Mochilas causam danos à saúde de entregadores por aplicativo
Invisíveis para as plataformas, os efeitos do peso e da má ergonomia adoecem os trabalhadores nas ruas das grandes cidades

O artigo “Determinantes do uso da bag ou do baú por motoboy em delivery de refeições para empresas-plataforma: uma questão de saúde no trabalho” foi publicado na revista Laborare, elaborado por tecnologistas da Fundacentro, Leo Vinicius Maia Liberato, Ana Rubia Wolf Gomes, Juliana Andrade Oliveira e Laura Soares Martins Nogueira. O texto destaca uma questão central da saúde no trabalho de entregadores por aplicativo, que é a escolha entre a mochila (bag) ou o baú para o transporte das refeições.
Analisada a partir de seus impactos ergonômicos, regulatórios e sociais, o estudo revela as consequências da plataformização do trabalho para a saúde dos entregadores que utilizam motocicletas. A pesquisa chama atenção para os riscos invisíveis a que esses trabalhadores estão expostos e como decisões operacionais, aparentemente simples, estão entrelaçadas a dinâmicas mais amplas de desproteção, adoecimento e ausência de políticas voltadas à regulação do setor.
A pesquisa buscou entender os motivos para uso e dificuldades enfrentadas por entregadores ao utilizarem diferentes tipos de mochilas ou baús durante o trabalho. Para isso, analisaram vídeos e aplicaram questionários com perguntas abertas a motoboys e motogirls que atuam com entrega de refeições por meio de plataformas digitais. As entrevistas foram realizadas em Belém/PA, Belo Horizonte/MG, Curitiba/PR e Florianópolis/SC, cidades escolhidas por conveniência, já que nelas havia pesquisadores envolvidos no estudo ou que se dispuseram a colaborar com a aplicação dos questionários.
De acordo com o levantamento, o Brasil contava com cerca de 385 mil entregadores vinculados a empresas de plataformas digitais em 2022, sendo 97% homens, com idade média de 33 anos. A maior parte possui ensino médio completo e renda familiar inferior a seis salários-mínimos. O número de motociclistas no setor de alimentação aumentou em torno de 32 mil para aproximadamente 139 mil, com base em dados do Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, entre 2012 e 2022.
Contudo, os tecnologistas alertam que o crescimento do setor veio acompanhado de informalidade, jornadas extenuantes e queda nos níveis de proteção trabalhista e previdenciária. Segundo os dados analisados, os entregadores vinculados a plataformas recebem menos, trabalham mais e contribuem menos com a previdência do que aqueles fora desse modelo.
Mochilas que pesam mais do que aparentam
A bag, mochila grande usada para transportar alimentos, apesar de sua popularização, seu uso está longe de ser inofensivo. A pesquisa mostra que carregar peso excessivo nas costas em jornadas prolongadas está associado a dores musculoesqueléticas, especialmente lombalgia, e pode representar um risco à integridade física em caso de acidentes.
Embora normas técnicas recomendem o uso de baús fixos, e até convenções coletivas tenham proibido o transporte de cargas nas costas, a realidade vivida por muitos entregadores os empurra na direção oposta. Um dos casos relatados no estudo narra a experiência de um motoboy em Florianópolis que, mesmo após trocar a mochila por baú por sentir dores nas costas, foi forçado a voltar à bag após uma série de blitzes da polícia de trânsito, com medo de multas pela falta de licenciamento profissional.
“Pela interpretação recorrente das autoridades policiais, o uso do baú para serviço de entrega de mercadorias (motofrete) implica uma regularização do motoboy e da moto de acordo com a legislação brasileira. Entre outras coisas, a moto deve possuir a ‘placa vermelha’ indicativa de que é veículo de transporte. A regularização à essa legislação, ou à interpretação dada pelas autoridades, aparece nos vídeos e interações a eles como um fator que inibe o uso de baú”, explicam os tecnologistas.
Além disso, a falta de regulamentação específica sobre o uso das mochilas, que variam de cidade para cidade, cria um ambiente de insegurança jurídica para os trabalhadores. O estudo destaca que, apesar dos riscos, o uso da bag é hoje o padrão entre entregadores de plataformas, seja por conveniência, pressão externa ou ausência de alternativas viáveis.
Os motoboys escolhem entre bag e baú com base em preço, legislação, tipo de rua, variedade de entregas, uso pessoal da moto, conforto, segurança e integridade da refeição. A bag é preferida por baixo custo e manter a refeição intacta, enquanto o baú oferece mais conforto e segurança na pilotagem.
“A responsabilidade de manter a integridade das refeições no transporte até o cliente deve ser melhor distribuída entre as empresas-plataforma, os estabelecimentos que produzem e vendem as refeições, e os motoboys que realizam o transporte ao cliente. O tipo de embalagem usada para cada tipo de alimento, e a forma como ela é embalada pelo estabelecimento que vende a refeição é fundamental para manter a integridade da refeição no transporte, mantendo a integridade do produto apesar de trepidações”, informam os autores.
Plataformização e amadorização do trabalho
O artigo também debate como a dinâmica das plataformas digitais favorece o fenômeno chamado de amadorização de massa. Assim trabalhadores autônomos, sem vínculo formal, utilizam seus próprios instrumentos - motos, celulares, mochilas – e realizam tarefas sem garantias, regulação adequada ou suporte institucional.
Essa realidade colide com os princípios da SST, dificultando a aplicação de medidas preventivas e tornando mais frágeis as condições de segurança no trabalho. Nas palavras dos autores, “o uso da mochila, embora amplamente aceito, pode ser considerado um retrocesso do ponto de vista da saúde e segurança no trabalho”.
Propostas e caminhos
Ao final, o estudo defende que qualquer norma ou medida preventiva precisa considerar não apenas os critérios técnicos, mas também as percepções dos trabalhadores, os desafios da atividade e o contexto social em que estão inseridos. Com base nisso, os autores propõem que o uso da bag ou baú seja debatido de forma mais ampla, envolvendo os próprios entregadores na construção de soluções que equilibrem conforto, segurança e viabilidade prática.
Publicação
Artigo publicado na Revista Laborare, Ano VIII, nº 14, jan-jun/2025
Texto:
Débora Maria Santos
Imagem:
Figura do motoboy extraída do Freepik
Card produzido com o modelo do Canva