CIÊNCIA E ANCESTRALIDADE

Nova parceria entre CAPES e INPA levará mestres tradicionais indígenas à pós-graduação

Programa de Cátedra de Saberes Amazônicos cria pontes entre a academia e a floresta

Publicado em 01/07/2026 11:08Modificado há 4 meses
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Pessoas sorrindo segurando o termo de assinado
Assinatura do termo entre a CAPES e o INPA consolida a criação da primeira Cátedra Indígena. Foto: Luís Curty/CAPES

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/MCTI) celebram o lançamento e a estruturação do Programa de Cátedra de Saberes Amazônicos. O marco desta parceria foi consolidado com a assinatura do Termo de Execução Descentralizada (TED) do programa, realizada pela presidente da CAPES, Denise Pires de Carvalho, e pelo diretor-presidente do INPA, Henrique dos Santos Pereira. A solenidade de lançamento aconteceu na última terça-feira (23), no Bosque da Ciência, no INPA, em Manaus (AM).

A iniciativa conjunta representa a primeira Cátedra Indígena da pós-graduação no Brasil, promovendo a integração e o diálogo direto entre o conhecimento científico acadêmico e as epistemologias dos povos originários.

A parceria, viabilizada por meio do TED com vigência de 60 meses, contará com um investimento global da CAPES/MEC no valor de R$ 700.800,00, repassados ao INPA ao longo de cinco anos. A ação, que busca ampliar a participação indígena no Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), é o amadurecimento de um Acordo de Cooperação Técnica firmado originalmente no final de 2025, em Santarém (PA), durante a Caravana Fluvial Franco-Brasileira IARAÇU. A proposta é fruto de um processo de escuta e construção coletiva iniciado ainda em 2024, durante a Conferência Livre “Sistemas de Conhecimento Tradicional Indígena e Científico”, realizada no Instituto.

“Hoje assinamos um Termo de Execução Descentralizada da CAPES para o INPA que construirá as cátedras dos saberes amazônicos, cátedras indígenas, e eu tenho certeza de que serão muito bem-sucedidas. Esse é o início de um projeto que eu espero que se fortaleça e aumente ao longo do tempo”, destacou a presidente da CAPES/MEC, Denise Pires de Carvalho.

A professora completou que este é um grande avanço para a ciência nacional. “Aqui no INPA se faz pós-graduação e formação de pessoal de nível superior com muita qualidade”, elogiou.

Diálogo ético entre o laboratório e a aldeia

O modelo de implementação da Cátedra prevê o lançamento de quatro editais públicos ao longo do período de vigência do programa, com o objetivo de selecionar até oito beneficiários. Cada processo seletivo vai contemplar duas modalidades distintas de bolsas que se complementam: uma voltada para pesquisador ou pesquisadora indígena com título de doutor (que atuará como catedrático convidado por 12 meses nos programas de pós-graduação do INPA), e outra destinada a um detentor ou detentora de saberes tradicionais.

O público beneficiário dessa modalidade saber inclui lideranças, mestres tradicionais, guardiões de saberes, pajés, parteiras e artesãos, cujo reconhecimento e autoridade vêm da experiência, da oralidade e da legitimidade cultural de suas respectivas comunidades. Para dar suporte às pesquisas, formação e intercâmbio científico, cada edital contará com uma Taxa de Bancada de R$ 24.000,00, totalizando R$ 96.000,00 em recursos de custeio científico adicionais.

“Estamos abrindo a possibilidade de termos entre nós, nos corpos docentes dos nossos programas de pós-graduação, a participação e a contribuição de um doutor ou uma doutora indígena, que será o nosso catedrático. Também teremos a presença, os ensinamentos e o diálogo com um sábio ou uma sábia indígena”, explicou o diretor-presidente do INPA, Henrique Pereira.

De acordo com o gestor, a chamada pública será apresentada em breve para a seleção das candidaturas. “O que eu posso assegurar é que isso vai ser feito, desde a sua concepção, em um diálogo estreito com os nossos parceiros, com as nossas lideranças e com representantes do movimento indígena”, completou.

Construção coletiva com o movimento indígena

Uma das referências que ajudou com contribuições diretas para o desenho dessa nova política pública foi Mariazinha Baré, coordenadora da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM). Para ela, todo conhecimento produzido a partir dos territórios indígenas gera um impacto que ultrapassa as fronteiras geográficas das comunidades.

“Podemos fazer juntos as ciências indígenas e as ciências acadêmicas. A gente precisa fazer esse diálogo mais próximo justamente para ver como criamos estratégias para avançar, visando um bem maior para os povos indígenas”, disse Mariazinha, ressaltando que o saber tradicional tem valor contínuo e independente de titulações.

“Nós continuamos com os nossos mestres e sábios dentro dos nossos territórios. Nossa grande preocupação é como continuar fortalecendo esses conhecimentos não só a partir da academia, mas a partir das aldeias, continuando a produzir conhecimento e preservando a nossa cultura”, completou.

Inovação institucional e a voz da floresta na academia

O grande marco jurídico e pedagógico celebrado pelas instituições é a viabilização da participação de especialistas indígenas que não possuem a titulação acadêmica formal. Para resolver esse entrave regulatório, o INPA publicou a Portaria nº 344, de 2 de abril de 2026, que institui formalmente a Bolsa de Especialista em Saberes Tradicionais Indígenas (BESTI). A criação da BESTI permite que guardiões da floresta e mestres tradicionais atuem diretamente em atividades de pesquisa, docência e intercâmbio no contexto da Cátedra Indígena INPA/CAPES.

Com a consolidação do programa, as instituições parceiras esperam estruturar uma sólida rede de colaboração intercultural, gerando novos subsídios científicos e humanos que possam orientar políticas públicas de preservação, bioeconomia e manejo sustentável no território amazônico.

O reflexo prático desse processo de inclusão é personificado por trajetórias como a de Simone Figueiredo Cacau. Bióloga da etnia Witoto, originária da região do Alto Solimões, ela é pós-graduanda no INPA e construiu sua caminhada acadêmica com o apoio de bolsas de estudo da CAPES/MEC.

“Sou professora no meu município e ter vindo para cá já é um motivo de orgulho para o meu povo, porque eu sou a primeira de lá a estar cursando a pós-graduação”, relatou Simone, que está concluindo sua formação no fim deste ano.

Sua dissertação aborda a Ciclagem de Nutrientes em Serrapilheiras nos Ecossistemas de Areia Branca na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro – Amazônia Central. Para a pesquisadora, aproximar a realidade das aldeias dos métodos de pós-graduação é um passo transformador, cujo retorno será levado diretamente à sua comunidade. “É fundamental trazermos a nossa realidade para a pesquisa. A soma dessas duas coisas, o conhecimento tradicional e a pesquisa acadêmica, nos dá uma bagagem tremenda”, concluiu.

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é uma Fundação vinculada ao Ministério da Educação (MEC)

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