MPI, Embrapa e Caianas formalizam protocolo para instalar primeira estação meteorológica em território indígena no MS
Acordo assinado durante a TecnoFam prevê monitoramento climático e transferência de tecnologia para fortalecer a produção sustentável e a soberania alimentar na TI Cachoeirinha

Na quarta-feira (10), um marco para a gestão territorial e ambiental indígena foi estabelecido durante a 6ª edição da feira de Tecnologias e Conhecimentos para Agricultura Familiar (TecnoFam), em Dourados-MS. O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, a presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Lúcia Alberta, e a diretora-presidente substituta da Embrapa, Ana Margarida Castro Euler, assinaram um protocolo de intenções visando a instalação, operação e manutenção de uma estação meteorológica na Terra Indígena Cachoeirinha, no município de Miranda-MS.
A iniciativa é uma parceria direta com o Coletivo Ambientalista Indígena de Ação para Natureza, Agroecologia e Sustentabilidade (Caianas) e busca fornecer suporte técnico para a produção agrícola sustentável e o fortalecimento do etnodesenvolvimento local. O protocolo tem um prazo de vigência de 24 meses a partir da data de sua assinatura, podendo ser prorrogado.
O ministro Eloy Terena destacou que a assinatura do protocolo integra uma estratégia mais ampla do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) para garantir autonomia e infraestrutura técnica às comunidades. Segundo o ministro, a iniciativa em Mato Grosso do Sul serve de exemplo para a implementação de Políticas de Gestão Ambiental e Territorial (PNGATI) que saem do papel para a prática. Ele enfatizou a importância do apoio institucional para que os povos indígenas possam desenvolver suas atividades produtivas com as mesmas ferramentas disponíveis para outros setores agrícolas.
"Vamos ter a primeira estação meteorológica em uma Terra Indígena aqui em Mato Grosso do Sul, que vai ser lá na terra indígena Cachoeirinha, com o apoio inicial da Embrapa e com a assinatura desse protocolo de intenções, o Ministério dos Povos Indígenas está se comprometendo também a entrar como parceiro do Caianas para que a gente possa também estruturar essa iniciativa".
A diretora-presidente substituta da Embrapa ressaltou que a missão da empresa pública vai além da pesquisa técnica, possuindo uma função social intrínseca com as comunidades. Segundo Ana Margarida, a ciência mais poderosa é aquela que pulsa em defesa do planeta e da sociobiodiversidade, unindo o conhecimento acadêmico ao ancestral para enfrentar a crise climática.
"Só unidos realmente teremos condição de enfrentar as mudanças do clima que ninguém mais tem dúvida que estão acontecendo e que temos que ter capacidade de, junto com vocês nos diferentes territórios, construir essas respostas". Ana Margarida pontuou ainda que o compartilhamento de dados é essencial para a autonomia indígena. "Não adianta só falar que estamos trabalhando, temos que comprovar, mostrar dados que possam ser transparentes e compartilhados com vocês."
Tecnologia a serviço da produção indígena
Esta será a sexta unidade a integrar a rede de estações da Embrapa em Mato Grosso do Sul, com dados disponibilizados em tempo real no portal Guia Clima. Para os pesquisadores da Embrapa Agropecuária Oeste, a estação preenche uma lacuna histórica de dados climáticos precisos na região de Miranda e do Pantanal. O pesquisador Éder Comunello explicou que a demanda partiu dos próprios indígenas, que notaram que os registros baseados apenas na tradição oral já não eram suficientes frente às rápidas alterações climáticas globais.
"Para que que serve uma estação dessa? Para saber as condições da região, confirmar se está havendo mesmo alterações climáticas. O que eles podem fazer, como podem trabalhar os cultivos de uma forma melhor e nas melhores épocas", pontuou Comunello.
O projeto é definido pela Embrapa como um processo de transferência de tecnologia, onde a expertise técnica é compartilhada para gerar autonomia. Danilton Luiz Flumignan, também pesquisador da instituição, reforçou que o foco central é garantir que a comunidade se aproprie dos dados para melhorar sua subsistência.
"É, acima de tudo, uma questão de soberania alimentar e renda. Uma atividade feita a campo, a céu aberto, ela é totalmente dependente do clima. A transferência se dá quando a gente põe isso no campo e a comunidade da Terra Indígena, se apropria disso."
Dados decodificados para a cultura local
A implementação da estação na TI Cachoeirinha destaca-se pelo caráter educativo e cultural. O Coletivo Caianas assumirá a responsabilidade de manter o cercamento da torre, zelar pela área e, fundamentalmente, coordenar a difusão de materiais informativos bilíngues. Neiriel Terena, assessor de comunicação da organização, relatou que a ideia nasceu de uma formação de jovens que sentiram a necessidade de entender o próprio clima para planejar o futuro do território.
A inovação do projeto está na tradução da ciência para o contexto indígena. Neiriel ressaltou que os dados serão ferramentas de ensino nas escolas locais.
"Uma coisa muito interessante que a gente tem pensado dentro da Caianas é traduzir todos esses dados para a língua terena. Em vez da gente se basear em dados de outro universo, a gente vai olhar pro nosso universo. Isso reforça a importância desse protagonismo nosso enquanto acadêmicos e pesquisadores indígenas em decodificar esses dados para nossas lideranças e crianças".