CULTURA E MEMÓRIA

Conheça cinco mulheres negras que lutaram pela abolição da escravatura

Mais do que marcar a assinatura da Lei Áurea, o 13 de maio convida à reflexão sobre a resistência negra, o protagonismo de mulheres negras na luta contra a escravidão e os impactos sociais deixados pela abolição sem reparação no Brasil 

Publicado em 13/05/2026 15:54
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Cinco mulheres que lutaram pela abolição da escravatura

O dia 13 de maio é marcado pela assinatura da Lei Áurea, em 1888, quando a princesa Isabel, então regente do Império, decretou oficialmente o fim da escravidão no Brasil. Durante muito tempo, a data foi apresentada como símbolo da “libertação” concedida pela monarquia, reforçando a imagem da princesa como heroína responsável pela abolição.

No entanto, essa narrativa apaga séculos de protagonismo negro, historicamente invisibilizado, reprimido e silenciado. A abolição foi consequência direta das revoltas, fugas, formações de quilombos e articulações políticas lideradas pela população negra contra o sistema escravista ao longo da história do Brasil. 

A criação desse imaginário da princesa Isabel como heroína também passa pelo apagamento da trajetória de diversas mulheres negras que lutaram pela liberdade, como Dandara dos Palmares, Tereza de Benguela, Luiza Mahin, Maria Felipa de Oliveira e Maria Firmina dos Reis, além de tantas outras pessoas negras protagonistas da luta pela libertação. 

Além disso, a Lei Áurea não foi acompanhada de medidas de reparação social, econômica ou política. Na prática, o Estado apenas deixou de reconhecer legalmente a propriedade de uma pessoa sobre outra, sem garantir condições dignas de sobrevivência à população negra liberta. Sem acesso à terra, moradia, trabalho formal, educação ou documentação, muitas pessoas negras permaneceram em condições extremas de vulnerabilidade, sendo obrigadas a aceitar trabalhos precários, mal remunerados ou pagos apenas com alimentação. 

Por isso, o 13 de maio é considerado por muitos movimentos negros um momento de reflexão sobre os impactos da escravidão, o racismo estrutural e a importância de reconhecer o protagonismo negro na construção da liberdade no Brasil.  

Dandara dos Palmares   

Dandara dos Palmares foi uma importante guerreira e liderança do Quilombo dos Palmares, reconhecida por sua atuação na luta contra a escravidão no Brasil colonial. Companheira de Zumbi dos Palmares, com quem teve três filhos, sua trajetória ainda é cercada por poucas informações e diferentes versões históricas.

Segundo relatos, Dandara dominava técnicas de capoeira e participava ativamente da defesa de Palmares contra os constantes ataques sofridos pelo quilombo no século XVII, na região da Serra da Barriga, atual estado de Alagoas. Além da resistência armada, ela teve papel fundamental na organização e manutenção da comunidade quilombola.

Em 1678, quando Ganga Zumba, então líder de Palmares e tio de Zumbi, firmou um acordo com o governo de Pernambuco, que previa a liberdade apenas para parte dos quilombolas em troca da devolução de pessoas escravizadas fugitivas, Dandara e Zumbi se posicionaram contra o pacto. Para eles, a liberdade não poderia ser negociada de forma parcial.

Para não ser capturada e voltar à condição de escravizada, Dandara teria se jogado de uma pedreira, escolhendo morrer em liberdade em 1694.

Tereza de Benguela

Conhecida como Rainha Tereza, Tereza de Benguela foi uma das principais lideranças negras do período colonial brasileiro, marcada pela resistência à escravidão e pela habilidade política e estratégica na organização quilombola. No século XVIII, após a morte de seu companheiro, José Piolho, ela assumiu o comando do Quilombo do Piolho, também conhecido como Quilombo do Quariterê, tornando-se uma importante rainha quilombola.

Sob sua liderança, o quilombo desenvolveu um sistema próprio de organização política, econômica e social. Tereza administrava as atividades da comunidade, coordenava a defesa do território e mantinha relações de troca, inclusive de armas, com pessoas brancas da região. Os moradores produziam algodão, dominavam técnicas de forja e comercializavam tecidos e alimentos excedentes, garantindo a autonomia da comunidade.

