PUBLICAÇÃO

Relatos de casos destacam Caminhos do Trabalho como importante instrumento de combate à subnotificação de agravos laborais

Artigos explicam a estruturação do projeto em diferentes cidades e apresentam resultados obtidos por trabalhadores atendidos em busca de acesso a direitos trabalhista e previdenciários

Publicado em 09/04/2026 10:57
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Card artigos revista Laborare
Para todos verem: Card branco, com borda esquerda amarela. Centralizado, texto “Revista Laborare publica dossiê com experiências do projeto Caminhos do Trabalho em diferentes estados brasileiros. Abaixo, capa da revista. No canto inferior direito, logomarca verde da Fundacentro e selo comemorativo dos 60 anos da instituição.

A revista Laborare reuniu um conjunto de artigos dedicados a experiências do projeto Caminhos do Trabalho em diversas cidades do país. O dossiê “Caminhos do Trabalho Brasil: combate à subnotificação do adoecimento laboral no Brasil” apresenta dez casos com dados sistematizados dos adoecimentos e acidentes de trabalhadores atendidos pelo Projeto em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraíba e Santa Catarina e Distrito Federal.

Os relatos mostram que a estratégia empresarial de dificultar o acesso aos direitos trabalhistas, como a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), aumenta a subnotificação e prejudica os trabalhadores e os cofres públicos. “É, de fato, um padrão recorrente em diversas atividades econômicas e ocupações, demonstrando que se trata de algo estrutural e estruturante do mercado de trabalho brasileiro”, destaca o editorial da publicação.

Alguns pontos comuns são observados nos relatos. Eles destacam o poder do Projeto de integrar extensão, pesquisa e ensino, de articular profissionais e instituições de diferentes áreas e de estimular a visão crítica sobre o impacto trabalho na saúde. Reforçam que o Caminhos do Trabalho dá visibilidade ao sofrimento dos trabalhadores e é um importante instrumento para combater a subnotificação de agravos relacionados ao trabalho e possibilitar a transformação social.

Outro aspecto recorrente é a constatação de alta ocorrência de transtornos mentais e doenças do sistemas osteomuscular, apesar das diferentes profissões, idades e demais características sociodemográficas. A necessidade de aprimorar a comunicação e a mobilização social para alcançar trabalhadores adoecidos é uma questão também pontuada.

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Instrumento de mudanças

Vitor Filgueiras, coordenador do Projeto na Fundacentro, é editor do dossiê e autor do primeiro artigo, que apresenta diversos dados que embasam a discussão sobre a piora da subnotificação de adoecimentos laborais. Além de resultar em mais adoecimentos, inclusive mentais, e outros problemas que alcançam questões econômicas para trabalhadores e Estado, a ocultação compromete análises, avaliações, planejamentos e adoção de políticas públicas, aprofundando a precarização do trabalho.

“Sem saber em quais setores, onde, como o adoecimento ocorre, com qual frequência, incidência, dentre outras informações, a atuação para reduzir esse problema de saúde pública fica extremamente comprometida”, frisa o autor.

O Projeto Caminhos do Trabalho busca reverter esse cenário que necessita de práticas comprometidas com a justiça social e o trabalho digno e que combatam a subnotificação do adoecimento laboral. No artigo, Filgueiras apresenta o histórico do projeto, que integra extensão, pesquisa e ensino, os objetivos, os resultados iniciais e as perspectivas no processo de nacionalização.

“Apesar dessa dinâmica deletéria, há instrumentos jurídicos em vigor que podem reduzir estruturalmente a subnotificação dos infortúnios, e o Caminhos do Trabalho pode ser um agente importante para uma alteração substantiva do atual cenário em nível nacional”, o autor esclarece.

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Combate à subnotificação

A capacidade de intervenção social do Projeto aparece no relato de experiência da Universidade de Brasília (UnB), que articula ações interdisciplinares, interprofissionais e interinstitucionais. Os 35 trabalhadores atendidos tiveram análise do nexo causal entre agravos e trabalho, emissão de CAT, orientações técnico-jurídicas e de atenção à saúde, além de encaminhamentos e acompanhamentos necessários.

O artigo apresenta os agravos mais recorrentes, os principais direitos violados e aponta que a maioria dos trabalhadores atendidos teve o nexo causal reconhecido pela análise feita pela equipe do projeto. Relata também reclamações dos trabalhadores para acessar o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), incluindo dificuldades com o aplicativo meu INSS, entre outros.

