HIDROVIAS E CIDADANIA

A viagem das urnas: navegação leva o direito ao voto a comunidades remotas da Região Norte

No Amazonas, cerca de 4 mil seções dependem do transporte fluvial; no Pará, mais de 400 mil eleitores ribeirinhos estão aptos a votar em 2026

Publicado em 27/08/2026 15:58Modificado há 8 horas
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Caixas com materiais da Justiça Eleitoral, embaladas e identificadas, são transportadas em uma embarcação.
No Amazonas, aproximadamente 4 mil seções eleitorais dependem exclusivamente do transporte fluvial. Foto: Junior Souza/TRE - Amazonas

Nas Eleições Gerais de 2026, os rios serão parte fundamental do caminho percorrido pelas urnas eletrônicas até comunidades remotas da Região Norte. No Amazonas e no Pará, a logística fluvial contará com embarcações contratadas pela Justiça Eleitoral para levar urnas, materiais e equipes técnicas até locais de votação onde o acesso terrestre é limitado ou inexistente.

No Amazonas, aproximadamente 4 mil seções eleitorais dependem exclusivamente do transporte fluvial. No Pará, mais de 400 mil eleitores ribeirinhos estão aptos a votar. Em muitos casos, chegar a uma seção eleitoral significa navegar durante horas ou até dias e combinar diferentes meios de transporte.

Uma das operações realizadas no Amazonas ajuda a dimensionar esse desafio. Protegidas contra a água e acomodadas no porão de uma embarcação, 467 urnas eletrônicas foram transportadas de Manaus para municípios e comunidades do interior do estado. O percurso mais longo supera 1,5 mil quilômetros até Tabatinga, no extremo oeste do Amazonas, e pode durar aproximadamente sete dias.

A viagem, porém, começa muito antes do embarque. Por trás de cada urna instalada em uma comunidade remota existe uma operação planejada com meses de antecedência. É necessário definir as rotas, selecionar as embarcações, calcular o tempo dos deslocamentos, acompanhar o nível dos rios e preparar alternativas para situações em que o trajeto não possa ser concluído pela água.

Em alguns percursos, a urna passa por diferentes meios de transporte até chegar ao local de votação. A viagem pode começar em uma embarcação de maior porte, continuar em barcos menores e terminar por via terrestre ou aérea. Essa combinação permite adaptar a operação às distâncias, às condições de navegabilidade e às características de cada comunidade.

Uma viagem de mais de 1,5 mil quilômetros

No Amazonas, o transporte fluvial está presente em diferentes etapas da operação eleitoral. As embarcações levam as urnas até os polos de distribuição, transportam materiais para os municípios e garantem o deslocamento de equipamentos, equipes e alimentação das sedes municipais até as comunidades rurais.

Segundo o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), aproximadamente 4 mil seções eleitorais dependem exclusivamente da navegação. Como o transporte fluvial é utilizado em diferentes momentos e trajetos, não há um quantitativo consolidado das embarcações mobilizadas em toda a operação.

Na primeira remessa, além das 467 urnas eletrônicas, foram transportadas cabines de votação, baterias, cabos, sacolas, cadernos de votação e outros materiais necessários à realização das eleições.

A operação atende Atalaia do Norte, Benjamin Constant, Santo Antônio do Içá, São Paulo de Olivença, Amaturá, Tabatinga e Tonantins. Também alcança a comunidade de Ipiranga, em Santo Antônio do Içá, e Vila Bittencourt, em Japurá, na região do Médio Solimões.

São Paulo de Olivença e Tabatinga funcionam como pontos de distribuição. Além de receberem as urnas destinadas às próprias seções eleitorais, os municípios concentram equipamentos que depois seguem para localidades próximas.

Atalaia do Norte, Benjamin Constant, Santo Antônio do Içá e Tonantins, por sua vez, recebem e preparam os equipamentos que serão utilizados nos próprios municípios. As informações necessárias à votação são inseridas nas urnas depois que elas chegam aos respectivos destinos.

O Amazonas possui ainda 49 comunidades classificadas pela Justiça Eleitoral como locais de difícil acesso. Para alcançar essas áreas, a operação pode recorrer a aviões ou helicópteros, conforme a disponibilidade das aeronaves e as condições de cada percurso.

Mesmo quando o transporte aéreo é necessário, a navegação pode continuar presente em outras etapas, como na distribuição dos materiais, no deslocamento das equipes e no abastecimento das localidades.

Eleitores ribeirinhos no Pará

No estado do Pará, a estimativa é de que 400.536 eleitores ribeirinhos estejam aptos a votar em 2026. O número representa 6,39% do eleitorado estadual, estimado atualmente em 6.265.355 pessoas.

Das 22.072 seções eleitorais do estado, 1.691 são consideradas ribeirinhas. Entre elas, 622 somente podem ser acessadas por via fluvial.

De acordo com o Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA), 3.299 urnas eletrônicas serão transportadas por embarcações. Ao todo, 69 municípios dependem total ou parcialmente do transporte hidroviário para a realização das eleições.

Para apoiar a operação, está prevista a mobilização de 4.310 veículos terrestres e fluviais. Eles serão utilizados no transporte de pessoas, urnas, materiais e demais equipamentos necessários à votação.

A distribuição combina embarcações de diferentes portes, veículos terrestres e aeronaves. A escolha depende da localização de cada comunidade, da distância até os pontos de distribuição e das condições encontradas ao longo do percurso.

