Saúde do Trabalhador

Pesquisador deixa legado de escutas múltiplas e plurisdisciplinaridade para SST

Ao reconhecer a centralidade do trabalho, economia da cooperação, ergonomia da atividade e psicodinâmica do trabalho foram utilizadas como alicerces teóricos em trajetória de pesquisa

Publicado em 01/10/2026 11:00Modificado há um dia
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Card azul com foto de Laerte, foto do evento na Poli-USP e print do artigo da RBSO.
Card azul com foto de Laerte, foto do evento na Poli-USP e print do artigo da RBSO.

A contribuição da obra de Laerte Sznelwar marcou a XX Jornada de Ergonomia, realizada na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) nos dias 16 e 17 setembro de 2026. A homenagem póstuma ocorre 10 meses após o seu falecimento, em 23 de novembro de 2025. A trajetória do médico e professor também foi pauta de editorial da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO): A contribuição de Laerte Idal Sznelwar ao desenvolvimento da Ergonomia da Atividade e da Psicodinâmica do Trabalho.

"A obra do Laerte é um exemplo de ergonomia pública, alcançou diferentes públicos e domínios", afirma o pesquisador da Fundacentro, José Marçal Jackson Filho, que participou da organização do evento. Na Mesa 5 - Saúde, Subjetividade e Trabalho, ele destacou o diálogo entre suas pesquisas e de Sznelwar.

Uma das contribuições é a noção de impedimento, que Laerte entendia como um processo que dificulta a ação, paralisando-a, bloqueando-a, obstruindo-a, inibindo-a ou dificultando a sua execução. O conceito de impedimento aplica-se quando o sujeito não tem outra escolha senão ceder, deixar de fazer, cessar o funcionamento ou deixar de entrar.

Outra perspectiva compartilhada pelos pesquisadores é a da construção de saúde, distanciando-se da noção de risco, como mostra esta citação de Laerte, apresentada por Marçal no evento:

 "O que queremos é poder bem trabalhar, desenvolver-nos profissionalmente, ter reconhecimento, tornar-nos mais sujeitos das nossas ações, desenvolver coletivos de trabalho fortes para bem trabalhar coletivamente, lutar para o reconhecimento da importância do trabalho vivo na produção, fazer coisas belas, se engajar com e para pessoas interessantes, sentir que cada vez nos tornamos mais fortes e consistentes subjetivamente, com disposição, superando conflitos éticos, podendo falar e deliberar, ficando cada vez mais livres e fortes para fazer coisas desafiadoras e interessantes, ajudando e cooperando com os outros [...], ser protagonista, enfim trilhando um caminho em direção à emancipação no e pelo trabalho (individual e coletivamente) desenvolvendo as instituições e a cultura, enfim, construindo a sua saúde.”

Processo multifacetado

A evolução do pensamento de Laerte foi retratada pelos pesquisadores franceses Christophe Dejours, do Cnam (Conservatoire National des Arts et Métiers | Conservatório Nacional de Artes e Ofícios) e Christian du Tertre, da Universidade Diderot - Paris VII e Atemis-Lir (Análise de Trabalho e Mudanças na Indústria e Serviços – Laboratório de Intervenção e Pesquisa).

"O ser humano é considerado como um fator entre tantos outros, que denominamos fatores humanos. Laerte rompeu com isso colocando o ser humano como protagonista", avalia Dejours. Essa questão é trabalhada na obra Quando trabalhar é ser protagonista, que coloca o ser humano no centro da produção e está disponível de forma gratuita.

“Os sujeitos, protagonistas de sua vida e, consequentemente do trabalho, se confrontam com um dilema, a sua ação se faz em busca de algo e aquilo que faz é muito importante. Todavia se trabalho na produção está relegado a um plano inferior, em um mundo em que se fala cada vez mais da gestão e onde o trabalho é muitas vezes, invisível, há um risco significativo para o sujeito”, afirma Laerte Sznelwar no livro. Assim ele defende que qualquer tarefa deve estar pautada na “possibilidade de propiciar o desenvolvimento profissional e a construção da saúde dos sujeitos, isto é, a perspectiva do protagonista”.

 Já Tertre destaca a pluridisciplinaridade no cerne da intervenção, com três alicerces teóricos,  apoiados no reconhecimento da centralidade do trabalho: economia da cooperação, ergonomia da atividade e psicodinâmica do trabalho. Em sua avaliação, para Laerte, toda intervenção precisa mobilizar o conhecimento dessas três teorias. Além disso, a cooperação é central para o trabalho vivo, já que o sujeito se constrói, inclusive coletivamente, ultrapassando a noção individual.

Entre os pesquisadores brasileiros, enfatizou-se que a atuação do professor da Poli-USP era permeada pelo diálogo e pela construção de pontes. "Como médico, trazia um desejo de tratamento e cura. Com a ergonomia da atividade, passa a desenvolver outro tipo de escuta", afirma o pesquisador Seiji Uchida. E essas novas formas de escuta foram se multiplicando também com a psicodinâmica do trabalho (PDT) e com a psicanálise. "Isso foi mudando nosso trabalho".

