TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA

Funai assina carta de anuência para Plano de Visitação Yaripo e fortalece ecoturismo Yanomami no Pico da Neblina

Iniciativa conduzida por organizações Yanomami une geração de renda, valorização cultural, proteção territorial e conservação ambiental no Pico da Neblina

Publicado em 19/06/2026 13:08Modificado em 22/06/2026 10:31
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Foto: Francisco Livino | ICMBio
Foto: Francisco Livino | ICMBio

A  Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) assinou a Carta de Anuência nº 7/2026 para o Plano de Visitação do projeto Yaripo – Ecoturismo Yanomami, iniciativa conduzida pela Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA) e pela Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK). O ato consolida o apoio institucional da Funai a uma proposta construída pelos próprios Yanomami e marca o fortalecimento do ecoturismo de base comunitária na Terra Indígena Yanomami, com geração de renda, valorização cultural, proteção territorial e respeito à autonomia das comunidades.

O projeto prevê atividades de ecoturismo, na modalidade montanhismo, na montanha sagrada Yanomami chamada Yaripo, também conhecida como Pico da Neblina. A visitação deverá ocorrer exclusivamente na localidade autorizada pela comunidade indígena, conforme o Plano de Visitação atualizado, e terá validade de três anos, condicionada ao cumprimento das normas da Funai e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

“Assinar a Carta de Anuência do Plano de Visitação Yaripo é reconhecer o protagonismo do povo Yanomami na proteção e na gestão de seu território. Essa iniciativa fortalece as ações Yanomami desenvolvidas pela Funai, ICMBio e pelo Governo Federal, ao unir vigilância territorial, geração de renda, valorização cultural e proteção dos territórios indígenas. O ecoturismo de base comunitária no Yaripo mostra que alternativas sustentáveis, construídas pelas próprias comunidades, podem transformar realidades, enfrentar ilícitos ambientais e ampliar a dignidade dos povos indígenas. A atuação conjunta entre Funai e ICMBio, fortalecida pelo Acordo de Cooperação Técnica, é fundamental para garantir que essa visitação ocorra com respeito à autonomia Yanomami, à conservação ambiental e à espiritualidade da montanha sagrada”, afirmou a presidenta da Funai, Lucia Alberta Baré.

Apoio institucional

A assinatura da Carta de Anuência reforça a atuação da Funai no apoio a iniciativas sustentáveis conduzidas pelos povos indígenas. No caso do Yaripo, a anuência reconhece o protagonismo das organizações Yanomami na construção do Plano de Visitação e fortalece uma agenda que une autonomia comunitária, sociobioeconomia, proteção ambiental e gestão territorial.

A medida também reafirma o compromisso da atual gestão da Funai com ações que respeitam a decisão das comunidades, valorizam os modos de vida indígenas e ampliam alternativas de renda em bases sustentáveis. No território Yanomami, a iniciativa se soma aos esforços de proteção territorial e enfrentamento a ilícitos ambientais, especialmente em áreas pressionadas pelo garimpo ilegal.

Protagonismo Yanomami

O Plano de Visitação Yaripo tem como eixo central o protagonismo das comunidades indígenas na definição, execução e acompanhamento da atividade turística. A iniciativa valoriza a autonomia Yanomami, os conhecimentos tradicionais, a espiritualidade associada à montanha sagrada e a gestão comunitária do território.

A operação turística parte da região de Maturacá, a 95 metros do nível do mar, e envolve uma caminhada de oito dias pela floresta amazônica até o cume do Pico da Neblina, a 2.995 metros de altitude, a maior montanha do Brasil. O plano contempla 13 comunidades da Terra Indígena Yanomami: Maturacá, Ariabu, União, Auxiliadora, Santa Maria, Cachoeirinha, Inambu, Ayari, Nazaré, Mafe, Maia, Samburá e Vila Palmares.