Os autores alertam que, ao dificultar o acesso ao auxílio-doença acidentário, o INSS endossa a prática dos empregadores de dispensar trabalhadores acidentados ou adoecidos. “Assim, o padrão de gestão predatório se articula com a ineficiência estatal não só para o perecimento da saúde do trabalhador, mas também para descartá-lo depois que ele se torna inevitavelmente incapaz de trabalhar”, complementam.

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Poder das universidades públicas

A experiência da Universidade Federal Fluminense (UFF) elenca os principais agravos identificados, os desafios para estabelecer o nexo causal e discute interseccionalidades de gênero e raça no adoecimento e acesso a direitos.

A comparação entre dados do projeto na UFF e os de bases públicas oficiais mostra a magnitude da subnotificação no Médio Paraíba fluminense. Também reforça a ocultação de agravos como problema estrutural.

Os autores indicam a necessidade de melhorar a articulação com sindicatos, serviços de saúde e instituições para ampliar o alcance das ações e enfatizam o potencial transformador da extensão universitária. “O projeto Caminhos do Trabalho mostra que a universidade pública pode desempenhar papel central nessa agenda, produzindo conhecimento crítico, formando profissionais comprometidos e oferecendo serviços à população”, concluem.

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Avançar nas ações de vigilância

A implementação do Caminhos do Trabalho na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) segue passos similares aos demais, resguardadas algumas dificuldades iniciais específicas, posteriormente sanadas. O projeto acolheu 36 trabalhadores, embora Minas Gerais seja o segundo estado com maior número absoluto de acidentes de trabalho: de dez auxílios-doença, apenas um é acidentário.

O artigo reafirma o fortalecimento para estabelecer o nexo causal e emitir CATs e dossiês técnico-científicos e realça o poder da universidade nas ações de vigilância em saúde do trabalhador. “O Projeto Caminhos do Trabalho – UFU contribui não apenas para a proteção social e sanitária individual, mas também para o aprimoramento das ações de vigilância, fiscalização e formulação de políticas públicas no campo da saúde do trabalhador”, destacam os autores.

A necessidade de aprimorar a comunicação e a mobilização social para que informações essenciais não fiquem restritas a determinados grupos de trabalhadores é ponto observado pelos autores.

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Escuta ativa

Na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a experiência formativa e intervencionista envolveu estudantes de graduação e pós-graduação em Psicologia, Psicologia Social, Direito e Medicina, sob a supervisão dos docentes. O artigo explica como o projeto e os atendimentos são estruturados e ilustra os aspectos teóricos, legais e metodológicos a partir de um relato de caso.

“A experiência prática nos posiciona frente a situações que estimulam o pensamento crítico, a tomada de decisões e a nossa própria transformação enquanto sujeitos”, refletem os autores sobre o impacto da vivência nos alunos frente a uma realidade até então distante.

Com abordagem biopsicossocial e escuta qualificada, o projeto da UFPB já acolheu 32 trabalhadores. Para os autores, a prática conjunta entre docentes e estudantes constrói com os trabalhadores um vínculo de confiança fundamental para alcançar estratégias de promoção de saúde mental e física. “Assim, podem conseguir ressignificar sua trajetória laboral, com uma chance de reintegração das suas atividades e de amparo em relação a direitos previdenciários e de tratamento médico e psicológico”, salientam.

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Visão crítica

As percepções de estudantes de graduação e pós-graduação da Saúde sobre a vivência no Caminhos do Trabalho na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) é tema do outro artigo. Ao participar do projeto, eles desenvolvem consciência crítica sobre o adoecimento laboral e ampliam sua capacidade de intervenção prática e comprometida com as mudanças estruturais necessárias.

Os resultados vieram de formulário com questões abertas respondidas por alunas de Enfermagem, Fisioterapia, Psicologia, Medicina e Terapia Ocupacional. Atuar em equipe interprofissional favoreceu a troca de conhecimentos, estratégias de atuação e fortaleceu a capacidade de resposta em situações complexas.

As autoras observam que a vivência permitiu às participantes contextualizar o conhecimento teórico e aplicá-lo na prática, contribuindo para torná-las mais preparadas para atuar. “A prática permitiu construir novos olhares para a situação a partir das reflexões do grupo, o que amplia o olhar frente a complexidade da problemática e permite o desenvolvimento de novos resultados não alcançáveis na prática de uma profissão isolada”, explicam.

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Violência institucional

Em Santa Catarina, uma equipe multidisciplinar do Caminhos do Trabalho investigou o assédio moral como estratégia de gestão em uma instituição pública a pedido do Ministério Público do Trabalho.

O estudo observou um padrão sistemático de práticas abusivas pela organização, caracterizado por comportamentos sistemáticos e reiterados de constrangimento, desqualificação, humilhação, isolamento e deterioração deliberada das condições de trabalho.

