PRÊMIO CAPES DE TESE

Ciência com sotaque, coração e raízes: O brilho do Centro-Oeste no Prêmio CAPES de Tese

A principal premiação científica do país destaca o poder do Brasil central em produzir saberes que aliam inovação, impacto social e respeito à diversidade

Publicado em 06/11/2026 10:06Modificado há 2 dias
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Prêmio Capes de Tese

O Centro-Oeste brasileiro vai muito além do agronegócio e se consolida como um polo de excelência acadêmica voltado às urgências sociais. Essa vocação foi chancelada pelo Prêmio CAPES de Tese 2026, que reconheceu trabalhos do Distrito Federal, Goiás e Mato Grosso. Com rigor e sensibilidade, essas pesquisas de ponta propõem soluções inovadoras em ecologia, educação, tecnologia e saúde, mostrando que a ciência da região é feita em profunda conexão com a vida real. 

Os quatros representantes vinculados a instituições do Centro-Oeste na categoria principal:

Daniel Carvalho da Silva - Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás);
Amanda Pereira da Silva Azinari - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT);
Angel Augusto Verbel Olarte - Universidade de Brasília (UnB);
Hugo de Luca Corrêa - Universidade Católica de Brasília (UCB);

A Sabedoria Amazônica e o Fio da Vida

Daniel Carvalho da Silva
Daniel Carvalho da Silva

Para Daniel Carvalho da Silva, pesquisador da área de Ciências da Religião pela PUC-Goiás, a academia nunca esteve separada da poeira da estrada. Sua tese, Rito Amazônico: uma continuidade da reforma litúrgica na encruzilhada entre a sabedoria amazônica e a epistemologia ocidental, nasceu na encruzilhada entre a dor da perda e a urgência da esperança. 

Caminhando para o velório de uma grande amiga e parceira de jornada religiosa, vítima de leucemia na pandemia, o pesquisador foi provocado a unir duas forças que moviam sua vida: a Amazônia e a Liturgia. “Eram dois temas que vinham movimentando a minha vida, dessa vez na pesquisa para o doutorado”, conta Daniel, que é formado em Teologia Pastoral na Prelazia de São Félix do Araguaia-MT.

Escrevendo seu projeto em apenas cinco dias, ele mergulhou no abismo que separa o pensamento ocidental cartesiano e fragmentado da cosmovisão amazônica, onde tudo está intimamente interligado. Sua pesquisa ilumina como ritos e religiões moldam as pautas políticas e ecológicas de nosso tempo, atuando como antídotos contra fundamentalismos. 

“Minha pesquisa é bastante igrejeira”, resume. “Há, sem dúvida, incontáveis desdobramentos de ordem política, ecológica e eclesial que podem decorrer das reflexões que tecemos na pesquisa. Há importantes descobertas sobre as transformações dos ritos cristãos que incidem diretamente sobre o fundamentalismo e o devocionismo”, defende.

Receber o prêmio CAPES, para Daniel, foi um abraço de legitimação: a prova de que pesquisadores fora do eixo tradicional não apenas são capazes, mas essenciais para desenhar projetos de um Brasil onde religião, ecologia e política caminham a favor da vida. 

“A premiação certamente me abrirá muitas portas, tanto do ponto de vista da sustentabilidade profissional quanto da de poder contribuir com as reflexões necessárias sobre a mútua implicância entre religião e projeto de Brasil no que concerne às concepções político-partidários que se constroem e se construirão no país”, avalia. 

Educação de resistência: Vozes da Floresta e da Fronteira

Amanda Pereira da Silva Azinari
Amanda Pereira da Silva Azinari

Em Mato Grosso, a ciência nasce do encontro com os povos da floresta. Amanda Pereira da Silva Azinari, doutora em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), transformou sua própria trajetória em objeto de estudo. Filha de uma professora e criada no interior do estado, em Juara, a pesquisadora construiu sua vida acadêmica lado a lado com os povos indígenas Apiaká, Munduruku, Kayabi e Rickbaktsa.

Sua pesquisa narrativa e autobiográfica intitulada, Entre águas, peneiras e baquaras: saberes docentes interculturais e contracoloniais em licenciaturas indígenas na Faindi/Unemat, Brasil e na UPN, México, mergulhou nas licenciaturas interculturais e indígenas nos dois países, reivindicando um espaço para corporeidades, práticas culturais e epistemologias que a colonialidade tentou apagar. 