“O Plano de Visitação Yaripo é de grande importância para o fortalecimento do ecoturismo de base comunitária na Terra Indígena Yanomami. Para a Funai, a retomada da estruturação do projeto turístico de subida ao Pico da Neblina representa um marco no processo de garantia dos direitos indígenas na TI Yanomami, ao apoiar uma forma de geração de renda digna, sustentável e conduzida pelos próprios povos Yanomami”, destacou o especialista em indigenismo da Coordenação de Promoção do Artesanato, Extrativismo e Turismo de Base Comunitária vinculada à Diretoria de Gestão Ambiental e Territorial (Digat) (Coext/CGAP/Digat),  Ramon Ramalho. 

Gestão compartilhada

A anuência institucional ao projeto ocorre nos marcos da Instrução Normativa Conjunta (INC) entre o ICMBio e a Funai nº 1/2025, que estabelece diretrizes, procedimentos e fluxos para autorização e ordenamento da visitação turística em áreas duplamente protegidas por Terras Indígenas e Unidades de Conservação federais.

No caso do Yaripo, a proposta envolve a Terra Indígena Yanomami e o Parque Nacional do Pico da Neblina, o que reforça a importância da atuação integrada entre as instituições e as organizações indígenas. A norma prevê que os planos de visitação sejam propostos pelos povos indígenas, suas comunidades ou organizações, em articulação com a Funai e o ICMBio.

“A aprovação do Plano de Visitação Yaripo celebra a importância da política integrada entre ICMBio e Funai para a gestão de áreas duplamente protegidas. O ICMBio contribuiu ao longo do processo de elaboração e atualização do plano, com acompanhamento próximo da equipe gestora local do Parque Nacional do Pico da Neblina e análise técnica da proposta. A partir desse trabalho, o processo seguiu o fluxo administrativo previsto na Instrução Normativa Conjunta ICMBio/Funai nº 1/2025, que representa um marco para o fortalecimento da atuação integrada entre os dois órgãos”, afirmou Carol Barradas, representante do ICMBio.

Análise técnica e participação social

O Plano de Visitação Yaripo foi analisado pelo Comitê de Aprovação instituído no âmbito da aplicação da Instrução Normativa Conjunta ICMBio/Funai nº 1/2025. O comitê reuniu representantes da Funai, do ICMBio e das associações indígenas proponentes.

A reunião ocorreu no dia 19 de maio, no âmbito do VII Seminário Brasileiro sobre Áreas Protegidas e Inclusão Social (Sapis), no Auditório do Centro de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília (CET/UnB). Na ocasião, foram apresentadas ações de monitoramento da operação turística e manifestações técnicas da Funai e do ICMBio, que resultaram na aprovação do Plano de Visitação Turística do projeto Yaripo.

De acordo com Marcelo Tadvald, antropólogo e servidor da Funai na Coordenação Regional Rio Negro, o acompanhamento da pauta envolve escuta, oficinas e diálogo direto com as comunidades. O servidor atua com os chamados Povos Isolados e de Recente Contato na região, entre eles os Yanomami da chamada Frente Sul da Terra Indígena Yanomami.

“O projeto Yaripo é muito importante para a Coordenação Regional Rio Negro e para as comunidades Yanomami da chamada Frente Sul da Terra Indígena Yanomami. A CR acompanha as agendas de turismo de base comunitária desde as primeiras escutas, quando surge o interesse das comunidades, até as oficinas no território, em respeito aos princípios da consulta livre, prévia e informada. A partir desse diálogo, o Plano de Visitação é construído coletivamente, com a participação das comunidades, da Funai, do ICMBio e de parceiros”, explicou Marcelo Tadvald.

Geração de renda e proteção territorial

Além de valorizar a cultura e o conhecimento tradicional Yanomami, o Plano de Visitação Yaripo contribui para a geração de renda e a proteção territorial. A iniciativa cria oportunidades de trabalho direto para indígenas que atuam na operação turística e prevê a repartição coletiva dos benefícios entre as comunidades do entorno do Pico da Neblina.

