AMAZÔNIA

Dia Nacional de Prevenção ao Escalpelamento reforça segurança em pequenas embarcações

Especialistas destacam a importância da proteção dos eixos para evitar acidentes e o apoio às vítimas em comunidades ribeirinhas do Pará

Publicado em 27/08/2025 16:00Modificado há 9 meses
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Ilustração mostra duas mulheres com lenços na cabeça, um barco pequeno sobre o rio e o eixo do motor exposto. A cena representa o transporte de mulheres e crianças na Amazônia e alerta para o risco de escalpelamento pela falta de proteção no motor.

O escalpelamento, remoção brusca e acidental do couro cabeludo, é um dos acidentes mais graves registrados em pequenas embarcações da região amazônica. Ele costuma ocorrer durante a pesca artesanal ou no transporte diário de crianças e mulheres, quando os cabelos longos ficam presos nos eixos e nas partes móveis dos motores sem proteção. As consequências são devastadoras, além do couro cabeludo, as vítimas podem perder orelhas, sobrancelhas, pálpebras e até partes do rosto e do pescoço, resultando em deformidades permanentes e, em casos extremos, na morte.

Para dar visibilidade a esse problema de saúde pública que se repete há décadas, foi criado em 2010, o Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento, por meio da Lei nº 12.199. A data busca conscientizar a população sobre os riscos desse tipo de acidente e chamar atenção para a realidade das vítimas, que além do sofrimento físico, enfrentam ainda a exclusão social.

Fundacentro e a história da prevenção de acidente

A tecnologista da instituição, Doracy Moraes de Souza, reforça que a principal medida de prevenção aos acidentes por escalpelamento é a instalação de proteção no eixo das embarcações. Para ela, práticas como prender o cabelo, usar toucas ou chapéus são apenas paliativas e não substituem a solução efetiva, que é a proteção do equipamento.

Segundo Doracy, o debate sobre o tema ganhou força em 2007, com a criação de um Grupo de Trabalho Nacional e a elaboração de um Plano de Trabalho em parceria com a Defensoria Pública da União. No ano seguinte, a Fundacentro passou a integrar a Comissão Estadual de Enfrentamento aos Acidentes com Escalpelamento no Pará, contribuindo com a divulgação de informações preventivas voltadas a comunidades ribeirinhas, professores e profissionais de saúde dos municípios mais afetados. Em 2009, por exemplo, o pesquisador aposentado Roberto do Valle Giuliano participou em Belém de um seminário dedicado ao tema.

Ao longo dessa trajetória, a instituição reuniu registros importantes, como trabalhos acadêmicos, campanhas educativas realizadas em Belém, reportagens da mídia local e vídeos postados no YouTube. Essas iniciativas também foram incorporadas a eventos formativos, entre eles os seminários alusivos ao Dia da Mulher. A tecnologista destaca ainda que o apoio às vítimas é essencial, pois fortalece a prevenção e assegura direitos relacionados à educação, proteção social e trabalho.

“Enfatizamos a importância da instalação da cobertura do eixo do motor e do volante em pequenas embarcações para que os acidentes não ocorram”, frisa Moraes.

Semana contra o escalpelamento

Doracy Moraes foi convidada para falar sobre a atuação da Fundacentro na prevenção de acidentes de motor em embarcações no estado do Pará, no “I Simpósio de Prevenção ao Escalpelamento”, que ocorre no dia 27/08, no Ministério Público do Estado do Pará.

O evento, coordenado pelo promotor de Justiça do Ministério Público do Estado do Pará (MPE-PA), Nadilson Portilho Gomes, durante a semana de mobilização contra o escalpelamento, realizará ações de conscientização e prevenção sobre acidentes que atingem principalmente mulheres e meninas em embarcações da Amazônia, quando seus cabelos ficam presos nos eixos dos motores.

O objetivo é proporcionar serviços de cidadania à população e a discussão das questões relacionadas a prevenção ao escalpelamento, violência infanto juvenil, violência contra mulher e, sobretudo, melhorar a segurança do transporte aquaviário.

Portilho ressalta a importância do Projeto MP Cidadania, articulado pelo Centro de Apoio Operacional Cível e de Tutela Coletiva (CAO CPC) e parceiros, na promoção da cidadania e na prevenção ao escalpelamento no estado. “É missão do CAO CPC levar cidadania às pessoas. Quando se pensa em cidadania, isso deve incluir mulheres, especialmente porque estamos no mês do Agosto Lilás. E quando falamos em cidadania para mulheres, não podemos deixar de fora as vítimas de escalpelamento, que precisam de serviços específicos. Assim, o trabalho de prevenção de acidentes e de proporcionar serviços a essas meninas e mulheres contribuiu para melhorar suas vidas, dignidade e cidadania”, afirma.

Ele também destaca a relevância da parceria com a Fundacentro no enfrentamento ao problema e na construção de políticas públicas voltadas à prevenção. “É parceiro e ente fundamental! Não se pode elaborar política pública alguma sem que os envolvidos façam parte desse processo. A instituição tem a expertise para dar o apoio e a palavra final em muitas demandas e situações”, frisa.

Impactos psicológicos graves

De acordo com dados da Fundação Amazônica de Amparo e Estudos e Pesquisas – Fapespa, um estudo revela que 98% das vítimas de acidentes são mulheres. O tratamento é prolongado, envolve cirurgia plástica reconstrutiva e implante de cabelo, além de apoio psicológico.

Segundo a psicóloga da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará, Jureuda Guerra, os impactos psicológicos mais comuns nas vítimas de escalpelamento incluem estresse pós-traumático, com memórias recorrentes do acidente que afetam o sono e a qualidade de vida. Também são frequentes sintomas como ansiedade, fobias, baixa autoestima, sentimento de culpa e responsabilização.

Com mais de 12 anos de experiência no atendimento a vítimas, ela observa ainda que, especialmente em crianças, podem surgir dificuldades de atenção, hiperatividade, falta de concentração e hipersensibilidade local, comprometendo a memória. Embora não haja estudos sistematizados sobre esses efeitos, essas percepções têm sido registradas de forma empírica no acompanhamento psicológico.

A psicóloga ressalta que “o trauma se manifesta de maneiras diferentes conforme a idade. Em crianças, a responsabilidade costuma recair sobre toda a família, com questionamentos sobre porque a tampa foi retirada ou por que a criança passou perto do eixo, mas quase nunca se faz a pergunta central, que é porque o motor estava desprotegido. O mesmo ocorre com adolescentes e mulheres adultas, que também acabam responsabilizadas, enquanto a negligência de quem deixou o eixo descoberto raramente é questionada”.

Texto:

Débora Maria Santos

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Saúde e Vigilância Sanitária > Prevenção > Apoio e registro de ações
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