FORMAÇÃO DOCENTE

No Pará, CAPES acompanha formação docente na Terra Indígena Barreirinha

Visita ao território Amanayé permitiu ouvir estudantes, lideranças e docentes envolvidos em uma licenciatura que leva o ensino superior para dentro da aldeia

Publicado em 03/07/2026 10:40Modificado há 4 meses
Compartilhe:
Grupo formado por indígenas, quilombolas, moradores da comunidade e participantes do 5º Ciclo de Saberes da Aldeia, reunidos em um espaço coberto de madeira, com um cachorro deitado no chão à frente..
A turma da Licenciatura Intercultural Indígena é formada, majoritariamente, por educadores que já atuam em escolas indígenas.. Foto: Yas Fonseca/CAPES

A energia elétrica esteve disponível por poucas horas em apenas um dos dias do 5º Ciclo dos Saberes da Aldeia. Ainda assim, a grande maloca da Terra Indígena Barreirinha permaneceu ocupada durante toda a programação. Professores, estudantes, lideranças e moradores se reuniram diariamente para aulas, rodas de conversa, apresentações culturais, debates e atividades de pesquisa. Nos momentos reservados à programação cultural, cantos dos povos Amanayé e Tembé ecoaram pelo barracão onde ocorreu boa parte das atividades.

Localizada às margens do rio Capim, no sudeste do Pará, a Terra Indígena Barreirinha abriga cerca de 86 integrantes do povo Amanayé. Homologada em 2006, a área recebeu uma etapa da Licenciatura Intercultural Indígena ofertada pela Universidade Federal do Pará (UFPA) por meio do Programa Nacional de Fomento à Equidade na Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR Equidade).

O PARFOR Equidade é uma iniciativa da Diretoria de Formação de Professores da Educação Básica (DEB) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), em parceria com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi/MEC), especificamente voltada à formação inicial de professores de grupos historicamente sub-representados no ensino superior, entre eles os povos indígenas.

Durante três dias, a programação reuniu oficinas, apresentações de materiais produzidos no curso, caminhadas pela mata, visitas a moradores da terra indígena, discussões sobre educação escolar indígena, agroecologia e mudanças climáticas. Para acompanhar as atividades e ouvir os participantes, uma equipe da CAPES percorreu quase dois dias de deslocamento entre Brasília, Belém, Goianésia do Pará e a aldeia. A comitiva reuniu a diretora da DEB, Marcia Serra Ferreira, e a coordenadora-geral de Formação de Docentes, Lorena Lins.

“Estar aqui é poder escutar os estudantes indígenas, os bolsistas e todos aqueles que fazem o curso acontecer. É levar elementos para aprimorar os próximos editais e contemplar ainda mais as especificidades da formação de professores para e com os povos indígenas”, afirmou Marcia Serra Ferreira. “Eu nunca havia conhecido uma comunidade indígena. Levo uma experiência muito importante para pensar políticas que sejam de fato mais equitativas e que possam atender a toda a diversidade da população brasileira”, acrescentou a diretora.

A graduação acontece onde os estudantes vivem

A turma da Licenciatura Intercultural Indígena é formada, majoritariamente, por educadores que já atuam em escolas indígenas. A proposta permite que eles concluam a graduação sem se afastar de suas aldeias e desenvolvam estudos relacionados às demandas apresentadas por seus próprios povos.

“O PARFOR Equidade permite que os professores das comunidades indígenas sejam formados em seus próprios territórios, associando o conhecimento acadêmico aos conhecimentos tradicionais”, explicou Lorena Lins.

A coordenadora destaca que o projeto pedagógico reúne professores universitários e mestres reconhecidos pelas próprias comunidades. “Os docentes da universidade compartilham essa formação com os mestres de saberes tradicionais de cada comunidade.”

Segundo Lorena, a presença no território oferece elementos que ajudam a compreender melhor os diferentes contextos em que as políticas educacionais são executadas.

“Aqui a gente pode vivenciar uma forma diferente de viver, de compreender o tempo, o espaço e o processo formativo. E essa especificidade precisa ser considerada quando fazemos política pública.”

Para o coordenador da Licenciatura Intercultural Indígena da UFPA, Érico Silva Alves Muniz, a realização das atividades na aldeia modifica a própria dinâmica da graduação.

“O fato de as aulas ocorrerem majoritariamente na aldeia transforma por completo a experiência do estudante. As questões norteadoras surgem a partir das demandas do território, das lideranças e dos professores da educação escolar indígena.”