Durante seu comando, o Quilombo do Quariterê tornou-se um dos maiores da região, reunindo mais de cem pessoas negras e indígenas em um sistema coletivo de produção, proteção e governança. A resistência organizada permitiu que o quilombo sobrevivesse por cerca de duas décadas enfrentando o regime escravista.

Em reconhecimento à sua trajetória de luta e resistência, o dia 25 de julho foi instituído como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, data que celebra a força e a contribuição histórica das mulheres negras no Brasil.                                                                                                                                         

Luiza Mahin 

Africana trazida da Costa da Mina, região localizada no oeste do continente africano, Luiza Mahin teria pertencido a uma família de origem nobre antes de ser escravizada e enviada ao Brasil. Alforriada em 1812, passou a viver em Salvador (BA), onde trabalhava como quituteira e teve seu filho, Luís Gama, que mais tarde se tornaria um dos mais importantes abolicionistas e poetas brasileiros.

Luiza Mahin ficou conhecida por sua participação em movimentos de resistência negra durante o período escravista, como a Revolta dos Malês, em 1835. Segundo algumas narrativas, caso a revolta tivesse sido vitoriosa, Luiza Mahin poderia ter se tornado a Rainha da Bahia. Ela também teria participado da Sabinada, em 1837, outro movimento de contestação ao poder imperial.

Perseguida pelas autoridades após o envolvimento nas revoltas, Luiza fugiu para o Rio de Janeiro (RJ), onde acabou sendo presa. Seu destino final permanece incerto. Algumas versões afirmam que ela teria sido deportada para Angola, enquanto outras apontam que conseguiu escapar e se estabelecer no Maranhão, onde teria contribuído para tradições culturais afro-brasileiras, como o tambor de crioula.

Maria Felipa de Oliveira 

Maria Felipa de Oliveira foi uma importante liderança popular na luta pela Independência da Bahia, no início do século XIX. Nascida na Ilha de Itaparica, na Bahia, vivia como pescadora e marisqueira, destacando-se pela atuação na resistência contra as tropas portuguesas durante o processo de independência do Brasil.

Reconhecida por sua coragem e capacidade de liderança, Maria Felipa organizou cerca de 200 pessoas, entre mulheres negras e indígenas, para combater os ataques portugueses à ilha. Durante os confrontos, ela e seus companheiros chegaram a incendiar cerca de 40 embarcações portuguesas. 

Sua atuação tornou-se símbolo da participação popular, feminina e negra nas lutas pela independência do país. Apesar de por muito tempo ter sido apagada da história oficial, Maria Felipa foi citada por historiadores como Ubaldo Osório Pimentel e Xavier Marques, que registraram sua liderança e a mobilização organizada por ela durante os conflitos na Bahia.

Maria Firmina dos Reis   

Maria Firmina dos Reis nasceu em 1825, na Ilha de São Luís, no Maranhão, e é considerada a primeira romancista brasileira. Escritora, compositora e poeta, destacou-se por sua atuação intelectual e por abordar, em suas obras, temas ligados à escravidão, à liberdade e à condição das mulheres negras no Brasil.

Em 1830, mudou-se para o município de Guimarães (MA), onde iniciou sua formação de maneira autodidata. Aos 22 anos, tornou-se a primeira mulher aprovada em concurso público para o cargo de professora no estado do Maranhão, construindo uma trajetória pioneira na educação brasileira.

Em 1859, publicou o romance Úrsula, considerado o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira e também a primeira obra do gênero escrita por uma mulher negra no país. O livro denunciava a violência da escravidão e dava voz a personagens negros em um período em que essas narrativas eram raras na literatura nacional.

Após se aposentar, em 1880, Maria Firmina fundou uma escola gratuita e mista no povoado de Maçaricó, iniciativa considerada inovadora para a época por reunir meninas e meninos no mesmo espaço de ensino. Mesmo aposentada, continuou atuando na campanha abolicionista e produzindo obras de caráter antiescravista até sua morte, em 1917, no município de Guimarães.

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Cultura, Artes, História e Esportes
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