As pesquisas realizadas por Laerte Sznelwar foram apresentadas por seus pares, especialmente a aplicação da psicodinâmica do trabalho, como com agentes de trânsito, profissionais de Saúde da Família e com a magistratura. Dessa forma, o papel dele para a disseminação da PDT pelo Brasil foi ressaltado. Isso sem deixar de lado os conhecimentos em ergonomia e em teoria da complexidade.

Editorial na RBSO

O editorial da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional - A contribuição de Laerte Idal Sznelwar da Ergonomia da Atividade e da Psicodinâmica do Trabalho – fala sobre a trajetória dele. O doutorado Analyse ergonomique de l'exposition de travailleurs agricoles aux pesticides (Análise ergonômica da exposição de trabalhadores agrícolas a agrotóxicos) foi defendido no Cnam, na França, em 1992, sob orientação de Alain Wisner.

“Wisner foi um dos fundadores da ergonomia da atividade, cujo objetivo era estabelecer um diálogo entre o ser humano, o trabalho e sua organização”, aponta o editorial da RBSO. Com essa formação, Sznelwar desenvolveu ações nesse campo, contribuindo para a implementação e o avanço da área no Brasil.

Foi na França também que conheceu Dejours e a Psicopatologia e a Psicodinâmica do Trabalho. Realizou pós-doutorado no Cnam, tendo a PDT como objeto. Também se tornou referência nessa metodologia e desenvolveu trabalhos, especialmente com os pesquisadores Seiji Uchida e Selma Lancmann, autores do editorial da RBSO.

Grande parte de suas pesquisas foi realizada como professor do Departamento de Engenharia de Produção da Poli-USP, contratado em 1992 como professor assistente em Ergonomia, atuou na universidade até 2021, quando se aposentou e criou, com outros colegas, o Instituto Trabalhar.

“Sua inquietação intelectual o levou a estudar a teoria da complexidade, de Edgar Morin. O Prof. Laerte defendia a ideia de que a realidade é complexa e exige uma teoria capaz de dar conta dela no plano do pensamento; encontrou em Morin parte dessas respostas. A incorporação da teoria da complexidade levou-o a um novo patamar intelectual, impactando seu modo de conduzir projetos, ensino e pesquisa”, afirmam Lancmann e Uchida.

Também realizou formação em psicanálise e se filiou ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise. “Além de representar uma alternativa profissional, essa formação expressava sua busca por aprofundar a compreensão da dimensão inconsciente do ser humano”, concluem os autores do editorial.

Passagem pela Fundacentro

No final da década de 1980, Laerte Sznelwar trabalhou no então Setor de Ergonomia  da Fundacentro a convite da médica e pesquisadora Leda Leal. Na época ele se dedicava a sua pesquisa de doutorado.

“Depois disso nos tornamos amigos e participamos juntos de inúmeras aventuras, tanto no campo da  Ergonomia quanto no da Psicodinâmica do Trabalho. Quando recebi a triste notícia de seu falecimento, não acreditei. Tinha estado com ele, alegre como sempre, algum tempo antes e nunca me passou pela cabeça  que, mais jovem do que eu, ele partisse antes de mim. Sinto muitas saudades dele e de nossa convivência de tantos anos. Descanse em paz, meu querido amigo”, relata Leda Leal.

Dossiê

A revista científica Travailler produzirá o dossiê temático - Laerte Idal Sznelwar e a transmissão da psicodinâmica do trabalho no Brasil, coordenado por Juliana Barros, Claudio Brunoro e Leonardo Wandelli, em 2027, com os seguintes eixos:

  1. Laerte Idal Sznelwar: contribuições e diálogos;
  2. Transmissão, tradução e institucionalização da PDT;
  3. Clínica do Trabalho, pesquisa e intervenção;
  4. Pesquisas brasileiras em PDT;
  5. Diálogos interdisciplinares e questões epistemológicas e metodológicas;
  6. Transformações contemporâneas e novos desafios para a PDT;
  7. Memória, formação e transmissão entre gerações.

As propostas devem ser enviadas por e-mail (juliana.obarros@institutotrabalhar.com.br). A primeira submissão de artigo deve ser feita até 15 de janeiro de 2027, e a versão final até 15 de março de 2027.

Saiba mais

Leia o livro Quando trabalhar é ser protagonista.

Leia o editorial da RBSO - A contribuição de Laerte Idal Sznelwar da Ergonomia da Atividade e da Psicodinâmica do Trabalho.

Texto:

Cristiane Oliveira Reimberg

Categorias
Trabalho, Emprego e Previdência > Trabalho e Emprego > Saúde e Segurança no Trabalho
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