Salvaterra - 22 e 23 de janeiro

Publicado em 28/01/2014 13:29Modificado em 30/11/2019 17:58
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 Dia 1: Quarta-feira, 22 de janeiro.

Aportamos no trapiche de Soure na manhã de quarta-feira, 22 de janeiro. Embora a agência-barco ficasse atracada neste município, a equipe da SPM seguiu em um pequeno bote para Salvaterra.

As cidades são próximas, separadas apenas pelas águas do rio Paracauari. É costume realizar a travessia diária por meio de bote, rabeta ou balsa. Uma cidade encontra a outra no horizonte.

De início, Salvaterra estava no roteiro de atendimento da agência-barco Caixa Ilha do Marajó. Mas a embarcação não foi capaz de atracar na localidade, uma vez que não havia porto apropriado para recebê-la.

A paisagem da travessia era exuberante. Enquanto o pequeno barco cortava a água, gaivotas e guarás acompanhavam o trajeto. Próximos às margens, os búfalos — uma das grandes atrações do Marajó — se banhavam nas águas do rio. Salvaterra nos recebeu com o céu azul e aberto. Daríamos início à agenda na região.

Reuniões com o poder público

Em Salvaterra, ‘Mulher, Viver sem Violência’ é apresentado ao sistema de justiça local e à Secretaria de Assistência Social.

A equipe da SPM que segue viagem na agência-barco Caixa Ilha de Marajó se reuniu com o juiz Antônio Cury, a promotora Melina Barbosa e o defensor público Bernardo Moraes, na quarta-feira (22/1). Na parte da tarde, a SPM se reuniu com profissionais da Secretaria de Assistência Social de Salvaterra e com a secretária Noélia Gonçalves.

No encontro, Luana Grillo apresentou os eixos do programa ‘Mulher, Viver sem Violência’ e as ações da SPM na região marajoara por meio da embarcação. Luana assinalou que, de acordo com o último balanço da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, mulheres do estado do Pará, no primeiro semestre de 2013, contabilizam 2.700 ligações para o Ligue 180. “De Salvaterra, a Central de Atendimento à Mulher recebeu sete ligações”, salientou.

**Ao falar do cenário local de violência doméstica, o juiz Antônio Cury afirmou que “as mulheres do Marajó são extremamente dependentes economicamente do marido”. De acordo com Cury, de cada 100 casos de mulheres que denunciam a agressão, 90% delas não dão prosseguimento ao processo.

O juiz defende que, para mudar esse quadro, é necessário realizar um trabalho de conscientização, por meio de programas de rádio e de discussões nas escolas primárias. Em sua opinião, a embarcação pode contribuir neste tipo de mobilização.

Para o psicólogo André Vaz, da Secretaria de Assistência Social, formação e conscientização também devem ser ações do atendimento itinerante às mulheres das águas. “A formação é necessária para que a mulher em situação de violência tenha condições de dar um passo à frente: denunciar e se sentir segura ao fazer esta denúncia”, opinou.

Ana Elizabeth, assistente social de Salvaterra, acredita que, além do processo formativo e de difusão dos direitos das mulheres para as comunidades ribeirinhas, incentivado pelas ações do barco, seria importante também se criar um núcleo de atendimento especializado para a mulher na localidade.

Todas as propostas sugeridas são incorporadas ao diagnóstico que está sendo realizado pela SPM, ao longo da viagem pela Ilha do Marajó. O diagnóstico subsidiará um projeto de atendimento itinerante às mulheres em situação de violência de municípios de acesso via fluvial.

 Dia 2: Quinta-feira, 23 de janeiro.

Comunidade remanescente de quilombo Caldeirão

Realizamos novamente a travessia de Soure a Salvaterra, na quinta-feira (23/1). Dessa vez, partimos em uma rabeta, pequeno barco de madeira a motor. O percurso durou cerca de 10 minutos, inferior ao trajeto no bote.

A articulação até a comunidade quilombola de Caldeirão se deu por meio da secretária de Assistência Social de Salvaterra, Noélia Gonçalves. Foi ela quem entrou em contato com Raimundo Hilário, coordenador da Associação de Moradores de Caldeirão. Ele e o taxista Roni nos mostraram a comunidade.

Em Caldeirão, conhecemos a benzedeira e parteira dona Maria Amélia, mais conhecida como Dona Florzinha, e fomos apresentadas à família de Dona Conceição. Conversamos durante toda a manhã com suas filhas Maria Auxiliadora, Maria de Fátima, Marli e Marcy, e as netas Nilma e Rayane.

