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Silicose: Alternativas ao jateamento de areia
Evento na Fundacentro discute alternativas ao jateamento de areia após a publicação de portaria do Ministério do Trabalho proibindo a atividade em todo o país
Publicado em
22/03/2005 00h00
Atualizado em
17/08/2022 18h09
Por Fundacentro
Realizou-se na sexta-feira, 18 de março, no auditório do Centro Técnico Nacional da Fundacentro (SP), a oficina de trabalho Alternativas tecnológicas ao jateamento com areia. Este foi o primeiro evento sobre o tema desde a publicação da Portaria Nº 99 de 19.10.2004 que proíbe em todo o País o uso de areia seca ou úmida como abrasivo nos processos de trabalho de jateamento.
Organizada pela Fundacentro e pelos Ministérios do Trabalho e da Saúde, a oficina contou com a participação de técnicos e engenheiros de segurança do trabalho, pesquisadores, advogados, sindicalistas e representantes de empresas que fabricam ou utilizam equipamentos jateamento alternativos, entre outros.
A silicose é doença incurável causada pela inalação de micropartículas de sílica que ficam em suspensão no ar. Ocorre um acúmulo destas micropartículas nos pulmões e a conseqüente reação dos tecidos pulmonares. A doença provoca a perda de elasticidade do tecido pulmonar, dificultando a respiração e pode levar à morte em pouco tempo.
Segundo Eduardo Algranti, médico pneumologista da Fundacentro, a operação de jateamento abrasivo com areia, sílica livre cristalizada ou quartzo é considerada a atividade de maior risco de silicose, entre as inúmeras situações de exposição inalatória à sílica.
A exposição dos trabalhadores ocorre em atividades de mineração, marmoraria, cerâmica e vidros, metalurgia, construção civil, química, agricultura e indústria naval. A exposição do trabalhador é mais intensa e grave nos processos que utilizam o jateamento de areia como abrasivo.
São diversas as doenças que afetam os trabalhadores expostos à sílica: silicose aguda_ silicose crônica subaguda_ limitação crônica ao fluxo aéreo_ silicotuberculose_ doenças auto-imunes_ câncer de pulmão.
A oficina teve a finalidade de apresentar tecnologias alternativas ao jateamento de areia. Empresas de grande porte, que já utilizam operações de jateamento com outros materiais - como a unidade de Tubarão (ES) da Companhia Vale do Rio Doce e grandes estaleiros do Rio de Janeiro - apresentaram alternativas, como a escória de cobre e a água altamente pressurizada (até 40.000 psi), entre outras já empregadas desde antes da proibição da areia como abrasivo.
Entre as tecnologias alternativas apresentadas, revelou-se exposição mínima ou nenhuma a micropartículas de sílica. No caso do jateamento com água altamente pressurizada, levantou-se o problema da utilização de um recurso natural precioso – a água potável – em função de características técnicas dos equipamentos. Estas precisarão ser reestudadas para permitir a utilização de água de reuso.
Segundo Francisco Kulcsar Neto, pesquisador da Coordenadoria de Higiene do Trabalho da Fundacentro, essa troca de experiências representa importante ferramenta para ampliar o conhecimento sobre o assunto e avançar na proteção nos ambientes de trabalho.
“Nós precisamos dividir a informação para multiplicar a segurança e a saúde do trabalhador nas operações de jateamento abrasivo”, afirmou Kulcsar, ao final da oficina de trabalho. “Foi um resultado muito prolífico, com informações de alto nível técnico, que ajudaram a desenvolver e a firmar conceitos de segurança, saúde, meio ambiente e produção nos setores que utilizam o jateamento abrasivo.”
“A luta contra a silicose começa com os trabalhadores, e nós recuperamos 10 anos depois”, afirmou Fátima Sueli Ribeiro, pesquisadora do Instituto Nacional do Câncer do Ministério da Saúde (RJ), professora da Faculdade de Saúde Pública da UERJ, e co-organizadora do evento. “Essa recuperação mostra que, mais do que controlar uma doença, esse processo está desencadeando uma cultura de trabalho saudável, que é muito maior do que não adoecer.”
Na avaliação de Eduardo Algranti, o evento superou a expectativa. “Pensei que haveria mais questionamentos em relação à Portaria do Ministério do Trabalho”, comentou. “Já existe um alerta entre usuários e fabricantes de equipamentos com relação ao problema e uma disponibilidade para que, efetivamente, se utilizem substitutos.”
“Acho que a Portaria deve ser assumida pela maioria das empresas bem constituídas, e que possivelmente, numa segunda fase, teremos de lidar com pequenas empresas e com o trabalho informal, onde esse tipo de controle pode ser mais problemático”, acrescentou Algranti.
Os textos das apresentações da oficina de trabalho estarão em breve disponíveis na área sobre sílica e silicose do portal da Fundacentro.