“O projeto envolve a geração de renda por meio da criação de empregos diretos para indígenas que atuam na operação turística e também beneficia coletivamente as comunidades envolvidas, com repartição dos ganhos da atividade. Assim, não apenas os indígenas que trabalham diretamente nas expedições recebem renda, mas também as comunidades do território de visitação”, explicou Ramon Ramalho.

A atividade também fortalece a presença indígena em uma área historicamente pressionada pelo garimpo ilegal. Para a Funai, a ocupação mais constante da trilha de acesso ao Pico da Neblina e dos pontos de acampamento contribui para ampliar o monitoramento comunitário e inibir a ação de invasores.

“A atividade turística também se relaciona com a proteção territorial e o enfrentamento ao garimpo ilegal. A geração de renda contribui para desestimular a participação da juventude indígena em ações ligadas ao garimpo, enquanto a ocupação mais constante da trilha de acesso ao Pico da Neblina fortalece a presença Yanomami no território e ajuda a inibir invasões”, ressaltou Ramon Ramalho.

Para Marcelo Tadvald, o projeto também fortalece o papel das comunidades como guardiãs do próprio território. “Yaripo, que significa Serra dos Ventos, é uma montanha sagrada para os Yanomami. Fortalecer uma iniciativa de ecoturismo conduzida pelas próprias comunidades nessa região significa apoiar uma alternativa de renda, valorizar conhecimentos tradicionais e ampliar a proteção de um território que enfrenta pressões como o garimpo ilegal. É um trabalho construído junto, com escuta, diálogo e respeito ao protagonismo Yanomami”, afirmou.

Salvaguardas

A Carta de Anuência estabelece condições para a execução do Plano de Visitação. Qualquer alteração nas especificações das atividades deverá passar por avaliação e anuência da Funai. A Fundação também poderá modificar condições, suspender ou cancelar a anuência em casos de descumprimento de normas, solicitação justificada da comunidade indígena, conflitos ou situações que coloquem em risco a saúde, a segurança ou a integridade física das comunidades e equipes envolvidas.

O documento também veda a coleta de espécies da fauna, da flora e de recursos minerais nas terras indígenas, bem como a realização de pesquisas relacionadas a práticas com conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético. Fotografias, gravações e filmagens somente poderão ocorrer mediante autorização dos indígenas.

Para Ramon Ramalho, a principal salvaguarda adotada para reduzir impactos negativos e ampliar impactos positivos está na observância dos requisitos previstos na Instrução Normativa Conjunta ICMBio/Funai nº 1/2025, especialmente quanto à estrutura do Plano de Visitação e à governança da atividade no território indígena.

“A estrutura prevista para o Plano de Visitação em Terras Indígenas implica a criação de um Comitê Gestor como elemento de governança da atividade no território, assim como a participação plena e efetiva das partes envolvidas, em particular dos povos indígenas”, explicou.

Sociobioeconomia e autonomia

A assinatura da anuência fortalece uma agenda de promoção da sociobioeconomia indígena, baseada na autonomia comunitária, no uso sustentável dos territórios e na valorização dos conhecimentos tradicionais. A iniciativa demonstra como o ecoturismo de base comunitária pode gerar renda, proteger a biodiversidade e reafirmar o vínculo dos povos indígenas com seus territórios.

Com o Plano de Visitação Yaripo, a Funai reforça sua atuação no apoio a iniciativas sustentáveis conduzidas por povos indígenas, em consonância com a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (Pngati). A medida também evidencia a importância da articulação entre órgãos públicos, organizações indígenas e parceiros para construir soluções que respeitem os direitos indígenas, a conservação ambiental e a gestão territorial comunitária.

Coordenação de Comunicação Social/Funai

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Comunicações e Transparência Pública
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