A comunidade remanescente de quilombo Caldeirão possui aproximadamente 1.800 habitantes. A maioria da população vive da pesca e da agricultura. Segundo Hilário, a horticultura é a principal atividade agrícola. Planta-se coentro, alface, couve e mandioca.

 Ao falar sobre a origem do quilombo, Maria Auxiliadora, filha de Dona Conceição, contou que Caldeirão remonta da época do império, quando da Revolta da Cabanagem, ocorrida na então província do Grão-Pará, entre 1835 e 1840. Segundo Auxiliadora, o território serviu de refúgio para escravos negros durante o conflito. Já o nome da comunidade faz alusão a um fenômeno fluvial, em que as águas do rio se movem tal qual um redemoinho, ou um caldeirão, e que se apresenta nas águas do Paracauari, rio que banha a comunidade.

 Encontro com Dona Maria Amélia (D. Florzinha) – Benzedeira e parteira de Caldeirão (Salvaterra)

Dona Florzinha é apelido que a irmã lhe colocou. Seu nome verdadeiro é Maria Amélia, igual ao de sua avó. O primeiro parto que realizou foi de um garoto, há 25 anos. Mas, há dois anos, largou da atividade. “Depois que meu marido morreu, eu dei por encerramento. Hoje em dia, eu puxo, ajeito todinho e mando pro hospital. Tá torto, eu ajeito ali”, contou Amélia.

Quando começou, Dona Florzinha “tinha muito medo de fazer parto”. Mas, de acordo com ela, todos os que fez “saiu bem”. De benzer, nunca deixou. “Eu benzo quebranto, febre que dá nas crianças, dá vômito”, disse. “Todo dia tem gente aqui pra eu benzer”, acrescentou.  Aposentada, Florzinha conta que trabalhou bastante na pesca e que, agora, recebe pensão por invalidez: “Recebo minha pensão devido à coluna. Tenho dor, muita dor, na coluna”.

Dona Florzinha nasceu, se criou e, segundo ela, irá morrer em Caldeirão. Casou aos 18 anos, com Antônio Ramos. Não teve filhos, mas criou três meninos, dos quais um faleceu. Hoje, vive sozinha na casa que beira o rio Paracauari, onde a visitamos. Lá o vento entra, na varanda, sem pedir licença.

 Visita à casa de Dona Conceição

No quintal da casa de Dona Conceição, conversamos sobre a Lei Maria da Penha e o contexto de violência contra a mulher na comunidade de Caldeirão. Amelinha entregou alguns exemplares da lei e dialogou com as irmãs Maria Auxiliadora, Maria de Fátima, Marli e Marcy e com Nilma, filha de Fátima, e Rayane, filha de Marcy. Hilário e Roni também participaram da discussão.

**As mulheres pouco se manifestaram. Infelizmente quem centralizou as histórias foi Hilário, que tem um perfil mais político e articula bem os temas.

** Hilário e Roni deram alguns detalhe sobre um caso de exploração sexual de meninas no município de Salvaterra, que envolve uma rede de hotéis e pousadas, taxistas e rabeteiros – os donos das rabetas que realizam a travessia do rio. De acordo Hilário, o caso foi denunciado em 2010 ao Ministério Público do Estado do Pará, mas, até então, ninguém foi preso. Tampouco ele tem ideia em que pé anda o processo de investigação – se anda.

 Depoimento: Raimundo Hilário – coordenador da Associação de Moradores de Caldeirão

Propostas para o barco: A delegacia especializada da mulher, isso a gente debate muito. Porque você chega com uma denúncia em Salvaterra, a mulher, a criança, o adolescente são recebidos na mesma sala, onde circula todo mundo, o investigador, os presos.

Outra coisa também: quando uma mulher é violentada fisicamente ou sexualmente, a gente não tem uma unidade de saúde especializada pra se fazer o exame com rapidez e eficácia. Às vezes a mulher é mandada pra Belém, mas não tem os recursos financeiros. Quando chega a fazer o exame, já não tem a porcentagem que dá pra saber se foi sexualmente violentada por aquele parceiro ou coisa parecida. São essas deficiências em Salvaterra nessa questão.

Existem muitas palestras sobre os direitos da mulher e a Lei Maria da Penha, mas a gente esbarra nisso. Não precisa ser uma delegacia, mas um local especializado para receber essa mulher.

