Relatos - Muaná

Publicado em 05/02/2014 12:10Modificado em 30/11/2019 17:58
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 Segunda-feira, 27 de janeiro de 2014 - Muaná

Veja aqui fotos da visita à cidade

Muaná figura entre os municípios de pior Índice de Desenvolvimento Humano do Estado do Pará. A forma como a cidade se estrutura reflete essa condição: ausência de saneamento básico na área urbana e vilas ribeirinhas, ruas sem pavimento e casas de madeira construídas sobre palafitas.

Sr. Quincas, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Muaná, fala sobre o abandono do município. “O grande problema é que ninguém assume a responsabilidade pelo município: nem o estado, nem a prefeitura, nem a justiça”, opina.

O sindicalista explica que a principal atividade econômica da população é a colheita do açaí. Para a subsistência, planta-se banana e mandioca, que serve para fabricação de farinha. Sr. Quincas explica que o tráfico de drogas é um entrave para a região. “Um dos nossos piores problemas é a insegurança. Tem muita droga, assalto e acerto de contas”, diz.

O investigador de polícia, Paulo Roberto Braga, afirma que a violência doméstica é o terceiro tipo de ocorrência que a delegacia de Muaná mais recebe. “No fim de semana, em época de festas principalmente, o número de casos de violência contra mulher é maior”, contou. Paulo sugere que a embarcação realize atendimento psicossocial às mulheres das áreas de rio, pois “ainda existe uma barreira psicológica que a impede de ir à delegacia fazer a denúncia”.

 Roda de Conversa no Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Muaná

Na roda de conversa que a equipe da SPM promoveu no Sindicato, participaram cerca de 20 mulheres, entre extrativistas, pescadoras, assistentes sociais, psicólogas e conselheiras. Ddebatemos, com elas, a situação das mulheres de Muaná e propostas para o atendimento que será realizado pela embarcação.

 Adnair – Agroextrativista da Ilha Santa Maria

Meu nome é Adnair, eu moro no Furo Capitaripara, sou presidente da Ilha Santa Maria, agroextrativista. A gente planta cana, banana, tem roçado. Todo mundo lá tem manejo do açaí.

Pra muitas pessoas que têm a terra, está faltando só os empréstimos, porque isso eles não sabem fazer.

Esses meses todos vinham maxixe, quiabo, melancia, abóbora, pra cá pra cidade. Agora no inverno só tem cana e banana no nosso roçado.

As mulheres e homens precisam se reunir para eles entenderem como é a lei [Maria da Penha] e passarem a respeitar as mulheres.

A embarcação eu acredito que pode a gente ajudar. Se a gente fizesse uma denúncia: “olha, o fulano deu na fulana”. Aí ficava aquela denúncia. A embarcação pode trazer os serviços para a melhoria da população.

Os homens só querem ser os “bonzinhos”. Machismo e discriminação é o que mais existe em Muaná.

 Elizete Novaes – Presidente do Conselho de Assistência Social de Muaná 

Meu nome é Elizete Novaes, eu faço parte da Pastoral da Criança e sou presidente do Conselho de Assistência Social.

É importante o barco estar acompanhando os casos de agressão contra a mulher, não só física, mas também psicológica. A lei veio reforçar todos os direitos que a mulher tem. Ela é uma vítima, mas é uma cidadã também.

A rede, com o barco, é importante. Ela deve vir, de fato, divulgar com clareza o trabalho, para que as pessoas fiquem sabendo da lei. Conhecem, mas não sabem o que a lei ampara, o que ela fala. A mulher é assegurada pela lei. Vindo o barco, é importante divulgar a vinda pra outras pessoas ficarem sabendo pra poder chegar lá.

 Ednei Lobato – Secretária do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Muaná

Meu nome é Ednei Lobato, eu sou secretária do Sindicato. Nascida e criada em Muaná. Nunca fui pra outro lugar. Sempre morei aqui e continuo morando.

Para a gente, a embarcação é algo novo. Agora existem muitas coisas que a gente deve abranger no nosso município. Chegar até os ribeirinhos, onde a agressão física contra a mulher é mais presente.

Aqui em Muaná a violência é incubada, as pessoas têm vergonha de falar. Mas tem também aquelas que a gente tem conhecimento, que ficam difíceis, por elas se omitirem ou terem vergonha de denunciar.

