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Desgaste emocional de trabalhadores essenciais na pandemia da Covid-19 revela desvalorização e invisibilidade

Artigos publicados pela Revista Brasileira de Saúde Ocupacional investigam vivências de trabalhadores do serviço funerário e operadores de caixas de supermercado

Publicado em 12/08/2025 12:50
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Card artigos de pesquisa RBSO

Durante a pandemia da Covid-19, algumas categorias de trabalhadores consideradas essenciais seguiram desempenhando suas atividades de forma presencial. Apesar disso, muitas delas não receberam cuidado e valorização à altura do cenário, ao contrário, a invisibilidade, a desvalorização e a precarização da condição do trabalho foram destacas pela pandemia. Entre esses grupos, estão os trabalhadores do serviço funerário municipal paulistano e os operadores de caixa de supermercado.

O aprofundamento de vivências laborais repletas de estresse e frustrações levaram muitos desses trabalhadores à exaustão emocional. Isso levantou a discussão sobre a necessidade de se compreender as subjetividades dessas atividades, os diversos impactos na saúde e questões políticas envolvidas. O tema é trazido por dois artigos de pesquisa publicados pela Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO).

Discriminação, desvalorização e sentido do trabalho

Com recordes de óbitos e sepultamentos, a pandemia da Covid-19 agravou as já precarizadas condições de trabalho no serviço funerário municipal de São Paulo. A sobrecarga de trabalho destacou o acúmulo de funções e aumentou a exposição a estresse, a desvalorização social e a ausência de materiais de trabalho. A repercussão foi perda das identidades individual e coletiva e o sofrimento mental, conforme observa o artigo O trabalho duro e precarizado de trabalhadores(as) do serviço público funerário paulistano durante a pandemia de COVID-19.

Os relatos dos 16 entrevistados mostram que o sofrimento mental nesse contexto se relaciona a diferentes situações. Uma delas à natureza do trabalho de cuidado direcionado ao familiar enlutado, abalado pela necessidade de reduzir o contato com essas pessoas.

Outra situação se relaciona à discriminação. A profissão que já vinha carregada de invisibilidade e estigma social passou a impactar ainda mais as relações familiares e com amigos, que começaram a evitar o trabalhador por medo de contrair o vírus. O isolamento e a impossibilidade de compartilhar com a família as experiências de trabalho geram sofrimento mental. “Se, portanto, o trabalho deles(as) já era tido como “sujo”, a Covid-19 ressignificou essa ideia, atrelando a atividade a uma suposta maior exposição a uma doença pouco conhecida e potencialmente letal”, observam as autoras.

A desvalorização é também aspecto mencionado nas entrevistas e que repercutiu na saúde mental desses trabalhadores durante a pandemia. A intensificação do trabalho e o necessário afastamento de trabalhadores efetivos com mais de 60 anos e com comorbidades, aliados à não reposição do quadro de concursados, acelerou a terceirização. Nesse processo, os trabalhadores veem o saber desenvolvido ao longo dos anos se perder.

“Os participantes da pesquisa expressaram, majoritariamente, estar em uma situação na qual utilizam seu saber prático para formar os terceirizados, viabilizar o desenvolvimento das atividades, ao mesmo tempo que testemunham o fim de seu próprio trabalho”, destacam as autoras.

Esse desmonte do sentido do trabalho provoca sensação de derrota, de perda das referências e torna os trabalhadores mais expostos e vulneráveis ao desgaste e adoecimento.

Desgaste emocional e falta de reconhecimento

Outro grupo de trabalhadores considerado essencial durante a pandemia, os operadores de caixas de supermercado também vivenciaram tensões e frustrações que se agravaram e levaram à exaustão emocional decorrente do trabalho. O artigo Trabalhadoras essenciais abandonadas: psicodinâmica do trabalho e saúde mental de caixas de supermercado durante a pandemia de covid-19  relata os resultados de entrevistas com 12 trabalhadores e destaca a necessidade de políticas públicas de cuidado a esses trabalhadores.

Assim como no serviço funerário, a operação de caixa de supermercado é uma atividade socialmente desvalorizada, com baixa exigência de qualificação, precarizada e mal remunerada, deixando os trabalhadores vulneráveis. Ainda assim, foram obrigados a trabalhar presencialmente, envoltos no discurso do trabalho essencial, mesmo vendo colegas se contaminarem e até morrerem.

Os entrevistados relataram que a possibilidade de se contaminar gerava medo e crises de ansiedade, que se somavam ao desgaste emocional, estresse e cansaço extremo pela necessidade das horas extras para cobrir os colegas afastados por Covid-19.

Além da carga de gerir as próprias emoções, destacaram a necessidade de também compreender e lidar com as do outro em mais um esforço invisível aos olhos de gestores e clientes. A esse desgaste emocional ainda se junta à necessidade de lidar com o tratamento por vezes agressivo e humilhante recebido de clientes e gerentes, intensificando o sofrimento subjetivo.

Todo esse contexto que materializa a desvalorização e o não reconhecimento se agravou ao perceberam a falácia do discurso da essencialidade da atividade. Os trabalhadores relataram sentimento de abandono quando não tiveram prioridade na vacinação como alguns outros grupos linha de frente, o que trouxe sentimento de frustração e revolta.

A homogeneidade do discurso dos entrevistados revelou se tratar de uma problemática coletiva, ligada à organização do trabalho. “Algumas pessoas choram, estão entristecidas, outras adoecem, mas todas compartilharam cansaço, medo, submissão a atos violentos de clientes e não reconhecimento dos esforços, da dedicação”, sintetizam as autoras.

Nesse sentido, o artigo destaca a necessidade de dar voz a esses trabalhadores. Para isso, proporcionar espaços e encontros que permitam trocas de experiências e construções coletivas para compreenderem que se trata de uma questão política e social e não individual.

Saiba mais

Leia os artigos na íntegra:

O trabalho duro e precarizado de trabalhadores(as) do serviço público funerário paulistano durante a pandemia de COVID-19

Trabalhadoras essenciais abandonadas: psicodinâmica do trabalho e saúde mental de caixas de supermercado durante a pandemia de covid-19  

Leia os demais artigos do volume 49.

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Texto:

Karina Penariol Sanches

Imagem:

Criada por IA no banco de imagens Freepik

Categorias
Trabalho, Emprego e Previdência
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