Ministro Eloy Terena assina portaria que cria o Fórum Regional Territórios Ancestrais do Baixo Tapajós em Brasília
Instituído em resposta direta às reivindicações colhidas em audiências no Pará, novo mecanismo institucional visa coordenar políticas de demarcação, saúde e educação para 14 povos indígenas da região do Pará

Na terça-feira (26), em Brasília, o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, assinou a Portaria MPI nº 89, que oficializa a criação do Fórum Regional Territórios Ancestrais do Baixo Tapajós. A medida é um desdobramento direto e estratégico das audiências públicas realizadas pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI), entre os dias 2 e 4 de maio de 2026, no estado do Pará.
Ao formalizar o Fórum em menos de um mês após as visitas técnicas às aldeias, o governo federal atende com agilidade ao compromisso firmado com os 14 povos indígenas que habitam o território, estabelecendo uma instância permanente de governabilidade para enfrentar conflitos históricos na região.
A criação do Fórum responde às demandas apresentadas por lideranças dos povos Arapyun, Arara-Vermelha, Borari, Jaraki, Tapajó, Tapayú, Apiaká, Kumaruara, Maytapu, Munduruku, Munduruku Cara Preta, Sateré-Mawé, Tapuia e Tupinambá. Durante a visita oficial no início de maio, o ministro Eloy Terena percorreu territórios, como a Aldeia São Pedro do Muruci e a Terra Indígena Bragança/Marituba, onde ouviu relatos sobre pressões de madeireiras, garimpo e avanço do agronegócio.
O Fórum surge como uma ferramenta para articular diferentes ministérios e órgãos em um plano de trabalho com metas e prazos definidos, garantindo a participação direta dos povos indígenas nas decisões que afetam seus territórios.
Em sua fala direta às lideranças, Eloy Terena reforçou que a existência do ministério é uma conquista política que altera a lógica da gestão pública no Brasil. “Hoje nós não estamos aqui fazendo um favor, estamos aqui cumprindo o nosso dever em reconhecimento e respeito à luta de vocês. Essa é a nossa missão e esta é a diferença de ter indígenas ocupando os espaços decisórios. Não podemos nunca mais imaginar um Brasil sem um Ministério dos Povos Indígenas”.
Por fim, a metodologia de trabalho estabelecida para o Fórum, que terá sua primeira reunião oficial no início de junho deste ano, prioriza a participação horizontal. Com um cronograma que prevê avanços significativos até o final do ano, o Fórum se propõe a ser uma rede de proteção territorial em tempo real, conectando instituições de justiça, ministérios e prefeituras em uma estratégia única de defesa dos direitos indígenas.
Coordenação do DEMED
De acordo com a Portaria nº 89, o Fórum possui caráter permanente e será coordenado pelo Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Fundiários Indígenas (DEMED) do MPI. As atividades serão estruturadas em quatro eixos prioritários:
Regularização, demarcação e proteção territorial;
Fortalecimento da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai);
Articulação de ações voltadas à saúde indígena;
Implementação de políticas sociais.
A composição do colegiado inclui diversas secretarias do MPI e a própria Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Além disso, serão convidados representantes de pastas como Meio Ambiente, Saúde, Educação, Justiça e Direitos Humanos, além de órgãos como o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU).
Segundo a diretora Andressa Lewandowski, a iniciativa no Baixo Tapajós é a segunda desse tipo capitaneada pelo departamento, utilizando uma metodologia de trabalho em rede inspirada diretamente na organização histórica dos movimentos indígenas. Essa abordagem visa superar a fragmentação administrativa, garantindo que as estratégias para a região não sejam impostas de cima para baixo, mas construídas coletivamente.
A estratégia central do Fórum é promover a convergência de múltiplos atores em um único espaço de decisão, evitando que demandas essenciais se percam em diferentes instâncias. Para a primeira reunião oficial, o DEMED convocará instituições de justiça, diversos ministérios federais, o governo do estado do Pará, prefeituras e a universidade local. O foco será a criação de um plano de trabalho com cronograma coordenado, onde pautas de saúde, educação e demarcação sejam tratadas como eixos interdependentes e urgentes.
