Relatos - Comunidade Caju-una

Publicado em 03/02/2014 11:57Modificado em 30/11/2019 17:58
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 Dia 2: Sexta-feira, 24 de janeiro.

Na comunidade de Caju-una, em Soure, as mulheres costumam pescar tainha, bagre, bacu, corvina, pescada branca e amarela. Como afirmou Ivone, “tudo que bater na rede é peixe”. Na vila de pescadores, a equipe da SPM se reuniu, na sexta-feira (24/1), com cerca de cinquenta mulheres e homens, na escola de ensino fundamental da comunidade. Sr. Vazinho, presidente da Associação de Pescadores e Pescadoras do local, convidou moradores e moradoras para o encontro, que discutiu a Lei Maria da Penha e o contexto de violência doméstica na região. 

 Ana Lúcia de Oliveira Brito – Técnica em Enfermagem, moradora de Caju-una

Muitas mulheres hoje vivem sofrendo agressão de marido e muitas das vezes não denunciam porque têm medo, dizem: “ah, porque ele vai preso, mais tarde ele sai e vai me matar ou me espancar novamente”. Por esse motivo, elas não denunciam. Não vão procurar os seus direitos.

Nós temos uma lei. Nossos governantes tiveram essa preocupação de nos amparar. Nós, mulheres, somos amparadas por essa lei.

Eu sou casada, tenho marido, a gente conversa e eu falo: se você me bater, eu vou procurar o meu direito porque eu conheço e eu sei que tem uma lei que me ampara.

Muitas mulheres pensam que a agressão é apenas física. Se ela está com o rosto inchado, se ela está com o braço quebrado, ela é espancada, ela acha que está sendo agredida. E quando ela é agredida moralmente? Muitas delas não sabem que a agressão moral, psicológica, que leva a pessoa a ficar doente. Tudo aquilo vai atingindo o psicológico da mulher.

Eu não sabia, mas a lei também fala do patrimônio: rasgar roupa, documento, quebrar máquina. Por que foi muito importante a vinda de vocês? Porque eu tenho certeza de que muitas das mulheres que estavam aqui hoje sabiam só se apanhar a lei ampara. Foi importante a vinda de vocês aqui pra dar o esclarecimento a mim e a cada um que estava aqui. E aos homens também, pois eles estão vendo que, se eles fizerem isso, eles poder sem penalizados e vão ser, desde que a mulher procure o direito.

Tem mulher que apanha e ela diz “que ele me bateu hoje e não vai bater mais”. Ele bate de novo, vai batendo, batendo, e até pode, mais tarde, matá-la.

O barco traz benefício porque ele está trazendo vocês para dar esclarecimento pra nós. Isso já é muito gratificante.

No nosso município, ainda falta estrutura pra estar atendendo estes casos. Não que se procure e não seja feito nada, mas que o município melhore. A gente sabe que tem muitos casos de mulheres agredidas.

Mas foi muito bom os homens saberem e as outras pessoas por onde vocês vão passar saber que a mulher não pode ir lá e retirar a queixa. É importante que venha uma equipe. De repente a mulher está precisando de um apoio psicológico. É importante já vir com essa equipe formada.

Assista aqui ao depoimento de Ana Lúcia.

 Ivone do Socorro Santos e Silva – Pescadora de Caju-una

Nasci e me criei na comunidade de Caju-una. Tive meus quatros filhos aqui, dois casais. Dois falecidos. Os outros estão bem, graças a Deus: uma tem 25 anos, que é a mãe de Andrea; outro é um rapaz, tem 22 anos. E tamo vivendo.

Sobre negócio de violência, que eu saiba aqui na nossa comunidade não existe. Tanto que eu tenho marido e, em casa, nunca aconteceu isso. Nem comigo nem com minha filha. Já vi, sim, uma vez lá em casa, quando a gente morava em Soure, mas muitos anos atrás. 

Meu pai ainda era vivo. Meu marido chegou bêbado em casa, querendo me agredir. Aí meu pai pegou uma faca pra querer furar ele.

Ele não chegou a me bater, ele só chegou a me falar palavras. E meu pai não gostou. Qual é o pai que vai gostar? Ainda mais que eu era a única filha. E eu morando em casa com ele todos esses anos. Aí depois disso e, antes, nunca aconteceu.

