Prêmio Mre Gavião consagra olhares indígenas da fotografia

Marco na visibilização de narrativas construídas a partir do interior das comunidades, cerimônia no Memorial dos Povos Indígenas reconhece trabalhos fotográficos produzidos por indígenas com valor total de R$ 90 mil

Publicado em 22/01/2026 18:58Modificado em 03/02/2026 08:46
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Prêmio Mre Gavião.png
Cerimônia de entrega do Prêmio Mre Gavião de Fotografia

A cerimônia de Premiação do Prêmio Mre Gavião: Fortalecimento da Comunicação Indígena, realizada na quarta-feira (21), no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília, consagrou 42 fotógrafos e comunicadores indígenas de 17 estados brasileiros. Organizado pela Assessoria Especial de Comunicação (ASCOM) do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), o evento materializou o objetivo central do concurso: reconhecer e fomentar a produção audiovisual autóctone, premiando trabalhos que, através de uma rigorosa metodologia de seleção, destacaram-se por sua relevância temática, força narrativa e qualidade estética.

Os vencedores, provenientes de comunidades indígenas de norte a sul do país, foram selecionados conforme os critérios estabelecidos no edital público lançado em agosto de 2025. A premiação, com valor global de R$ 90 mil, distribuiu recursos em nove categorias distintas. Os primeiros colocados de cada categoria receberam R$ 5 mil, os segundos lugares, R$ 2 mil, e os terceiros, quartos e quintos colocados foram agraciados com menções honrosas no valor de R$ 1 mil cada.

A metodologia de avaliação, conduzida por uma Comissão Julgadora, ponderou não apenas a qualidade técnica e a originalidade das obras, mas também sua capacidade de valorizar culturas, territórios e lutas indígenas, comunicando história e contexto sociocultural com impacto de representantes dos seguintes estados: Acre, Amazonas, Pará, Roraima, Tocantins, Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Sergipe, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina.

Dentre os premiados, destacaram-se nomes como Piratá Waurá, que obteve o primeiro lugar nas categorias Infâncias e Juventudes Indígenas e Vida Cotidiana Indígena, e ainda um segundo lugar em Rituais, Jogos e Cosmovisão. Outro vencedor múltiplo foi Takumã Kuikuro, primeiro colocado em Resistência e Defesa de Direitos, demonstrando a potência do registro documental engajado.

Já Débora Anacé, mulher indígena da comunidade Taba do Anacé, na Terra Indígena Anacé, no Ceará, foi uma das vencedoras do Prêmio MRE Gavião, conquistando o quinto lugar na categoria Resistência e Direito à Defesa dos Direitos. Sua atuação se destaca pelo uso da fotografia como ferramenta de narrativa e resistência, garantindo que a história de seu povo seja contada por sua própria perspectiva, um ato político e cultural de grande relevância.

Ao receber o reconhecimento em nível nacional, Débora enfatizou o significado coletivo da honraria e a importância de uma mulher indígena estar entre os premiados. "Por muito tempo a gente não pode contar nossa própria história. Ser mulher e ter a oportunidade de contar a história do meu povo através da fotografia é muito importante. Isso não só para mim, porque a gente não defende só o nosso, mas defende o nosso povo e os povos indígenas do Brasil todo."

A categoria Retratos e Identidades foi liderada por Mayane Ramos dos Santos, que também conquistou um segundo lugar em Infâncias e Juventudes Indígenas. Já Damião da Paz venceu as categorias Inovação Visual e Experimentação Técnica e Territórios, Natureza e Sustentabilidade, evidenciando a diversidade de abordagens e técnicas premiadas.

Flávia Correa Xakriabá, de 28 anos, é uma fotógrafa indígena da Aldeia Barreira do Xakriabá, em Minas Gerais, que representa uma comunidade de aproximadamente 13 mil pessoas. Ela foi destaque no Prêmio MRE Gavião de Fotografia, conquistando a quarta colocação em duas categorias distintas: Retrato e Identidade, e Inovação Visual e Experiência Técnica, sendo esta sua primeira premiação no segmento da fotografia.

"Eu acho importante e necessário o Prêmio porque a gente tem um olhar diferente, um olhar que atravessa a lente. Quando são os parentes que estão ali premiando percebemos que estamos fazendo o certo, porque eles estão vendo que estamos fazendo um bom trabalho quando estamos falando de nós mesmos."