Internamente, o DEMED atuará em sinergia com outras secretarias do MPI, como as de Direitos Territoriais (SEDAT), Gestão Ambiental (SEGAT) e Direitos Sociais (SEART). Essa coalizão interna permitirá ao Fórum identificar e priorizar desde conflitos de alta complexidade e impacto, como as demarcações de terras sob pressão de grandes empreendimentos, até questões do cotidiano que vulnerabilizam os territórios.
"O nosso trabalho funciona muito com o pé na aldeia, muito próximo da comunidade e das lideranças. Queremos ter essa oportunidade de estar conversando com vocês nesse diálogo para identificar as demandas prioritárias e conseguir avanços significativos em pouco tempo", comentou a diretora.
Saúde, educação e fortalecimento da Funai
Para além da questão fundiária, a portaria institucionaliza a articulação para demandas sociais críticas. Entre elas, destaca-se a criação do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Tapajós, com sede em Santarém, para facilitar o acesso a serviços essenciais centralizados em Belém. Na área da educação, o foco recai sobre a construção de escolas de ensino médio no Alto Rio Arapiuns e a melhoria do transporte escolar em Belterra.
Outro ponto fundamental é o fortalecimento da Funai na região, com a previsão de criação de uma Coordenação Regional (CR) em Santarém. Esta unidade visa garantir uma presença institucional mais robusta do órgão indigenista em uma área marcada por intensos conflitos socioambientais e pressões imobiliárias em contextos periurbanos, como ocorre na TI Borari de Alter do Chão.
Em sintonia com a agilidade do MPI, a autarquia reafirmou que a visita técnica realizada no início de maio foi o marco inicial de um cronograma de responsabilidades. O foco central da presidência da fundação é garantir que a estrutura administrativa no Pará acompanhe a relevância política do novo Fórum Regional, assegurando que os processos demarcatórios de territórios da região tenham o suporte técnico necessário para avançar.
Um dos avanços mais imediatos destacados pela presidenta da Funai é a reestruturação física e simbólica da Funai em Santarém. Atendendo a uma demanda histórica das lideranças, a presidenta da Funai, Lucia Alberta Baré, confirmou que já está em análise técnica uma proposta para a locação de uma nova sede, visando substituir as instalações atuais por um espaço adequado.
No que tange a criação da CR do Médio Tapajós e Baixo Amazônia, a estratégia administrativa está sendo decidida com base na urgência das comunidades. Para além da infraestrutura, o fortalecimento do capital humano é uma prioridade para viabilizar as demarcações físicas previstas para 2026.
A presidenta informou que solicitou a ampliação do número de vagas para Santarém no próximo concurso interno de remoção, visando atrair servidores para compor o quadro da nova unidade regional. Essa medida é fundamental para garantir que o Fórum conte com equipes técnicas residentes e capacitadas para mediar os conflitos fundiários e apoiar os grupos de Guardiões da Floresta na proteção territorial.
Durante o diálogo com as lideranças, Lucia Alberta Baré informou: "Parentes, o que nós fomos fazer lá tem continuidade, não foi só uma ida e ponto final, porque lá começam os compromissos. Os compromissos feitos estão caminhando".
Cenário fundiário
Já o movimento indígena terá representação central por meio do Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns (CITA), da Federação dos Povos Indígenas do Estado do Pará (FEPIPA), da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e da Articulação Nacional dos Povos Indígenas (APIB) no Fórum.
O cenário fundiário do Baixo Tapajós é descrito como um mosaico complexo de 12 territórios em diferentes estágios de regularização.
Sete territórios em diferentes estágios de regularização, que incluem áreas que variam desde processos de identificação em andamento até a conclusão da demarcação física.
