Notícias
No Amazonas, povo Yanomami comemora iniciativa de ecoturismo de base comunitária no Pico da Neblina
Em reunião de consulta à comunidade indígena, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), por meio da Força-Tarefa Yanomami Ye’kwana (FTYY) e da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye'kwana (CFPE-YY), acompanhou a aprovação da construção da Casa do Projeto Yaripo. O encontro ocorreu no dia 23 de fevereiro, na sede da Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (Ayrca), no Amazonas.
A estrutura será edificada na região de Maturacá, na Terra Indígena (TI) Yanomami, em São Gabriel da Cachoeira (AM), e funcionará como polo-base para o turismo no Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil.
A reunião contou com lideranças locais, incluindo representantes da própria Ayrca, da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (Amyk), de tuxauas e caciques das comunidades Maturacá e Ariabu, além de grande presença de moradores da região.
Durante o encontro, as lideranças reafirmaram a importância estratégica do projeto para o território e destacaram que essa construção vem sendo aguardada há anos pelas comunidades.
A presidenta da Amyk, Carlinha Yanomami comemorou a realização do sonho. “Esse é o lugar que escolhemos. Um lugar tão sonhado que se concretiza. Porque a gente acredita que, estando num lugar seguro para nossos visitantes, poderemos gerar a nossa renda. Essa casa também é uma oportunidade para as mulheres artesãs, porque nela iremos fazer exposição e venda de cestaria, que é o nosso sustento.”
O professor indígena Rogério Barbosa Lins considera que a construção da sede é uma conquista. “Eu fico muito agradecido pela nossa vitória. Nós, os Yanomami, sabemos conquistar os nossos direitos. Nós temos essas estruturas a serem construídas este ano, com recursos do Governo Federal e pela força da Funai, que atendeu os nossos direitos.”
No evento, a Funai anunciou, ainda, a liberação de R$500 mil em recursos do Governo Federal para a execução da iniciativa. Para a especialista em cadeias de valor da FTYY, Sandra Zanotto, a verba é uma grande vitória. “O projeto Yaripo é um modelo de desenvolvimento sustentável no território Yanomami. Ficamos muito felizes por termos conseguido esse recurso para que a sede seja construída. Com certeza vamos ter uma sede que vai trazer renda para as mulheres, bem-estar e benefícios para a comunidade”, celebrou.
Já o coordenador substituto da CFPE-YY, Roberto Ferreira, destacou o impacto positivo que a sede terá para a comunidade. “Esse projeto é importante para trazer trabalho e renda para a comunidade, e para dar ainda mais visibilidade ao povo Yanomami. O recurso já está disponível, agora temos muito trabalho a fazer, para que esse investimento se concretize na construção do local disponível para usufruto dos visitantes, do pessoal que trabalha no projeto Yaripo, da coordenação e de toda a comunidade”, afirmou.
O trabalho da Força-Tarefa no território Yanomami envolve acompanhamento, articulações interinstitucionais e identificação de iniciativas de etnodesenvolvimento que demandam apoio institucional da Funai.
Casa
A estrutura funcionará como polo-base para recepção de visitantes e abrigará um escritório administrativo do projeto, almoxarifado para material de montanhismo e para Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), área de armazenamento de alimentos, cozinha, refeitório e redários. O projeto prevê ainda um espaço de convivência para realização de oficinas de formação e uma área dedicada à exposição e comercialização do artesanato das mulheres Kumirayoma.
O local escolhido pelas lideranças é um xapono de palha já existente ao lado da sede da AYRCA, próximo ao rio Cauaburis e à futura sede da Amyk, cujo projeto está em fase de elaboração. O desenho inicial da casa foi elaborado pelos próprios indígenas, detalhando as necessidades estruturais do espaço em ofício assinado pelas lideranças presentes.
A etapa atual envolve definição técnica dos projetos complementares. A previsão é que a obra seja entregue até o final de 2026, priorizando a contratação de mão de obra indígena local para a construção. Uma vez edificada, a Casa do Projeto Yaripo contribuirá para fortalecer a autonomia territorial, gerar renda para as comunidades e promover a valorização dos saberes tradicionais.
A consulta sobre a construção da Casa do Projeto Yaripo seguiu as diretrizes do Protocolo de Consulta dos Povos Yanomami e Ye’kwana, elaborado em 2019 com apoio da Associação Hutukara. O protocolo apresenta regras e procedimentos a serem adotados pelo Estado brasileiro em casos de consulta sobre decisões administrativas e legislativas que podem afetar os povos da TI Yanomami.
Projeto Yaripo
Focado no ecoturismo de base comunitária e no desenvolvimento sustentável, o Projeto Yaripo é desenvolvido em área de sobreposição entre a TI Yanomami e o Parque Nacional do Pico da Neblina.
A iniciativa envolve expedições de 10 dias de caminhada em ambientes de rios, florestas e campos, chegando ao ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, que tem quase 3 mil metros de altitude e é chamado pelos Yanomami de Yaripo (“montanha dos ventos”).
O empreendimento comunitário é executado pelas associações Ayrka e Amyk, em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), por meio da Coordenação do Parque Nacional do Pico da Neblina, o Instituto Socioambiental (Isa) e a Funai. O projeto reafirma o protagonismo Yanomami na gestão do território e no desenvolvimento de atividades sustentáveis alinhadas à proteção ambiental e ao bem-viver.
Coordenação de Comunicação Social/Funai.