Relatos - Comunidade Vila do Pesqueiro

Dia 1: Quinta-feira, 23 de janeiro.
Ida à comunidade de Vila do Pesqueiro.
A Vila do Pesqueiro é uma Reserva Extrativista Marinha de Soure. A vila compreende o encontro do rio com o Oceano Atlântico. A areia branca da praia é cortada pela água doce, que deságua em mar aberto, para além dos bancos de areia – visíveis durante a maré baixa.
Seguimos até lá na companhia do Comandante Álvaro, da agência-barco Ilha do Marajó.
Quem nos recebeu na vila foi Patrícia Ribeiro. Ela integra a Associação de Mulheres da Vila do Pesqueiro (Amupesq), que reúne 25 mulheres, todo mês, em discussões acerca de seus direitos, trabalho e geração de renda. As mulheres se organizam em torno da pesca, do artesanato e da gastronomia.
O que começou como um “clube de mães”, no âmbito das atividades da Pastoral da Criança, tornou-se uma associação, com dez anos de atuação, que envolve mulheres na pesca de camarão, realização de eventos gastronômicos e comércio de artesanato, elaborado a partir de sementes da região.
Patrícia já atuou como vice-presidente e presidente da Amupesq e nos contou um pouco da organização das pescadoras e artesãs do Pesqueiro.

Patrícia Ribeiro – Pescadora e artesã, moradora da Vila do Pesqueiro
Meu nome é Patrícia Faria Ribeiro. Moro, nascida e criada, aqui na comunidade do Pesqueiro. Tenho quatro filhos.
Sobre o trabalho da Amupesq: Hoje a gente está aqui na Associação de Mulheres da Vila do Pesqueiro, dando uma força pras mulheradas. Já presidi esta associação por dois mandatos. O primeiro mandato como vice-presidente, na fundação dela, e depois servi dois mandatos como presidente.
Aqui a gente trabalha com o artesanato, que é o nosso forte, e a pesca. Tem mulheres que fazem o artesanato, tem mulheres que se dedicam à pesca. Também trabalhamos com fitoterápicos, que são as nossas plantas medicinais, que antes a gente tinha só como planta e, hoje, elas se transformam em remédios, em pomadas, em xaropes, chá, sabonete. Também trabalhamos com a gastronomia com a comida regional. Hoje também trabalhamos promovendo eventos gastronômicos.
Durante dois anos, o Sebrae esteve aqui, nos qualificou e capacitou aqui dentro. Hoje trabalhando, na prática, temos 25 mulheres. Nós somos 75 associadas. Tem dia em que esta associação se transforma só para o artesanato, há dias que é só para a gastronomia e tem dia que ela se transforma para o fitoterápico.
Ainda está sendo muito difícil o escoamento dos nossos produtos. Nós já temos 10 anos de fundação e são dez anos lutando pra que a gente possa melhorar de vida, ajudar em casa. Antes a gente vivia à tarde dormindo. Hoje a gente se fortaleceu dentro da associação, como mulher, como mãe, como comunitária. A gente espera que as nossas companheiras acreditem, porque a gente está trabalhando num só objetivo, com a ajuda do governo federal, que pra nós foi um crescimento dentro da comunidade, nos fortaleceu muito.
Antes a gente não sabia como caminhar e agora, através de programas, as mulheres se empoderam com o Bolsa-Família, com o Bolsa-Verde. Temos este empoderamento dentro da comunidade e a associação organiza tudo isso.
Sobre violência de gênero: Também trabalhamos com a Lei Maria da Penha aqui na comunidade. Nós vemos as pessoas mais antigas do que a gente: antes havia muita violência, os maridos pescadores eram bem rígidos, como a gente ainda tem algumas pessoas aqui que são.
Temos, de vez em quando, na comunidade, um caso de agressão do marido batendo na mulher. Eu já sofri muito isso, com meu primeiro marido, pai dos meus quatro filhos. Eu já fui violentada, comunidade toda sabia, mas, graças a Deus e a uns amigos, eu me libertei.
Hoje trabalho com as mulheres, fortalecendo esse empoderamento, que nós, como mulheres, temos que ter dentro da sociedade, buscando política pública pra que a gente possa sair da mesmice que a gente vivia, tentando mostrar pros nossos companheiros que a gente não é só mulher para o fogão, para tratar o peixe, e sim para viver na sociedade como todos.
Sobre a ida da embarcação: Que bom se a gente tivesse pra dentro da comunidade, pelo menos uma vez no mês, esse acompanhamento. Esse barco deve vir não só na comunidade do Pesqueiro, mas em Soure, no município. Fazer palestras, combate à violência e sensibilizar: tanto nós, como mulheres, que apanhamos, que sofremos essa injustiça, como nossos parceiros e o Poder Público. Que possa fazer uma sensibilização pra, pelo menos, amenizar. É triste saber que tu passa o dia e a noite, na cama, com teu parceiro e pegar um tapa, ser chamada de “puta” ou qualquer coisa assim, te destratar, né? Pelo menos, na frente dos teus filhos, é muito doído.
Então, que possam vir mais vezes e que a gente possa se reunir e levar – sem medo de levar – nos fortalecer e levar uma palavra amiga pra nossas companheiras que estão vivendo isso.
Nós não temos esse trabalho dentro do município, em especial aqui na comunidade, na Vila do Pesqueiro. Nós não temos esse trabalho de sensibilização, de mobilização, nós não temos. Pra a gente entender que a gente tem que denunciar, que nós não somos mais mulher pra apanhar, e sim pra viver, viver bem.
Clique aqui para ver o depoimento de Patrícia.
Veja também: Relatos - Comunidade Caju-una
Vídeos - Imagens de apoio
Roda de Conversa na comunidade de Caju-una
Chegada da embarcação em Soure:
http://www.youtube.com/watch?v=4AtzE-bP_RY
http://www.youtube.com/watch?v=eOP4TyUDON8
http://www.youtube.com/watch?v=V_VbMLwBHtg
http://www.youtube.com/watch?v=F1QFe2s0nHk
http://www.youtube.com/watch?v=b9xdLx34Yss