Ele observa que os espaços de aprendizagem acompanham a realidade vivida pelos participantes. “Quando eu digo aqui, eu não me refiro apenas à escola da aldeia. Me refiro também à mata, à beira dos rios, à roça e a diversos outros espaços.”

A língua, a memória e a escola

Entre os Amanayé, a formação superior está ligada a uma preocupação compartilhada por famílias, lideranças e educadores: garantir que conhecimentos transmitidos ao longo das gerações continuem presentes na vida das crianças e dos jovens.

Professora da escola da Terra Indígena Barreirinha e estudante da licenciatura, Yene-Hi dos Santos Ramos Amanayé explica que a preservação da língua ocupa lugar central nesse processo. “Até então, a gente só tem dois falantes no território. Então isso está sendo um desafio muito grande para nós enquanto professores.”

A fala ajuda a dimensionar uma das questões discutidas ao longo do ciclo. A recuperação de histórias, palavras, cantos e práticas culturais aparece entre os temas trabalhados pelos estudantes durante a graduação.

“A universidade vindo para o território foi uma preparação maior para nós, porque está trazendo professores capacitados e orientados sobre como fazer esse planejamento e como fazer essa pesquisa de campo”, contou.

Yene-Hi afirma que os resultados já podem ser percebidos no cotidiano escolar. “Hoje os nossos anciãos estão mais presentes na sala de aula. Eles estão repassando conhecimentos para a gente para que possamos preparar os nossos jovens e as nossas crianças e não perder a nossa cultura e os nossos costumes.”

A participação dos mais velhos também ampliou os conteúdos abordados com os estudantes.

“A universidade veio para nos preparar a trabalhar com as nossas próprias ferramentas. A roça, a caça, a pesca, a nossa culinária, as ervas medicinais. Hoje a escola já tem uma outra temática diferente.”

Um projeto construído com as comunidades

A coordenadora do PARFOR Equidade na UFPA, Vanderlúcia da Silva Ponte, destaca que a licenciatura surgiu a partir de demandas apresentadas pelas próprias comunidades participantes.

“Esse curso nasce a partir da comunidade. Foram as lideranças, os professores e os diretores das escolas que pensaram o formato do curso.”

Ela explica que a proposta promove um diálogo permanente entre diferentes formas de produzir conhecimento. “A universidade, ao mesmo tempo que vem ensinar, ela aprende. Por isso que a gente chama de intersaberes, são saberes que se conectam e se integram.”

Segundo Vanderlúcia, a participação coletiva orienta toda a organização da licenciatura. “Nós nem chamamos de tempo comunidade, nós chamamos de tempo aldeia. Porque a aldeia envolve uma quantidade de sujeitos.”

A educadora também ressalta o papel da CAPES na viabilização da iniciativa. “Sem a CAPES nós não estaríamos aqui. Ela publicou um edital que possibilitou construir um curso que realmente chegasse às aldeias.”

Saberes que seguem adiante

Para Kamiran Tembé, cacique da Aldeia São Pedro, educador, pesquisador do povo Tembé (Tenetehara) e coordenador local da iniciativa, a presença do ensino superior em áreas indígenas representa uma mudança importante na relação entre as instituições de ensino e os povos originários.

“Trazer a universidade para dentro do território, conhecer a realidade e as especificidades dentro da nossa perspectiva indígena, é um rompimento histórico.”

Kamiran associa a graduação ao registro de conhecimentos que, durante décadas, permaneceram preservados principalmente pela oralidade. “A universidade nos oportuniza reescrever e registrar nossas memórias ancestrais, que são a preservação da nossa identidade e da nossa cultura.”

Ao resumir o significado do encontro, a liderança destaca a ideia de reconexão. “Se reconectar com a natureza, com os alunos, com os professores que estão vindo para esse ciclo de formação. Então se reconectar com tantos pensamentos e um só objetivo é o que está tornando possível esse curso ser tão transformador.”

Os anciãos participaram das discussões, os cantos tradicionais ocuparam espaço na programação cultural e os participantes apresentaram alimentos típicos dos povos Amanayé e Tembé.

Na Terra Indígena Barreirinha, a formação inicial de professores caminha junto com a pesquisa comunitária, a memória coletiva e a transmissão de saberes entre gerações. A escola, os mais velhos, as famílias e os estudantes participam desse processo. É nesse encontro que educadores, lideranças e futuros licenciados constroem estratégias para que histórias, línguas e práticas culturais permaneçam presentes na vida das próximas gerações.

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é uma Fundação vinculada ao Ministério da Educação (MEC)

A reprodução das notícias é autorizada desde que contenha a assinatura ASCOM/CAPES

Categorias
Educação e Pesquisa
Compartilhe: