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1ª edição do Prêmio Mre Gavião inaugura concurso que reconhece e promove a autorrepresentação de comunidades indígenas
Cerimônia de entrega do Prêmio Mre Gavião de Fotografia - Foto: Gustavo Alcântara
Uma noite de celebração e reconhecimento da força narrativa dos povos indígenas compôs o cenário do evento de entrega do Prêmio Mre Gavião: Fortalecimento da Comunicação Indígena, que ocorreu na quarta-feira (21), no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília. Organizada pela Assessoria Especial de Comunicação (ASCOM) do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), a cerimônia seguiu um protocolo que mesclou homenagens, discursos de peso e a celebração de 42 trabalhos premiados, marcando o lançamento oficial deste ambicioso concurso nacional.
A abertura oficial foi conduzida com a composição de uma mesa repleta de figuras centrais na comunicação e na política indígena contemporânea.
Os pronunciamentos foram iniciados pela chefe da Assessoria Especial de Comunicação Social do MPI, Talita Perna. Segundo a chefe da ASCOM, o Prêmio Mre Gavião se estabelece como uma política pública fundamental de salvaguarda cultural a partir de um acervo patrimonial de imagens que contempla fotografias de todas as regiões do país e documenta a história indígena contemporânea com um olhar autoral, interno e plural. Ao todo, foram 168 inscrições, com a participação de 45 povos indígenas, de 17 estados brasileiros.
“O Prêmio Mre Gavião de Fotografia é um dispositivo de reconhecimento que promove a auto representação e garante o registro, a difusão e o reconhecimento de narrativas visuais de comunidades indígenas, enriquecendo a memória e a história cultural do Brasil. Ele é um impulso, um movimento de força através da arte, um propulsor de jovens talentos, uma ferramenta de aldeamento do consciente coletivo brasileiro. As fotografias aqui expostas são brechas pelas quais podemos perceber a realidade de outras maneiras”, descreveu Talita Perna.
“Esse é um prêmio sobre o encanto de ser humano, de olhar para o outro e se reconhecer, de enxergar no simples o universo. Foi esse o ensinamento que Mre Gavião nos deixou. Com suas lentes e seu olhar atento, fosse do celular ou de sua câmera, Mre registrou a vida, a cultura, as lutas e a beleza de seu povo e de outros povos indígenas, deixando como legado um acervo visual inestimável e um recado muito claro aos jovens artistas indígenas: o seu olhar é poderoso, ele transforma narrativas e é capaz de escrever a história”, concluiu ela.
Guerreiro da Comunicação
Na sequência, Erisvan Guajajara, coordenador Nacional do Coletivo Mídia Indígena, exaltou a figura de Mre Gavião como um guerreiro da comunicação indígena que dedicou a vida a dar voz aos povos originários com beleza e esperança, mesmo ao capturar momentos de luta e resistência. “Mre deixa um legado em que a fotografia é essa essência de contar o mundo como nós, povos indígenas, lutamos e defendemos o planeta. A fotografia é essa essência de contar as nossas narrativas, porém a partir do nosso olhar. Ele tinha essa sensibilidade. Aos premiados de hoje, vocês vão continuar esse legado.”
Kine Kukukakrykre Parkateje, pai do homenageado, dirigiu-se ao público ao lembrar que Mre fundou a Mídia Gavião para retratar e registrar o próprio povo no Pará e como se dedicava a ensinar e colaborar com jovens comunicadores para incentivá-los. “Mre deixou uma história e, mesmo agora, nos dá força até hoje para continuá-la. Todas as tradições têm que ser valorizadas e registradas em um mundo de culturas e gerações diferentes. O fortalecimento cultural que ele trouxe tem que ser multiplicado.”
A solenidade prosseguiu com a fala de Ricardo Henrique Stuckert, secretário de Produção e Divulgação de Conteúdo Audiovisual. “Eu tenho mais de 40 anos de fotojornalismo, venho também de uma família de mais de 38 fotógrafos que possui mais de 150 anos de trajetória e eu fico vendo o que o Mre fez tão jovem, mas com uma visão que poucos têm, tiveram e vão ter. Ele conseguia ver coisas que nem nós, fotógrafos com muita experiência, conseguíamos porque ele estava falando de algo muito mais forte, que é do povo dele, do sangue dele.”
Mre Gavião, presente!
Em seguida, a Ministra de Estado dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, agradeceu a presença da família do fotógrafo que nasceu no Pará, bem como aos indígenas que enviaram seus registros para participar do concurso e se pronunciou sobre a trajetória de Mre Gavião. “Apesar de jovem, Mre deixou uma história e uma inspiração sobretudo para a juventude. Mre sempre dizia para nós que a fotografia denuncia, defende e pode valorizar também o que nós temos de belo na nossa cultura, na nossa diversidade”, declarou a ministra.
A exibição de um vídeo dedicado à jornada do comunicado relembrou o talento e a sensibilidade do fotógrafo oficial do MPI, cujo olhar único, iniciado em 2017 no Acampamento Terra Livre com um simples celular, tornou-se referência nacional no registro da diversidade e da luta dos povos indígenas. Após a homenagem, a mesa foi reestruturada, permanecendo no palco a Ministra Sonia Guajajara, que conduziu a etapa seguinte ao lado de secretários da pasta.
O bloco de premiação foi realizado com a entrega das distinções aos 42 premiados, seguindo uma ordem previamente estabelecida. O momento simbólico foi coroado por uma foto final que reuniu todos os agraciados, registrando a reunião de novos talentos inspirados pelo legado de Mre.
Sobre o Prêmio e seu patrono
O Prêmio Mre Gavião, cujas inscrições se encerraram em 29 de agosto de 2024, é uma homenagem ao comunicador indígena Kumreiti Cardoso Kiné, nascido em Bom Jesus do Tocantins, no Pará, e membro da Aldeia Krijoherê, ele faleceu em 4 de maio do ano passado. Servidor do MPI desde sua criação, Mre Gavião destacou-se pela criatividade e sensibilidade de seu trabalho, tornando-se inspiração para jovens comunicadores de todo o Brasil.
O concurso, exclusivo para indígenas residentes no país, premiou 42 trabalhos autorais em nove categorias, com um montante global de R$ 90 mil. Os primeiros colocados de cada categoria receberam R$ 5 mil, os segundos R$ 2 mil, e os terceiros, quartos e quintos lugares foram agraciados com menções honrosas no valor de R$ 1 mil cada.
O edital, publicado em 11 de agosto, estabeleceu regras rigorosas: as fotografias tinham que ser obrigatoriamente inéditas, autorais e livres de manipulações que alterassem o conteúdo, sendo vedadas aquelas geradas ou com interferência de inteligência artificial.
Cada proponente maior de 18 anos poderia inscrever até três obras, que foram avaliadas por uma Comissão Julgadora com base em critérios como relevância temática, qualidade técnica e estética, originalidade, força narrativa e a capacidade de valorizar culturas, territórios e lutas indígenas.
O processo seletivo seguiu um cronograma que previa a homologação do resultado até 17 de outubro, consolidando uma iniciativa que visa não apenas fomentar a produção audiovisual indígena, mas também perpetuar o olhar comprometido e a postura de Mre Gavião sobre a marcha cotidiana dos povos indígenas.
* Confira os estados que participaram da premiação, assim como os povos que participaram da iniciativa:
Acre, Amazonas, Pará, Roraima, Tocantins, Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Sergipe, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina.
1. Povo Anacé
2. Povo Apyãwa-Tapirapé
3. Povo Fulni-ô
4. Povo Gavião
5. Povo Guarani
6. Povo Guarani Kaiowá
7. Povo Guarani Mbya
8. Povo Guarani Nhandewa
9. Povo Kaingang
10. Povo Karajá
11. Povo Karajá-Xambioá
12. Povo Kaxinawá
13. Povo Kaxixó
14. Povo Kaxuyana e Tiriyó
15. Povo Kayabi Kawaiwete
16. Povo Krenak
17. Povo Krikati
18. Povo Kuikuro
19. Povo Kumaruara
20. Povo Magúta
21. Povo Matis
22. Povo Mendonça Potiguara
23. Povo Munduruku
24. Povo Pankará
25. Povo Pankararu
26. Povo Pataxó
27. Povo Pataxó Hã Hã Hãe
28. Povo Pitaguary de Monguba
29. Povo Potiguara
30. Povo Potiguara Ibirapi
31. Povo Puri
32. Povo Taurepan
33. Povo Terena
34. Povo Tingui-Botó
35. Povo Truká
36. Povo Tupinambá
37. Povo Tupinambá de Olivença
38. Povo Tuxá
39. Povo Wanano
40. Povo Wassu Cocal
41. Povo Wauja
42. Povo Xakriabá
43. Povo Xocó
44. Povo Xukuru do Ororubá
45. Povo Yudja