A gente nasceu não pra ser espancada por homem nenhum, tanto faz ele, marido, irmão, o que for. Tem que existir a Maria da Penha, sim. Porque a lei que dá jeito nisso. O cara pega uma cadeia que acaba logo com a valentia, não é verdade? Só que muitas das vezes, a mulher não tem aquela coisa de chegar na polícia e dá a denúncia, de que o marido está batendo nela.

Sobre o trabalho: A gente põe rede na praia, no vareiro, põe na rabiola, pega o peixe, desmalha. A gente pesca no rio Caju-una. Pega a tainha, quando é na época dela. Abril, maio, junho tem muito peixe no rio.

Eu crio também: tenho minhas criações de galinha, de pato, porco, em casa. O meu trabalho é esse: cuidar dos meus bichos, cuidar da minha casa e do meu trabalho.

Eu não recebo nenhum benefício do governo federal. A única coisa que eu estava esperando é a Bolsa-verde, que eu me cadastrei, assinei e até agora não veio.

O peixe que a gente pesca nós vendemos para o marreteiro, que mora aqui na comunidade. Ele gela esse peixe e leva através de carro pra Belém. Com dois dias, ele está voltando e já está comprando de novo. O meio de viver aqui é a pesca mesmo.

Eu amo meu lugar. Eu sou filha daqui, eu jamais vou me desfazer do meu lugar. Até porque foi onde minha mãe me teve, me criou, onde meus pais moraram, toda minha família. Nós somos nove irmãos, eu sou a filha única. Só eu de mulher no meio deles.

 Roda de conversa com trabalhadoras rurais

Pescadoras, marisqueiras e agricultoras participaram da última atividade da SPM em Soure, na tarde da sexta (24/1). No auditório da Prefeitura do município, o grupo que percorre a região marajoara debateu a Lei Maria da Penha e a realidade local das mulheres em situação de violência e coletou propostas de atendimento itinerante às mulheres dos rios e das praias. Dentre elas, sugestões de capacitações e difusão dos direitos da mulher e da Lei Maria da Penha em programas de rádios.

Para Patrícia Ribeiro, da Vila do Pesqueiro, as mulheres devem, também, se organizar e independentemente da vinda da embarcação. “A embarcação vem, passa dois dias, vai embora e nós ficamos. Precisamos nos organizar até mesmo para contribuir com o trabalho do barco”, afirmou.

Amelinha Teles reforçou o posicionamento: “Se existir um movimento articulado de mulheres, até o Poder Público poderá fazer mais”. 

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Soure acatou a sugestão e propôs a criação de uma comissão na estrutura do sindicato. “Vamos criar uma comissão e, através dessa comissão, nós vamos nos fortalecer. Vamos pedir apoio do Poder Público, e a gente não pode parar por aí, não”, enfatizou. 

 Socorro Peua – Presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Soure

Tu não sabe o quanto foi importante pra gente a visita de vocês aqui. Então, pra gente foi muito importante porque tem muitos casos aqui em Soure que elas não tiveram coragem de mostrar. Eles ameaçaram: “olha, se tu for pra lá” — porque todo mundo me conhece aqui — “tu vai ver o que eu vou te fazer”. 

Então pra nós foi de muita importância porque com certeza vamos criar uma comissão aqui. 

Eu já estou no terceiro mandato do sindicato, faz 12 anos. 

Você não sabe o quanto foi divulgado. Só que elas não tiveram coragem de vir. Tem aquele medo, tu tá entendendo? Porque a cidade é pequena, todo mundo se conhece. Aí vão dizer: “olha, sabe quem estava lá ‘fulana’, que ‘fulano’ furou ela ontem”. Então elas ficam com medo de vir. 

Se Deus quiser, vamos criar uma comissão e, através dessa comissão, nós vamos fortalecer e, com certeza, o barco vai andar agora. Vamos pedir apoio do Poder Público, e a gente não pode parar por aí, não. Porque quem cala consente, né? Demos o primeiro grito, então vamos até o fim.  

Veja também: Relatos - Comunidade Vila do Pesqueiro 

 Vídeos - Imagens de apoio

Roda de Conversa na comunidade de Caju-una

Caju-una

Chegada da embarcação em Soure:

http://www.youtube.com/watch?v=4AtzE-bP_RY 

http://www.youtube.com/watch?v=eOP4TyUDON8

http://www.youtube.com/watch?v=V_VbMLwBHtg 

http://www.youtube.com/watch?v=F1QFe2s0nHk

http://www.youtube.com/watch?v=b9xdLx34Yss 

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