No Dia Internacional da Democracia, Brasil se despede de Amelinha Teles, referência na defesa dos direitos humanos
Jornalista, escritora, feminista e defensora dos direitos humanos morreu nesta terça-feira (15), aos 81 anos; sua trajetória foi marcada pela defesa da democracia, da memória política e dos direitos das mulheres

O Brasil se despediu nesta terça-feira (15), Dia Internacional da Democracia, de Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha Teles, uma das referências históricas do feminismo e da defesa dos direitos humanos no país. Jornalista, escritora e ativista, ela morreu aos 81 anos, depois de uma trajetória marcada pela resistência à ditadura, pela defesa da memória e da verdade e pela organização das mulheres na luta por direitos.
A coincidência da data acrescenta simbolismo à sua despedida. Celebrado anualmente em 15 de setembro, o Dia Internacional da Democracia foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2007 para promover e fortalecer os princípios democráticos, compreendidos a partir da participação das pessoas nas decisões políticas, sociais, econômicas e culturais de suas sociedades.
Nascida em Contagem, Minas Gerais, em 1944, Amelinha iniciou ainda jovem sua militância política. Durante a ditadura militar, foi presa e, em dezembro de 1972, levada à Operação Bandeirantes (Oban), em São Paulo, onde sofreu tortura. Seu marido, César Augusto Teles, também foi preso. Os filhos do casal, Edson e Janaína, então com 4 e 5 anos, foram levados ao centro de repressão e presenciaram violações cometidas contra os pais.
Décadas depois, a família Teles protagonizou uma ação judicial que resultou no reconhecimento, pela Justiça, de Carlos Alberto Brilhante Ustra como torturador. A experiência pessoal com a violência de Estado atravessaria grande parte da atuação pública de Amelinha, especialmente na defesa do direito à memória, à verdade e à justiça.
Direitos das mulheres e acesso à Justiça
Com a redemocratização, a atuação de Amelinha ganhou também centralidade na organização feminista. Em 1981, foi uma das fundadoras da União de Mulheres do Município de São Paulo, organização voltada à promoção dos direitos das mulheres, ao enfrentamento das violências e à igualdade.
Também coordenou o Projeto Promotoras Legais Populares, desenvolvido pela União de Mulheres em São Paulo desde 1994. A iniciativa utiliza a educação popular feminista em direitos para ampliar o acesso de mulheres ao sistema de Justiça, aos serviços públicos e às políticas de proteção, formando lideranças capazes de multiplicar esses conhecimentos em suas comunidades.
Sua atuação alcançou ainda as políticas de memória do país. Amelinha integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e atuou como assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, criada para investigar graves violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura.
Reconhecimento nacional e internacional
Ao longo da vida, Amelinha recebeu diferentes reconhecimentos por sua atuação. Em 2004, esteve entre as primeiras agraciadas com o “Diploma Mulher-Cidadã Carlota Pereira de Queirós”, concedido pela Câmara dos Deputados a mulheres que se destacaram na defesa dos direitos femininos no Brasil.
No ano seguinte, foi uma das 52 brasileiras incluídas na indicação coletiva de mil mulheres de 153 países ao Prêmio Nobel da Paz de 2005, iniciativa internacional criada para dar visibilidade ao trabalho de mulheres na construção da paz. O grupo brasileiro foi selecionado entre 262 nomes apresentados por organizações, redes, universidades, sindicatos e outras entidades.
Em 2022, Amelinha recebeu o “Prêmio de Direito à Memória e à Verdade Alceri Maria Gomes da Silva”, da Prefeitura de São Paulo, destinado ao reconhecimento de pessoas e instituições que atuam na preservação da memória das violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura.
Em outubro de 2023, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) concedeu a ela o título de “doutora honoris causa”, reconhecimento destinado a personalidades de destacada contribuição à sociedade.
Em 2025, a Universidade de São Paulo anunciou Amelinha como homenageada na categoria individual do “Prêmio USP de Direitos Humanos – Dr. José Gregori”, em reconhecimento às contribuições para a promoção e defesa dos direitos humanos.
Pensamento e memória em livros
Amelinha também registrou em livros a história do feminismo brasileiro, os direitos das mulheres e as marcas deixadas pela repressão política. Entre suas obras estão:
Breve história do feminismo no Brasil (1993), posteriormente reeditado em versão ampliada
O que é violência contra a mulher? (2002),coautoria com Mônica de Mello
O que são direitos humanos das mulheres? (2007)
Feminismos: Ações e histórias de mulheres (2028), voltado ao público jovem e infanto-juvenil
Contos da Cela Três: Memórias de uma presa política na ditadura (2024), obra em que recorre à ficção para abordar memória, autoritarismo, violência e resistência.
Da resistência à ditadura e à formação de mulheres para conhecer e reivindicar seus direitos, a trajetória de Amelinha Teles atravessou momentos decisivos da história democrática brasileira. Sua morte justamente no Dia Internacional da Democracia encerra uma vida dedicada à defesa de valores que ajudou a transformar em ação coletiva: liberdade, igualdade, memória, justiça e direitos humanos.