Tem muita violência psicológica aqui. A questão de a mulher ser submissa. O homem diz: “hoje eu que mando, você depende de mim”. A violência psicológica acontece muito dentro de casa.

 Depoimento: Nilma de Fátima – Professora da Educação Infantil e estudante da Universidade Estadual do Pará, do curso de Pedagogia.

Meu nome é Nilma de Fátima, moro na comunidade remanescente de quilombo Caldeirão, no município de Salvaterra, na Ilha do Marajó. Eu sou professora na Educação Infantil, do 2º ano da Educação Infantil. O nome da escola é Professor Sebastião de Assis Gonçalves.

A vinda desse barco pra Ilha do Marajó, especificamente Salvaterra e Soure, vai melhorar e muito e vai restringir os homens que possam estar utilizando dessa forma de violência, psicológica, moral, verbal e física com outras mulheres. Vai facilitar devido a nossa comunidade não ter acessibilidade até Belém ou até o Ministério Público. Porque às vezes se torna muito difícil na realidade aqui de Salvaterra.

Sobre o trabalho na escola: Nossa metodologia é voltada em geral. Muitas das vezes a gente se depara com esses fatos [de violência]. As crianças comentam, muitos se tornam arredios. Eles não falam. Mas pela manifestação do método deles de ficar calminho, às vezes ficam muito agressivos, nós procuramos e analisamos o que é está fazendo com que ele fique assim. Muitas das vezes ela se torna uma criança rebelde, como não era até então. Aí vamos descobrir o que está acontecendo realmente na família. Às vezes é separação dos pais, às vezes já teve muita violência física, que a mãe não aguenta e se separa. Aí há toda aquela polêmica. A gente trabalha muito isso na educação, fazendo com que as crianças possam entender desde pequeno, possam amadurecer.

Ainda tem aquela questão: que homem pode bater, e a mulher apanhar. A gente trabalha muito isso. Fazemos as dinâmicas justamente... porque antigamente se trabalhava muito a criança separadamente. Menino pra cá, menina pra ali. Hoje não. Já existe essa dinâmica que vai juntar e faz com que eles se socializem.

Até mesmo o material escolar didático, material também de alimentação, antigamente não se usava o laranja, não se usava o rosa, que era de menina, apenas ela podia usar. Hoje já tem essa conquista. O que é da menina, o menino usa.

Também tem essa dinâmica de trabalhar com eles pra que aprendam a varrer casa. Porque ainda tem aquela postura. Aqui na nossa comunidade, a realidade é que os homens, antigamente, não cozinhavam, não lavavam roupa, não faziam trabalho doméstico, porque era doméstico e era de menina. E, na brincadeira, eles já colocavam assim. Os homens brincam de bola, brincam de taco, e as meninas só de boneca e vão cuidar da casa.

Hoje não. A gente já deixa o menino brincar de boneca. “Olhe, se tiver filho, como é que vai cuidar?”. Tudo isso a gente trabalha dentro da sala de aula.

Sobre a Lei Maria da Penha: Conhecer, conhecer totalmente não. Eu ouço falar. E ano passado eu participei de uma oficina em Soure, que veio uma professora do Rio de Janeiro, Ivone Melo, e ela nos repassou muito sobre a lei. Veio a Irmã Enriqueta, deu uma palestra muito boa, falando dos problemas que encontram, ela nos contou a experiência dela como mulher. Nesse dia mesmo ela estava com dois seguranças, que ela não pode andar sozinha, devido a esse medo e a ameaças contra a vida dela.

Aqui, na nossa realidade, nós temos um bispo do Marajó, que vem lutando contra isso, contra a exploração sexual, que influencia muito na nossa realidade, na vila ribeirinha.

A Lei Maria da Penha, em si, hoje em dia a gente não vê sendo aplicada na nossa cidade. Muito raro a gente vê um homem sendo preso por ter espancado uma mulher. Geralmente, as mulheres daqui, eu acho, têm uma visão muito fechada. Porque às vezes ele vai dar parte, mas já gosta, tem um amor pelo homem, aí vai e retira a queixa. Com isso, ele vai se achando autoritário sobre ela. A pessoa não consegue andar em frente.

A Lei Maria da Penha, ela vem pra agregar e melhorar a nossa realidade e a do Brasil inteiro. 

 Depoimento

– Nilma

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