Vherá Poty Benites da Silva, também conhecido como Arapoatinga Benites da Silva, é um fotógrafo indígena de 38 anos da comunidade Tekoa Jekupe Amba (Morada do Guardião), localizada em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. Ele se destacou como um dos maiores vencedores do Prêmio MRE Gavião de Fotografia, conquistando o quinto lugar na categoria Infâncias e Juventudes Indígenas, o segundo lugar na categoria Território, Natureza e Sustentabilidade e o terceiro na catergoria Vida Cotidiana Indígena. Com uma trajetória que começou aos 14 anos e inclui a publicação do livro "Os Guarani Mbya", ele vê na fotografia uma ferramenta poderosa de registro e luta.

Para ele, o prêmio possui um significado especial por ser promovido por um ministério voltado aos povos indígenas. Sobre o olhar único da fotografia indígena, ele afirma: "Eu acredito que a foto dos indígenas, dos fotógrafos indígenas, de modo geral, tem um significado, tem uma expressão bem diferente. Porque já tem uma visão, uma cosmovisão já desenhada na forma de olhar. Isso traz uma forma de registrar todo o processo, seja no processo de luta, no processo cotidiano, no processo espiritual. Tem uma expressão muito gigantesca nesse sentido."

A exibição de um vídeo dedicado a Kumreiti Cardoso Kiné, o Mre Gavião, relembrou a trajetória do fotógrafo oficial do ministério, cujo olhar sensível e criativo, iniciado nas coberturas do Acampamento Terra Livre, serve de inspiração para os novos talentos agora premiados.

Assim, o Prêmio Mre Gavião se estabelece não apenas como um mecanismo de incentivo financeiro, mas como um marco na visibilização de uma narrativa construída a partir do interior das comunidades. Ao exigir fotografias inéditas, autorais e livres de manipulações significativas ou inteligência artificial, o concurso reforçou o valor do testemunho e da autoria indígena. Além disso, a exigência de uma declaração de liderança atestando o vínculo comunitário dos proponentes assegurou que as vozes premiadas são, efetivamente, as que emergem dos territórios.

- Confira a íntegra das categorias e os nomes dos vencedores:

Fotografia Mobile (Celular) 

Posição

Nome/Nome Social

Nota

Otávio Junior Costa

490,40

Willian Matos Braz

483,60

Barbára Rehkayie Kaxuyana  Inglez de Souza

478,60

Jonatan Braz Cunha

472,80

Iago da Costa Silva

456,40

Infâncias e Juventudes Indígenas 

Posição

Nome/Nome Social

Nota

Piratá waurá

496,00

Mayane Ramos dos Santos

479,60

Yrerewa Braz de Oliveira Cunha

477,00

Itamar Neco Araújo

474,00

Vherá Poty Benites da Silva

470,00

Inovação Visual e Experimentação Técnica 

Posição

Nome/Nome Social

Nota

Damião da Paz

462,80

Sérgio Luis Rodrigues Silva

460,20

Yrerewa Braz de Oliveira Cunha Silva

451,40

Flávia Corrêa

433,60

Jovens Comunicadores(as) - até 25 anos 

Posição

Nome/Nome Social

Nota

Wey Marques Tenente

482,80

Ryan Guilherme Soares de Melo

430,60

João Pedro Carqueija Nunes  Tupinambá

401,20

Resistência e Defesa de Direitos 

Posição

Nome/Nome Social

Nota

Takumã Kuikuro

490,60

Vitor Vulga dos Santos

489,80

Sônia Maria Inácio Belfort Rocha

474,80

Bruna Sirayp Kayabi

458,80

Débora Evellyn Silva de Lima

453,40

Retratos e Identidades 

Posição

Nome/Nome Social

Nota

Mayane Ramos dos Santos

493,80

João Victor Silva Nascimento

492,80

Jonatan Braz Cunha

489,80

Flávia Corrêa Franco

486,80

Ana Beatriz Rosa Lima

484,20

Rituais, Jogos e Cosmovisão 

Posição

Nome/Nome Social

Nota

Junior Okario'i Tapirape

488,40

Piratá Waurá

485,00

Iago Costa Silva

485,00

Takumã Kuikuro

478,60

Thacio de Oliveira Coelho

478,20

Territórios, Natureza e Sustentabilidade 

Posição

Nome/Nome Social

Nota

Damião da Paz

482,40

Vherá Poty Benites da Silva

475,20

Nadiely Vitória Matos Benites

466,40

Arankié Pires Tenório

452,00

Tawaiku Juruna

443,20

Vida Cotidiana Indígena 

Posição

Nome/Nome Social

Nota

Piratá Waurá

491,20

Juvenilson Burum Crixi

486,60

Vherá Poty Benites da Silva

479,40

Takumã Kuikuro

470,20

Sônia Maria Inácio Belfort Rocha

462,40

Categorias
Cultura, Artes, História e Esportes
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