 Narci Brabo – Psicóloga do Centro de Referência da Assistência Social (CRAS)

Eu sou Narci Brabo, trabalho no Centro de Referência da Assistência Social e também à frente da Rádio Comunitária Muaná FM.

A mulher que se cala e que cruza os braços, ela só está prejudicando a si mesma. Ao invés de ter uma liberdade, ela vai se fechando ainda mais. A mulher, partindo do princípio que ela tem sua liberdade, ela pode ser feliz. Eu tenho certeza que uma mulher que é ameaçada dentro da sua própria casa, ela jamais poderá ser feliz.

A população de Muaná, muitas vezes, não denuncia por vergonha, por medo. Mesmo a gente atuando, esclarecendo, não é suficiente. Se nós tivermos apoio desse barco, pessoas que irão ouvir essas mulheres, haverá uma demanda grande.

Eu tinha um programa de 8h às 10h da manhã chamado “Show da Manhã Mulher”. A gente falava de saúde, educação, relacionamentos. Tinha cartas que chegavam pra nós.

 Conhecendo a Associação de Mulheres Muanenses

Numa casa de madeira construída entre as palafitas de Muaná, está a Associação de Mulheres Muanenses. Presidida pela pedagoga Marisa Vale, a associação organiza cursos de corte e costura, customização, material reciclado e manicure para a população feminina local. Cerca de 30 mulheres reúnem-se mensalmente.

Fomos apresentadas ao espaço por Marisa e Rosilene, conselheira tutelar e integrante da associação. A partir de seu trabalho no Conselho Tutelar, Rosilene tem conhecimento de casos de violência doméstica. “Como o Conselho Tutelar é o órgão que atua no município, onde as pessoas chegam, elas denunciam muito pra gente, as mulheres vítimas de violência doméstica. Geralmente eu dou como referência o 180”, afirmou.

Ela também nos relatou um caso de exploração sexual de crianças e adolescentes, comum na região, já alertado em outros encontros no Marajó. A conselheira conta que, nas vilas ribeirinhas – regiões afastadas da área urbana –, meninas e meninos são abusados sexualmente por viajantes embarcados nas grandes balsas que fazem o percurso entre capitais da região amazônica.

Crianças e adolescentes são levados, em canoas ou rabetas, pelos próprios pais. Em troca, as famílias recebem óleo diesel e outros produtos de difícil aquisição na área ribeirinha. Paulo Roberto, investigador da Polícia Civil, diz que várias denúncias já foram feitas, mas que a conivência das famílias dificulta a investigação.

 Rosilene da Costa – Conselho Tutelar e integrante da Associação de Mulheres Muanenses

Como o Conselho Tutelar é o órgão que atua, onde as pessoas chegam, elas denunciam muito pra gente, as mulheres vítimas de violência doméstica. Geralmente eu dou como referência o [Ligue] 180. Quando é adolescente, a gente acompanha.

Como a gente mora numa região muito complexa, quando a mulher começa a ir para a associação – que é uma forma de interagir – ela já é impedida pelo marido. Todo mundo conhece a realidade do Marajó. A gente vivencia muita impunidade. A renda das famílias é muito pouca.

A mulher denuncia, a polícia chega lá, a mãe diz: “tu vai passar fome”. Aquela questão. Isso acaba deixando impunes os agressores. Sempre que eu tenho oportunidade de ter contato com esses casos, eu procuro esclarecer de outra forma. De que existe um programa de assistência, que existem órgãos que podem ajudar.

No interior, a mulher não tem nem o barco para atravessar pra casa do vizinho. Nós temos essas áreas mais violentas, como Jararaca, Vila do Pracuúba e Ponta Negra. Principalmente nessas localidades.

A Lei Maria da Penha nas ondas do rádio

No fim do dia em Muaná, a equipe da SPM realizou um programa especial, na Rádio Comunitária Muaná FM, sobre a Lei Maria da Penha. O convite partiu de Narci Brabo, que ajuda a coordenar a grade de programação do canal.

“É importante que as mulheres se informem e sejam protagonistas de sua vida”, falou Amelinha às ouvintes da rádio comunitária do município. “Fica aqui a mensagem da SPM”, disse ela: “que as mulheres busquem informação, se articulem e se organizem em torno dos seus direitos para debater e enfrentar a violência doméstica”.

Sobre a lei, Amelinha deu o recado: “Nós temos um instrumento valioso que é a Lei Maria da Penha. É preciso entendê-la e colocá-la em prática. Transformá-la numa prática de vida e de luta”.

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