Formação

Seminário aborda educação popular e saberes dos territórios na pesca artesanal

Encontro on-line reuniu experiências de diferentes regiões e discutiu a valorização dos conhecimentos locais como parte da construção de práticas de trabalho saudável e seguro

Publicado em 15/10/2026 17:05Modificado há 20 horas
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Para todos verem: Card com imagens de participantes do encontro destaca “Educação Popular e Saberes dos Territórios” e “SST na Pesca Artesanal”. Também traz ilustrações de pescadores dialogando  com a água ao fundo. No canto inferior direito, a assinatura do projeto, da Fundacentro e do MTE.
Para todos verem: Card com imagens de participantes do encontro destaca “Educação Popular e Saberes dos Territórios” e “SST na Pesca Artesanal”. Também traz ilustrações de pescadores dialogando com a água ao fundo. No canto inferior direito, a assinatura do projeto, da Fundacentro e do MTE.

Cerca de 50 mil pescadores e pescadoras já participaram da Formação Cidadã do Trabalho Saudável e Seguro na Pesca Artesanal, realizada pelos Agentes Territoriais Locais (ATLs). Eles são subsidiados pela Equipe Nacional do Projeto Trabalho Saudável e Seguro na Pesca Artesanal, desenvolvido pela Fundacentro em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego, com materiais educativos e formações. Nesse sentido, o seminário temático “O Saber da Gente: Pesca Artesanal e Educação Popular na Perspectiva do Trabalho Saudável e Seguro” reuniu ATLs, pescadores e demais interessados.

Realizado em 24 de setembro em formato on-line, o evento teve como eixo central a valorização dos saberes produzidos nos territórios da pesca artesanal e fez parte da programação preparatória do 1º Congresso Regional do Trabalho Saudável e Seguro na Pesca Artesanal, que será realizado em São Luís/MA, de 9 a 12 de novembro.

O encontro propôs uma reflexão sobre a relação entre educação popular, conhecimentos tradicionais e saúde e segurança no trabalho (SST). Assim partiu da compreensão de que os processos de aprendizagem na pesca artesanal também são construídos a partir das experiências vividas nos rios, mares, manguezais, comunidades, embarcações e organizações de pescadores e pescadoras.

A apresentação de vídeos produzidos por Agentes Territoriais Locais do Amazonas, Piauí, Maranhão, Bahia e Pará foi fundamental para esse aprendizado. Os registros trouxeram relatos de pescadores, pescadoras e representantes de comunidades sobre suas experiências de formação e a importância de reconhecer os conhecimentos construídos ao longo das gerações.

Entre os temas apresentados estiveram o conhecimento sobre os rios e os ciclos da natureza, os riscos presentes no cotidiano do trabalho, a proteção diante da exposição ao sol, a participação das mulheres, a preservação dos ambientes de pesca e o respeito ao tempo e às características de cada comunidade.

Os relatos também mostraram como os processos formativos podem criar espaços para que pescadores e pescadoras expressem suas percepções sobre o território, identifiquem dificuldades e riscos e compartilhem conhecimentos que contribuem para a construção coletiva de práticas mais saudáveis, seguras e dignas.

Em diferentes momentos, apareceu ainda a importância de ampliar os espaços de participação das mulheres e reconhecer seus conhecimentos e experiências como parte da realidade da pesca artesanal.

Diálogo, escuta e participação

A segunda parte do encontro foi dedicada a uma roda de conversa sobre educação popular e possibilidades de aplicação nos processos de formação com comunidades da pesca artesanal, com as facilitadoras Alzira Medeiros, mestra em Desenvolvimento Local e Extensão Rural pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, e Atacy Maciel, doutora em Engenharia de Processos e docente do Instituto Federal de Pernambuco.

A discussão abordou a necessidade de construir processos formativos com os territórios, e não apenas sobre eles. Entre os princípios destacados estiveram o diálogo, a escuta, a participação, o protagonismo dos sujeitos, a valorização dos saberes populares, a leitura crítica da realidade, o pensamento questionador e o respeito às características culturais locais.

Experiências desenvolvidas com pescadores e pescadoras demonstraram possibilidades de aproximação entre comunidades, instituições de ensino, pesquisa e extensão. Foram apresentados exemplos de mapeamento territorial, rodas de conversa, intercâmbios, processos formativos e participação de lideranças comunitárias em espaços de decisão e construção de projetos.

Conhecimentos técnicos e científicos podem dialogar com os saberes produzidos pelas comunidades, contribuindo para processos de pesquisa, extensão e formação mais conectados com as vivências de cada lugar. Durante o debate, a educação popular foi relacionada à construção de autonomia e à capacidade das comunidades de compreender e transformar sua própria realidade. A discussão também abordou a relação entre trabalho, território, cultura, meio ambiente e qualidade de vida.

Dessa forma, o trabalho saudável e seguro foi tratado de forma ampla, considerando não apenas os riscos diretamente relacionados às atividades da pesca, mas também as condições ambientais, os modos de vida, os tempos de trabalho e os conhecimentos utilizados pelas comunidades para viver e trabalhar nos territórios.

A discussão ressaltou ainda a importância de processos educativos que não partam de respostas prontas, mas que estimulem a problematização da realidade e a construção coletiva de caminhos, fortalecendo-se a participação dos sujeitos dos territórios nos processos que envolvem seu trabalho e suas comunidades.

Práticas de educação popular

A educação popular está presente nas ações do Projeto Trabalho Saudável e Seguro na Pesca Artesanal. A iniciativa busca aproximar conhecimentos técnicos, científicos e populares das realidades vivenciadas por pescadores e pescadoras, reconhecendo os territórios e seus saberes como elementos fundamentais para a promoção da saúde, da segurança e da dignidade no trabalho.

Desde abril de 2026, são realizadas formações cidadãs com pescadores e pescadoras nos municípios de atuação do projeto, que já contabilizam os 50 mil pescadores e pescadoras formados. Utilizam-se metodologias participativas que valorizam a escuta, o diálogo e a troca de conhecimentos. Nas atividades, os participantes são convidados a refletir sobre as condições de trabalho, os riscos presentes nas atividades da pesca, os direitos sociais e trabalhistas, a proteção à saúde, a preservação dos territórios e os desafios enfrentados pelas comunidades.

Nesse processo, a educação popular é compreendida não apenas como uma metodologia, mas como uma forma de construir conhecimento a partir da realidade vivida. A experiência dos pescadores e pescadoras, os conhecimentos transmitidos entre gerações e a leitura que cada comunidade faz de seu território são pontos de partida para discutir saúde, segurança, direitos, trabalho e qualidade de vida.

A atuação do projeto busca, assim, fortalecer espaços em que os próprios sujeitos dos territórios possam identificar problemas, compartilhar experiências, reconhecer riscos e construir coletivamente estratégias de enfrentamento a estes. A informação é trabalhada como instrumento de prevenção, participação, autonomia e fortalecimento das comunidades da pesca artesanal.

A realização do seminário “O Saber da Gente” integra a educação popular ao colocar em evidência que os conhecimentos construídos nos territórios são parte essencial da promoção do trabalho saudável e seguro. Ao aproximar educação popular, saberes tradicionais e conhecimento técnico-científico, o projeto amplia as possibilidades de diálogo e de construção coletiva de práticas que considerem as diferentes realidades dos povos das águas.

Texto:  

Mariama Oliveira - Bolsista do Projeto Trabalho Saudável e Seguro na Pesca Artesanal

Edição: 

Cristiane Oliveira Reimberg 

Categorias
Trabalho, Emprego e Previdência > Trabalho e Emprego > Saúde e Segurança no Trabalho
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