Gabriela Mutti/MMulheres

O Ministério das Mulheres, por meio da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, realizou nesta terça-feira (26), uma qualificação formativa sobre violência política de gênero voltada às atendentes do serviço em todo o país. A atividade faz parte da estratégia do ministério para ampliar a capacidade técnica das equipes no reconhecimento, acolhimento e encaminhamento de casos relacionados ao tema, especialmente diante de dados que apontam que mais de 70% dos episódios de violência política contra as mulheres ocorrem em ambientes digitais. A formação tem como base o Protocolo de Enfrentamento à Violência Política contra as Mulheres, lançado pela pasta em março deste ano. 

Nessa primeira fase, serão treinadas 70 profissionais que atuam na Central de Atendimento. Em seguida, no mês de julho, será a vez das coordenadoras realizarem a capacitação para as 353 atendentes do Ligue 180 em todo o país.  

A secretária nacional de Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, destacou que o enfrentamento à violência política contra as mulheres exige olhar para desigualdades estruturais que ainda impactam a participação feminina nos espaços de poder.

“A violência política contra as mulheres precisa ser compreendida a partir da realidade concreta que elas vivem no país: são maioria nas jornadas de trabalho e na responsabilidade pelos cuidados e pelo sustento das famílias”, afirmou. Sandra lembrou que as mulheres estão à frente de 51% dos lares do país e seguem concentrando jornadas intensas de trabalho e de cuidado. Segundo ela, ampliar a participação política feminina passa também pela construção de políticas públicas que garantam condições reais de permanência, como creches, educação integral e redes de apoio.

Ao relacionar a violência política à sobrecarga histórica vivida pelas mulheres, Sandra Kennedy destacou que a desigualdade também se manifesta quando elas decidem disputar espaços de poder.

“Quando meu marido foi candidato, ninguém perguntou quem cuidaria dos nossos filhos. Quando fui eu, essa foi uma das primeiras perguntas, disse”.

A programação do curso de formação foi organizada ao longo do dia, com atividades técnicas pela manhã e roda de conversa à tarde. O eixo formativo inicial foi dedicado à apresentação do Protocolo de Enfrentamento à Violência Política contra as Mulheres, conduzida pela Secretaria Nacional de Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política (SENATP). Foram abordados conceitos e tipificações da violência política de gênero, marcos legais, competências institucionais e diretrizes previstas no documento.

Escuta qualificada e fortalecimento da democracia

À tarde, a programação reuniu a secretária Sandra Kennedy e a deputada federal Érika Kokay para uma roda de conversa, com exposição temática e respostas a perguntas relacionadas à violência política, feitas pelas participantes do curso. 

A coordenadora-geral do Ligue 180, Ellen Costa, ressaltou o caráter estratégico da qualificação em ano eleitoral e reforçou o papel da Central como porta de entrada para acolhimento e proteção das mulheres em diferentes territórios e contextos.

“Qualificar o Ligue 180 em ano eleitoral é fortalecer a democracia e proteger a participação democrática das mulheres com segurança”, destacou. Segundo Ellen, mais de 70% da violência política contra as mulheres ocorrem em ambientes digitais, com impacto ainda mais intenso sobre mulheres negras, especialmente em municípios com menos de 100 mil habitantes, onde as redes de apoio costumam ser mais limitadas.

A deputada federal Érika Kokay agradeceu aos profissionais do Ligue 180 pelo trabalho diário de acolhimento e destacou que muitas violências ainda permanecem invisibilizadas ou naturalizadas. Ao abordar o tema, recorreu à imagem do “teto de vidro” para explicar como estruturas patriarcais continuam limitando o acesso das mulheres aos espaços de poder.

“Quando uma mulher rompe o teto de vidro, ela abre caminho para muitas outras para que muitas outras também possam ocupar esses espaços”, afirmou.

Ellen dos Santos Costa, coordenadora-geral do Ligue 180.
Ellen dos Santos Costa, coordenadora-geral do Ligue 180. Foto: Gabriela Mutti/MMulheres

Protocolo de atendimento 

O protocolo de atendimento em casos de mulheres vítimas de violência política orienta que denúncias contra mulheres candidatas, eleitas ou ocupantes de cargos públicos sejam encaminhadas ao Ministério Público Eleitoral, com prioridade na investigação e na proteção da vítima. Nos casos envolvendo ativistas, lideranças comunitárias e mulheres que atuam politicamente sem candidatura ou mandato, o atendimento pode começar pela polícia, pelo Ligue 180 ou pela rede de proteção, com posterior encaminhamento para investigação e medidas de segurança.

Entre as medidas previstas estão a proteção urgente da vítima, a prevenção da continuidade da violência, a preservação de provas e o atendimento ágil com escuta qualificada. A proposta é garantir que mulheres possam participar da vida política e ocupar espaços de poder com segurança e sem intimidação.

Dados alarmantes  

Durante o evento, a secretária Sandra Kennedy apresentou dados compilados pela SENAPT mostrando que nas eleições municipais de 2024 ocorreram 558 casos de violência política contra candidatas, um aumento de 160% em relação a 2020, o maior registro já observado. Entre os casos registrados estão 27 assassinatos, 129 atentados e 224 ameaças.

Das ameaças registradas em 2023 e 2024, 70% ocorreram nas redes sociais. Entre as principais formas estão violência psicológica e simbólica, como ofensas, difamação e calúnia, assédio moral e sexual, ameaças de violência física e sexual e exposição indevida de dados. Os dados também apontam violência econômica e institucional, incluindo fraude na cota de gênero e falta de financiamento em campanhas.

A secretária frisou que a violência política tem efeitos diretos sobre a participação feminina: reduz o engajamento político das mulheres, diminui o número de candidaturas, leva à renúncia de mandatos e impacta a saúde mental das mulheres.

Contexto de representatividade feminina no país:

  • As mulheres são 104,5 milhões de brasileiras, o equivalente a 51,5% da população;
  • O Brasil ocupa a 133ª posição no ranking global de representação parlamentar de mulheres;
  • Dos 5.571 municípios brasileiros, apenas 727 elegeram mulheres prefeitas (13,2%);
  • Atualmente, as mulheres ocupam apenas 18,2% das Câmaras Municipais, 18% das Assembleias Legislativas, 17,15% da Câmara dos Deputados e 19% do Senado.
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Justiça e Segurança
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