Cinco reivindicações fundiárias adicionais: territórios que ainda aguardam o início formal dos processos de estudo.
Os territórios que integram o conjunto são as TIs Munduruku-Taquara, Bragança/Marituba, Maró, Cobra Grande, Borari de Alter do Chão, Escrivão, Munduruku e Apiaká do Planalto Santareno, além das áreas reivindicadas de Encantados/Kumaruara, Sarambiá, Tupinambá do Baixo Tapajós, Terra Preta e Arapyun.
O plano de trabalho do Fórum, que deverá ser elaborado em até 60 dias após a primeira reunião, deve priorizar a conclusão das demarcações físicas das TIs Bragança-Marituba e Munduruku-Taquara, previstas para 2026. Também estão no radar o avanço dos processos das TIs Maró e Cobra Grande, cujas portarias declaratórias foram assinadas em 2024 e que aguardam demarcação física via acordos de cooperação técnica para 2027.
O Fórum também atuará no combate a ameaças de morte contra lideranças e na proteção contra a exploração ilegal de bauxita e madeira, especialmente em territórios como a TI Cobra Grande. A proteção territorial será reforçada pelo apoio logístico e financeiro aos grupos de Guardiões da Floresta, agentes ambientais indígenas que realizam o monitoramento vigilante de suas terras.
CITA
A criação do Fórum Regional Territórios Ancestrais do Baixo Tapajós é recebida pelas lideranças do Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns (CITA) como um marco de ruptura com a invisibilidade histórica. Para Lucas Tupinambá, presidente do CITA, o estabelecimento de um canal de diálogo direto com o governo federal é histórico, após anos de exclusão das mesas de decisão. O sentimento de reconhecimento é compartilhado pela liderança Auricelia Arapiun, que ressalta o impacto da presença física do Ministério na região como um gesto que dá sentido à existência da pasta, permitindo que as demandas locais sejam vistas pelo Estado.
As demandas levadas ao Fórum extrapolam a regularização fundiária, abarcando crises de infraestrutura básica e segurança alimentar que afetam o cotidiano das aldeias. Lucas Tupinambá enfatizou a contradição de “comunidades que habitam uma das maiores bacias hidrográficas do mundo e ainda sofrem com a falta de abastecimento de água potável”.
Além disso, as lideranças defendem que o Fórum priorize o fortalecimento da cadeia produtiva e da soberania alimentar, propondo a mecanização de processos como o cultivo da mandioca para ajudar na adaptação dos territórios às mudanças climáticas e ao aumento das temperaturas na Amazônia.
A força organizativa do movimento indígena no Pará, simbolizada pelos 26 anos do CITA, é apresentada como um dos alicerces do Fórum. Auricelia Arapiun lembrou que “a organização nasceu da resistência durante a Marcha dos 500 Anos em 2000, e que a trajetória de luta é o que permitiu a proximidade atual com a Funai e o MPI”. Para ela, “embora o Fórum seja um instrumento institucional fundamental, a garantia dos direitos ancestrais continuará dependendo da mobilização constante das bases”.
A participação do Poder Legislativo, representada pelo deputado Airton Faleiro, adicionou uma camada de monitoramento político à criação do Fórum Regional Territórios Ancestrais do Baixo Tapajós. Faleiro frisou que a transição do diálogo para a execução prática é o maior desafio da gestão pública, argumentando que a institucionalização do mecanismo é uma entrega que supera a fase de meras promessas.
Para o parlamentar, “o Fórum elimina a necessidade de constantes articulações isoladas, criando um fluxo permanente e oficial para que as demandas dos 14 povos da região sejam tratadas de maneira coordenada entre os diversos órgãos federais e estaduais".
Do ponto de vista administrativo, o deputado vê o fórum como uma ferramenta de simplificação e resolutividade. Ao centralizar as pautas em reuniões mensais com cronogramas e metas, o governo federal evita o desgaste de agendas fragmentadas que podem não resultar em ações concretas no território.