Ministério das Mulheres promove capacitação de atendentes do Ligue 180 com foco no enfrentamento à violência digital contra as mulheres
Alinhada ao novo Decreto nº 12.976/2026, a qualificação integra a campanha nacional “O Digital é Nosso Lugar” e prepara a Central para identificar crimes virtuais, acolher vítimas e preservar provas

A partir desta terça-feira (9), o Ligue 180 inicia uma nova etapa de qualificação de atendentes para fortalecer o acolhimento, a orientação e o encaminhamento de casos de violência digital contra as mulheres. A iniciativa, realizada em parceria entre o Ministério das Mulheres e a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), ocorre no âmbito do Pacto Brasil contra o Feminicídio.
O objetivo é aprimorar a capacidade da Central para reconhecer situações de violência em ambiente virtual, orientar vítimas e denunciantes de forma humanizada, registrar melhor as ocorrências e produzir dados qualificados para subsidiar as políticas públicas de prevenção.
O Digital é Nosso Lugar
A qualificação integra a campanha nacional “O Digital é Nosso Lugar”, lançada pelo Ministério das Mulheres para afirmar que a internet é um espaço de cidadania, expressão e presença pública das mulheres. Com o mote “Nossa conexão é livre. Proteja. Denuncie. Ligue 180”, a campanha busca orientar sobre as regras previstas no Decreto nº 12.976/2026, que estabelece diretrizes para a proteção de mulheres na internet e o enfrentamento à violência de gênero online.
A nova norma entra em vigor no prazo de 60 dias e define obrigações para as plataformas digitais, incluindo a remoção rápida de conteúdo íntimo não autorizado, o combate a ataques coordenados e o enfrentamento ao uso de inteligência artificial para a manipulação de imagens falsas (deepfakes). Além disso, todas as plataformas deverão disponibilizar o canal do Ligue 180 como opção de denúncia em locais de fácil acesso.
"O digital também é nosso lugar. As mulheres têm o direito de ocupar a internet com segurança, liberdade e dignidade. A violência digital não é brincadeira, não é opinião e não é um problema menor. Ela produz medo, adoecimento, silenciamento e exclusão. Por isso, o Estado brasileiro está fortalecendo a prevenção, a responsabilização, os canais de acolhimento e o dever de cuidado das plataformas”, afirmou a ministra das Mulheres, Márcia Lopes.
Mapeamento
Para subsidiar o trabalho das atendentes, o Ministério estruturou ferramentas pedagógicas e normativas específicas para esta nova fase da Central. De acordo com Janara Sousa, professora, pesquisadora e chefe da Assessoria de Comunicação do Ministério das Mulheres, a preparação técnica foi minuciosa.
"Esse curso é para aperfeiçoar o atendimento da Central de Atendimento Ligue 180. O canal recebe diariamente um volume expressivo de demandas e já atende vítimas de crimes em ambientes virtuais. Para dar suporte, o Ministério das Mulheres preparou uma cartilha de apoio às atendentes e um guia para as mulheres em geral. O material produzido permitirá que atendentes e usuárias consigam identificar os crimes virtuais, registrar de forma tipificada, bem como reconhecer quais crimes são classificados como virtuais", detalhou Janara.
As profissionais serão capacitadas para orientar sobre os passos fundamentais após a agressão, como a preservação correta de evidências. A advogada e pesquisadora de crimes digitais, Almerinda Vasconcelos, ressalta o impacto jurídico dessa preparação e as mudanças trazidas pelo novo decreto.
"Os crimes virtuais geram danos às vezes irreparáveis para as mulheres. É importante que o relato, as informações e as características estejam bem discriminadas, para que as vítimas consigam ter continuidade do processo sem que haja a descaracterização da violência”, alertou Almerinda.
A advogada também destacou o papel das plataformas digitais na preservação das provas: "Na violência digital, remover o conteúdo é importante para reduzir o dano, mas isso não pode comprometer a apuração do caso. O decreto avança ao estabelecer que, diante de indícios de crime ou ato ilícito, as plataformas devem assegurar a guarda e o encaminhamento das informações necessárias à identificação da autoria e à comprovação da materialidade. Isso fortalece o trabalho das autoridades competentes e dá mais segurança ao atendimento das vítimas".
Atualização do sistema e dados do Ligue 180
Além da formação, o formulário de atendimento do Ligue 180 foi atualizado para detalhar o meio digital utilizado, o uso de inteligência artificial e a relação da violência online com outras agressões físicas ou psicológicas já sofridas pela vítima.
O diagnóstico estatístico reforça a urgência da medida. Os dados históricos da Central comprovam que a violência virtual é uma realidade crescente:
Período | Perfil das Denúncias no Ambiente Virtual (Ligue 180) |
|---|---|
Ano de 2025 | 4.584 denúncias com cenário virtual isolado e 9.079 denúncias registrando mais de 10 mil violações digitais combinadas. • Perfil: Maioria das denúncias feitas pela própria vítima (6.614); maior parte de mulheres negras (4.362); faixa etária predominante de 25 a 49 anos (4.610). • Agressor: Em 1.400 casos, o autor era ex-companheiro(a). |
Ano de 2026 (Até o momento) | 2.281 denúncias com cenário identificado em ambiente virtual e 54 denúncias específicas contendo 93 violações digitais tipificadas. |
Treinamento
O treinamento tem impacto direto na ponta do serviço, onde o acolhimento acontece. Fernanda Santos (nome fictício para preservar a identidade da colaboradora), atendente da Central Ligue 180, declara como a capacitação é importante para quem atua na linha de frente do combate à violência contra as mulheres.
“Eu tenho certeza de que conhecimento é tudo. É a base para fazer um bom trabalho, para ter um bom retorno, para você ter segurança na informação que passa e a certeza de que realmente vai ter uma efetividade e um retorno para a vítima que está ali nos esperando. Com esse treinamento, a gente vai ver uma efetividade na atuação e uma confiança a mais da mulher que vem procurar o nosso canal para poder ser auxiliada”, afirma Fernanda.
Na rotina do atendimento, as operadoras lidam diariamente com a evolução das dinâmicas de abuso, incluindo a forte presença do ambiente tecnológico. “A gente recebe cada relato que é difícil até de ler. Pegamos bastante casos de violência digital, virtual. Recentemente, recebi um caso que foi apresentado hoje no treinamento: a vítima tinha medida protetiva, mas se separou do ex-companheiro, que começou a proferir ameaças contra ela através do Pix. Ela não sentia segurança de forma alguma e precisou criar outra chave, porque ele conseguiu o Pix dela e enviava as ameaças por ali. Dava para sentir o medo dela pela leitura do relato. Então, a gente, como mulher, sentia a mesma coisa que ela estava sentindo”, relata a atendente.
Violência real e virtual
O Ministério alerta que os impactos do ambiente online repercutem diretamente na realidade, provocando adoecimento mental, danos à reputação, perda de autonomia econômica e o silenciamento de mulheres em espaços de decisão e política. Por ser de rápida propagação e difícil remoção, a violência digital frequentemente funciona como uma extensão do controle, da perseguição (stalking) e da chantagem já praticados pelos agressores no ambiente doméstico.
Serviço
Mulheres em situação de violência, inclusive no ambiente digital, ou qualquer pessoa que testemunhe a agressão, podem buscar orientação e registrar denúncias canais oficiais:
Ligue 180: Atendimento gratuito, confidencial e disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.
WhatsApp: (61) 9610-0180
O Digital é Nosso Lugar. Nossa conexão é livre. Proteja. Denuncie. Ligue 180