“Os resultados do instrumento de rastreio de transtorno mental indicam que esses servidores estão sob elevado risco de adoecimento mental, dada a exposição a esse risco psicossocial tão potente que é o assédio moral”, concluem os autores.

O artigo apresenta a metodologia e os instrumentos utilizados para analisar os relatos de 13 trabalhadores.

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Acesso a benefícios

No setor de fabricação e montagem de veículos em Juiz de Fora (MG), um estudo de caso no âmbito do Caminhos do Trabalho identificou padrões de adoecimento relacionados ao trabalho. A análise mostra que a gestão organizacional da empresa adota estratégias sistemáticas para minimizar a gravidade dos casos ou os ocultar. Mesmo fazendo jus aos benefícios previdenciários, os trabalhadores enfrentam obstáculos para acessá-los.

Para auxiliá-los, o projeto produziu documentação técnica adequada, com dossiês circunstanciados e relatórios médicos detalhados que estabelecem a relação entre as condições clínicas e as atividades laborais desempenhadas. A equipe analisou os adoecimentos a partir de levantamento documental, identificação de diagnósticos prevalentes e a relação com a atividade laboral e aplicação do Nexo Técnico Epidemiológico (NTEP). Dada a similaridade dos agravos, também elaborou um relatório descritivo dos casos para o Ministério Público do Trabalho.

Entre as irregularidades cometidas pela empresa, estão não emissão de CAT, situações discriminatórias e vexatórias quando os trabalhadores afastados voltam ao trabalho, demissões.

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Intervenções efetivas

O sofrimento invisível de uma bancária é tema de outro estudo de caso vinculado ao Caminhos do Trabalho da UFF. A investigação da relação do adoecimento psíquico com o trabalho evidenciou que pressão por metas, cobranças excessivas, competitividade e não reconhecimento do adoecimento pela empresa estão diretamente relacionados aos sintomas.

A documentação elaborada formalizou o nexo causal e embasou a decisão do INSS de conceder o auxílio-doença acidentário à bancária. Além de ajudar a trabalhadora, o estudo também amplia o debate sobre a saúde dos bancários e como o adoecimento psíquico pode ser silenciado nesses ambientes laborais.

“O setor segue caracterizado por práticas de gestão abusivas e pela ausência de políticas efetivas de vigilância e prevenção do adoecimento”, observam os autores. Nesse sentido, é necessário olhar para a organização de trabalho, para o trabalho e as condições em que o ocorre. E concluem: “Combater a ocultação do adoecimento exige, portanto, mais que intervenções paliativas”.

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Trabalho análogo à escravidão

O último artigo apresenta o caso de uma trabalhadora uruguaia resgatada de situação análoga à escravidão em Minas Gerais. Depois de vivenciar e presenciar situações extremas de maus-tratos e estresse psicossocial, desenvolveu quadro de acidente vascular cerebral isquêmico (AVCi) e sintomas graves de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O caso foi atendido pelo Caminhos do Trabalho da UFU em conjunto com o projeto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A análise demonstra a relação entre a situação vivida, alterações neurobiológicas e aumento do risco cardiovascular. Os autores articularam narrativa clínica e conhecimento neurocientífico, além de revisões sistemáticas e estudos longitudinais sobre evidências epidemiológicas de associação entre AVC e TEPT.

Realizadas a emissão de CAT e a notificação ao Sinan, recomendaram afastamento e tratamentos imediatos, uma vez que, quanto mais tempo sem cuidados, mais crônico se torna o quadro clínico e menor é a resposta terapêutica futura. “A literatura deixa claro que traumas psíquicos crônicos e não tratados se consolidam como lesões subjetivas e neurobiológicas de difícil reversão”, explicam.

A alta complexidade dos agravos relacionados ao trabalho em condições análogas à escravidão demanda abordagens intersetoriais e da responsabilização dos empregadores. “Reforça-se a urgência de ações públicas de prevenção, acolhimento, reparação e reintegração das vítimas e ampliação de estudos empíricos sobre os impactos à saúde de trabalhadores resgatados em situação de servidão contemporânea no Brasil”, concluem os autores.

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Saiba mais

O dossiê “Caminhos do Trabalho Brasil: combate à subnotificação do adoecimento laboral no Brasil” está no v. 8, n. 15 da revista Laborare. O acesso e o download do PDF são gratuitos.

Texto:

Karina Penariol Sanches

Imagem:

Capa da revista

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Trabalho, Emprego e Previdência > Trabalho e Emprego > Saúde e Segurança no Trabalho
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