“Acredito que a pesquisa contribui com o debate e a visibilidade sobre a Universidade para e com os povos indígenas no Brasil e no México”, destaca. “Também com o debate sobre a necessidade de construir políticas públicas que acolham seus saberes, corporeidades, práticas culturais e epistemologias próprias”, acrescenta. 

Para Amanda, o prêmio CAPES é um recado claro ao país: na Amazônia mato-grossense produz-se ciência de rigor que rompe com os modelos eurocentrados. É o reconhecimento de que a universidade pública transforma comunidades inteiras e de que os povos originários são protagonistas indispensáveis na construção de um mundo mais justo, inclusivo e democrático.

“O prêmio é esse reconhecimento de como a universidade e a educação pública transformam as vidas de pessoas e comunidades inteiras, como transformou a minha vida em particular, mas sobretudo, contribuindo para a construção de outros mundos possíveis, mais inclusivos, justos e democráticos”, agradece. “O que reforça o papel estratégico das universidades e da ciência brasileira, bem como, dos investimentos nessas instituições para a melhoria da qualidade de vida de nossa população”, pondera. 

Tecnologia e Cuidado: A Terra e o Corpo em Movimento

Angel Augusto Verbel Olarte
Angel Augusto Verbel Olarte

O impacto da ciência no Centro-Oeste estende-se também à inovação tecnológica em defesa do meio ambiente e ao cuidado direto com a saúde pública no Distrito Federal. Na Universidade de Brasília (UnB), a pesquisa de Angel Augusto Verbel Olarte, na área de Geociências, com o título em inglês - Tracking gold origin: A novel identification approach based on topology and machine learning applied to gold geochemical data* - trouxe uma abordagem inédita utilizando inteligência artificial e topologia para rastrear a origem do ouro. 

“Minha pesquisa nasceu de uma parceria com o programa Ouro Alvo, da Polícia Federal do Brasil e está diretamente relacionada a um dos grandes desafios ambientais e sociais do Brasil. A mineração ilegal de ouro provoca impactos ambientais significativos”, alerta. “O prêmio representa mais do que uma conquista pessoal, acredito que pode abrir novas oportunidades, fortalecer minha trajetória como pesquisador e aumentar a visibilidade do trabalho que venho desenvolvendo na área de geoquímica e rastreabilidade do ouro”, torce.  

Educação física como jornada de Cura

Hugo de Luca Corrêa
Hugo de Luca Corrêa

Já na Universidade Católica de Brasília (UCB), Hugo de Luca Corrêa transformou a Educação Física em uma verdadeira jornada de cura. Inquieto por entender não apenas se o exercício funciona, mas os seus "porquês", o pesquisador investigou os impactos do treinamento físico em pacientes com doença renal crônica submetidos à hemodiálise. 

Sua tese, Uma odisseia do efeito do treinamento físico na doença renal crônica, aproxima a ciência de base da prática clínica. O objetivo? Levar esses protocolos ao Sistema Único de Saúde (SUS), devolvendo autonomia e qualidade de vida a quem mais precisa. 

“Sempre acreditei que o exercício físico vai muito além da promoção da saúde: ele também pode ser uma importante ferramenta terapêutica”, sustenta. “Meu objetivo foi compreender os mecanismos fisiológicos e moleculares envolvidos nas adaptações ao exercício, aproximando a ciência básica da prática clínica”, detalha. 

*Rastreamento da origem do ouro: uma nova abordagem de identificação baseada em topologia e aprendizado de máquina aplicada a dados geoquímicos do ouro. 

Os nove representantes vinculados a instituições da região Centro-Oeste na categoria Menção Honrosa são:

Andrew Toshio Hayama - Universidade Federal de Goiás (UFG)
Ana Paula Melo Sylvestre - ENAP
Alexandre Marinho Pimenta - Universidade de Brasília (UnB) 
João Paulo de Almeida Siqueira - Universidade de Brasília (UnB) 
Gabriel da Silva Oliveira - Universidade de Brasília (UnB) 
Andressa Alves Bonafe Pontes - Universidade de Brasília (UnB) 
Cícero Muniz Brito - Universidade de Brasília (UnB) 
João Carlos Nunes Ibanhez - Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) 
Vanessa Souza - Universidade Federal de Mato do Mato Grosso do Sul (UFMS)

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Educação e Pesquisa
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