Em determinadas localidades, o transporte fluvial cobre a maior parte da viagem. Em outras, a embarcação leva as urnas e as equipes até um ponto a partir do qual o deslocamento precisa continuar por terra ou pelo ar.

Essa integração permite alcançar comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas e outras localidades de difícil acesso da Amazônia paraense.

Cheias, secas e marés alteram as rotas

O nível dos rios influencia a definição das rotas, o tipo de embarcação utilizado e o tempo das viagens. Durante a seca, a redução da profundidade da água e o surgimento de bancos de areia podem restringir ou impedir a circulação de barcos de médio e grande porte.

Quando isso ocorre, embarcações menores e de menor calado, como as rabetas, podem substituir os barcos inicialmente previstos. Em determinados trechos, equipamentos e equipes também podem seguir em triciclos, veículos de tração animal ou até mesmo a pé.

Essas adaptações são necessárias porque uma mesma rota pode apresentar condições diferentes ao longo do ano. Um trecho percorrido por uma embarcação de maior porte durante a cheia pode exigir um barco menor no período de vazante.

A cheia também pode trazer dificuldades. O aumento da correnteza e outras alterações nas condições de navegabilidade exigem atenção redobrada e podem tornar os deslocamentos mais complexos. Maior volume de água, portanto, não significa necessariamente uma viagem mais simples.

No Pará, o regime de marés acrescenta outra variável ao planejamento. As oscilações no nível das águas podem modificar as condições de acesso e dificultar a previsão exata da duração de determinados percursos.

Por isso, a operação exige acompanhamento constante das condições de navegabilidade, definição prévia de rotas alternativas e articulação com forças de segurança e estruturas de apoio aos transportes fluvial, terrestre e aéreo.

Uma operação multimodal

Embora os rios sejam o eixo principal da logística em muitas localidades, a operação eleitoral na Região Norte não depende de um único meio de transporte. Embarcações, veículos terrestres e aeronaves são combinados de acordo com as características de cada percurso.

Quando uma embarcação de maior porte não consegue prosseguir, as urnas podem ser transferidas para barcos menores. Se a navegação se tornar inviável no trecho final, a viagem pode continuar por terra. Nas comunidades classificadas como de difícil acesso, aviões e helicópteros podem completar o deslocamento.

A integração entre os modais permite adaptar a distribuição das urnas às dimensões territoriais do Amazonas e do Pará e às mudanças nas condições dos rios. Também reduz o risco de que obstáculos encontrados durante o percurso impeçam a chegada dos equipamentos e das equipes aos locais de votação.

Da preparação à transmissão dos resultados

Antes do embarque, as urnas são ligadas e verificadas individualmente para confirmar o funcionamento dos equipamentos. Durante a viagem, ficam acomodadas em embalagens preparadas para reduzir o risco de danos provocados por impactos, movimentação da embarcação ou contato com a água.

Ao chegarem aos cartórios eleitorais, os equipamentos passam por novos testes. Caso alguma urna apresente problema, ela pode ser substituída antes da preparação para a votação. As informações necessárias à eleição são então inseridas nos equipamentos nos locais de destino. Depois desse procedimento, uma nova verificação confirma se as urnas estão prontas para uso.

A chegada dos equipamentos, no entanto, não encerra a operação. Em muitas comunidades do Amazonas e do Pará, a baixa conectividade representa outro desafio para a Justiça Eleitoral.

Após o encerramento da votação, os resultados precisam ser transmitidos. Nas áreas sem acesso regular à internet ou aos serviços de telecomunicações, são necessárias soluções específicas para que os dados cheguem aos centros de totalização.

O planejamento precisa contemplar, portanto, as duas direções da viagem: a chegada das urnas, dos materiais e das equipes às comunidades e o retorno seguro das informações produzidas durante a eleição.

Hidrovias como política pública

A política pública de hidrovias envolve o planejamento e a organização das condições necessárias ao transporte pelos rios. Na Região Norte, onde diversas comunidades não possuem ligação rodoviária, essa infraestrutura é fundamental para o deslocamento de passageiros, cargas e serviços públicos.

Profundidade dos canais, sinalização, variações do nível das águas e características das embarcações estão entre os fatores que interferem na regularidade e na segurança das viagens.

A logística eleitoral mostra como essa política se relaciona diretamente com o cotidiano da população. Embora a distribuição das urnas seja responsabilidade da Justiça Eleitoral, a operação utiliza as mesmas vias navegáveis percorridas diariamente por passageiros, alimentos, medicamentos, combustíveis e outros insumos.

No Amazonas e no Pará, a chegada dos equipamentos aos locais de votação depende da combinação entre planejamento logístico, condições dos rios e disponibilidade de diferentes meios de transporte. Nesse contexto, as hidrovias não se limitam à movimentação de cargas: também funcionam como caminhos de acesso a direitos e serviços públicos.

Nas Eleições Gerais de 2026, cada percurso exigirá planejamento, proteção dos equipamentos e adaptação às condições das águas. Em algumas localidades, a viagem levará horas; em outras, vários dias e mais de uma modalidade de transporte.

Na Amazônia, a distância até a seção eleitoral também é medida pelo curso dos rios. Onde o acesso por terra não existe, é a navegação que abre caminho para o direito ao voto.

Assessoria Especial de Comunicação Social
Ministério de Portos e Aeroportos

Categorias
Infraestrutura, Trânsito e Transportes
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