MPI e Funai inauguram 1ª Feira Intercultural em Parintins e asseguram protagonismo aos povos indígenas

Iniciativa nasce de mobilização do governo federal após visita ao Festival em 2025 e busca consolidar espaço de comercialização e valorização da sociobioeconomia indígena na região

Publicado em 26/06/2026 17:41Modificado há 4 dias
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Feira
Fotos: André Guajajara

A inauguração da 1ª Feira Intercultural de Arte dos Povos Indígenas de Parintins-AM, realizada na quinta-feira (25), marca um passo histórico na visibilização das comunidades indígenas que são o alicerce cultural de um dos maiores espetáculos folclóricos do país. A iniciativa do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) preenche uma lacuna de décadas ao oferecer infraestrutura digna e autonomia para artesãos de diversas etnias, transformando o evento em um polo de valorização cultural e geração de renda para quem de fato edifica a identidade amazônica.

A proposta dialoga diretamente com a campanha publicitária "Brasil raiz de verdade, é indígena o berço da nossa identidade", lançada em 2026, que reafirma o protagonismo dos povos originários na formação do país.

Para o ministro Eloy Terena, a concretização da feira é o cumprimento de um compromisso firmado no ano anterior, quando visitou a ilha de Parintins acompanhado da então ministra Sonia Guajajara. Na ocasião, ao percorrer as ruas de Parintins, as autoridades federais constataram que, apesar de a cultura indígena inspirar as apresentações no Bumbódromo, os parentes artesãos não possuíam um local de referência e ficavam distribuídos de maneira difusa pela cidade sem apoio institucional. A mobilização da pasta visou a criação de um espaço que garantisse não apenas a venda de produtos, mas um lugar de convivência e fortalecimento da cultura local.

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Com o apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o projeto foi erguido com uma estrutura de 700 m² que abriga 50 cabines de exposição, reunindo mais de 100 artesãos de povos da Amazônia Legal, como Sateré-Mawé, Hixkaryana e Maraguá. A Feira não se restringe à comercialização, pois está focada no desenvolvimento técnico através de oficinas de precificação e gestão de negócios conduzidas pela Secretaria de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas (SEART/MPI) e pela Secretaria de Gestão Ambiental e Territorial Indígena (SEGAT/MPI), assegurando que os indígenas ocupem o centro da economia criativa.

"Ano passado, quando andávamos pelas ruas, deparamos que faltava um espaço específico para nós. Víamos parentes espalhados pela cidade e sem lugar de referência. Hoje retornamos com esse projeto já em pé para garantir que o protagonismo seja dos povos indígenas e que nunca mais se pense em um Festival de Parintins sem a nossa presença e o nosso espaço oficial", declarou o ministro Eloy Terena em seu discurso de abertura.

A presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Lucia Alberta Baré, ressaltou que a ocupação do espaço é estratégica para que os rituais e a arte indígena sejam ampliadas e não apenas à arena de disputa entre os bois Caprichoso e Garantido. Em sua primeira visita oficial à região como presidenta da Fundação, ela enfatizou a importância de divulgar a riqueza cultural dos artesãos amazonenses e assegurou que a Funai trabalha para que a Feira se torne um evento perene no calendário oficial de Parintins.

"Nós, povos indígenas, precisamos fortalecer ainda mais a nossa presença em espaços como esse festival. Não podemos deixar que a nossa cultura e os nossos rituais sejam utilizados apenas lá dentro da arena, mas que possamos ter momentos como este para divulgar toda nossa riqueza cultural e o trabalho feito pelos nossos artesãos", afirmou a presidenta.

Desenvolvimento regional

O governador Roberto Cidade também esteve presente e celebrou a parceria entre o governo estadual e o federal como um caminho próspero para o desenvolvimento regional. Ele destacou que a feira atua como um motor de empregabilidade, permitindo que os recursos gerados pela venda de biojoias e cestarias retornem diretamente para as comunidades indígenas do interior, valorizando o trabalho de famílias de artesãos.

"Fico muito feliz e otimista em ver que este ano temos uma feira com mais de 100 artesãos que vão poder gerar emprego, renda e levar recursos para suas comunidades. O Festival de Parintins é o local onde abrimos as portas para o Brasil e para o mundo", pontuou o governador.

A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SEMCEC), representada pela secretária Rozenilce Santos, classificou a iniciativa como uma conquista histórica que atende a anseios de décadas das lideranças locais. Ela reforçou a disposição da gestão municipal em caminhar junto ao MPI para construir políticas públicas que não apenas integrem a cultura indígena, mas que de fato garantam infraestrutura para que o legado ancestral continue vivo e valorizado.

"Essa Feira vem realmente marcar não só o Festival de Parintins, mas transformar e oportunizar tudo aquilo que estava guardado dentro de cada uma dessas pessoas por muitos anos. A Secretaria de Cultura está aqui para somar e construir políticas que de fato contemplem os povos indígenas", ressaltou a secretária.

Demandas por aprimoramento e infraestrutura

O coordenador do Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena (DSEI-SESAI) de Parintins, Jecinaldo Sateré, destacou que a feira é um marco, mas lembrou que a luta por dignidade deve avançar para outras áreas essenciais.

Ele apresentou demandas para o aprimoramento da vida indígena na região, como o fortalecimento institucional da Funai com a volta de uma Coordenação Regional para o Baixo Amazonas, visando suprir a carência de servidores e garantir assistência contínua.

Protagonismo e voz das lideranças indígenas

A feira foi recebida com entusiasmo por diversas lideranças indígenas. Aldemir Sateré, representante da Associação Indígena Sateré-Mawé (AINDI) e coordenador da curadoria, enfatizou a transição de "personagem" para "partícipe" da festa. "A gente sempre quis ser autônomo e não apenas personagem folclórico. Hoje, somos partícipes desse evento porque plantamos uma semente que vai germinar infinitamente e fortalecer nossa economia e nossa autoestima territorial", celebrou Aldemir.

Humberto Hixkaryana, do Conselho Geral do Povo Hixkaryana (CGPH), reforçou que a comercialização do artesanato durante o festival representa a principal fonte de renda para suas comunidades e agradeceu a parceria com o ministro Eloy Terena pelo compromisso com o fortalecimento dos saberes tradicionais.

Tito Sateré-Mawé, do Conselho Geral do Povo Sateré-Mawé (CGPSM), classificou o momento como fruto de uma articulação necessária, destacando a sensibilidade do governo federal ao ouvir as demandas da base. Por fim, a ativista indígena Vanda Witoto ressaltou que ter uma "estrutura digna pela primeira vez corrige um cenário histórico de precariedade, celebrando a feira como um espaço de resistência onde a juventude e as mulheres indígenas podem exercer sua espiritualidade e identidade através da arte e do grafismo ancestral”.

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Cultura, Artes, História e Esportes
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