PRÊMIO CA´PES DE TESE

Ciência que nasce no Nordeste ganha reconhecimento nacional no Prêmio CAPES de Tese

Dia do Nordestino, celebrado em 8 de outubro, é oportunidade para destacar a força da pesquisa científica produzida nas universidades e instituições de pesquisa da região

Publicado em 09/10/2026 14:24Modificado há 11 horas
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Homem estudando
Uma das fontes de pesquisa do historiador baiano Bruno Moreira foi o acervo de Milton Santos no IEB-USP. Foto: Acervo Pessoal

Celebrado em 8 de outubro, o Dia do Nordestino é uma data que convida a olhar para a diversidade, a história, a cultura e as contribuições de uma região que reúne cerca de 55 milhões de habitantes e nove estados. Mas o Nordeste também se destaca por uma produção que, muitas vezes, permanece distante dos holofotes: a ciência.

Um retrato dessa potência aparece na edição 2026 do Prêmio CAPES de Tese. Entre os 50 trabalhos vencedores da premiação, oito estão vinculados a instituições de ensino e pesquisa do Nordeste. Na categoria Menção Honrosa, outras dez teses desenvolvidas na região foram reconhecidas. Ao todo, são 18 trabalhos nordestinos entre as duas categorias.

A presença nordestina aparece em diferentes campos do conhecimento e em instituições de seis estados na premiação principal — Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia, Maranhão e Sergipe — e de quatro estados na Menção Honrosa — Bahia, Pernambuco, Sergipe e Maranhão. O destaque ficou por conta da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com cinco representantes, quatro na categoria Menção Honrosa e uma na premiação oficial.

Os oito representantes vinculados a instituições nordestinas na categoria principal:

Bianca Beatriz Torres de Assis — Universidade Federal da Paraíba (UFPB);

Jamylle Lucas Diniz — Universidade Federal do Ceará (UFC);

Larissa Silva Queiroz — Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN);

Bruno de Oliveira Moreira — Universidade Federal da Bahia (UFBA);

Renan da Ponte Castelo Branco — Universidade Estadual do Ceará (UECE);

Mateus Santana do Rosário — Fiocruz Bahia/Instituto Gonçalo Moniz;

Silas Alves Costa — Universidade Federal do Maranhão (UFMA);

Jean Jesus Santos — Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Professor de História do Instituto Federal da Bahia (IFBA), Campus Santo Amaro, Bruno de Oliveira Moreira é o vencedor na área de História com a tese "O exílio da memória: Milton Santos e a ditadura civil-militar". O trabalho foi defendido no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob orientação da Profa. Dra. Lucileide Cardoso. Pesquisa se encontra disponível no Repositório Institucional da UFBA.

“O reconhecimento com o prêmio me estimula a seguir pesquisando, reforça, para mim, o desejo de percorrer novos passos científicos, interessado especialmente na história política do Brasil”, agradece, exaltando a força da pesquisa acadêmica no Nordeste “Nesse território a produção científica, a inovação e as publicações acadêmicas têm sido cotidianas e de qualidade”, destaca o professor Bruno Moreira.

Objeto de pesquisa da tese do historiador, o geógrafo e cientista baiano Milton Santos (1926 - 2001), reconhecido como um dos intelectuais mais renomados do país no século 20, que esteve, nos anos 70, entre os principais nomes responsáveis pela renovação da geografia no Brasil. O ponto de partida para o estudo começou quando ele descobriu textos de Santos sobre a Revolução Cubana publicados no jornal A Tarde em 1960.

Esse material serviu de motivação para as perseguições políticas que o levaram ao ex´ílio após o Golpe de 1964. A pesquisa de Bruno Moreira tentou entender os mecanismos de repressão utilizados pela ditadura contra intelectuais civis.

Entre os acervos vasculhados pelo historiador estão o acervo pessoal de Milton Santos, disponível no arquivo do Institutos de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), documentos do período da ditadura do “Memórias Reveladas” do Arquivo Nacional, registros de universidades francesas nas quais o intelectual esteve no período do exílio, além do acervo do Judiciário Baiano.

“Visitar esse passado recente é um exercício que contribui para que a sociedade compreenda os impactos sociais de modelos autoritários. A ditadura instaurada em 1964 interditou projetos, alcançou de maneira repressiva intelectuais públicos, levando muitos deles à prisão e ao exílio, tal como foi o caso de Milton Santos”, reflete. “Entender como a ditadura incidiu sobre as instituições, e como muitas delas produziram ajustes conformativos ao regime, nos ajuda a compreender as repercussões na vida das pessoas”, acrescenta.

Os dez vinculados a instituições nordestinas na categoria Menção Honrosa:

Jorge Luiz Alencar Sampaio — UFBA;

José Diego Marques de Lima — Universidade Federal de Pernambuco (UFPE);

Gabriela Alves Ferreira — Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC);

Nívea Maria Santos Souto Maior — UFPE;

Marimeire Morais da Conceição — UFBA;

Caroline Silva Araujo — UFBA;

Rafael Gomes Nóbrega Paiva — UFPE;

Renata Dias Ribeiro — Universidade Federal de Sergipe (UFS);

Giovanna de Carli Lopes — UFBA;

Beatriz da Silva Batista — Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde também realizou sua graduação e seu mestrado, Renata Dias Ribeiro, nascida em Valença (BA), é uma das representantes do Nordeste vencedora na categoria Menção Honrosa do Prêmio CAPES de Tese. Para a pesquisadora, esse reconhecimento também prestigia uma forma de fazer filosofia que “exige manter os olhos voltados para as contradições do nosso próprio tempo”.

Mulher sorrindo
Nascida em Valença (BA), a professora Renata Dias é vencedora na categoria Menção Honrosa do Prêmio CAPES de Tese. Foto: Acervo Pessoal

“Representa o reconhecimento de uma trajetória de pesquisa construída ao longo de muitos anos na Universidade Federal de Sergipe. Embora o trabalho acadêmico e filosófico muitas vezes pareça solitário, a pesquisa é uma construção coletiva, feita de encontros, diálogos e trocas”, avalia. “Representar o Nordeste é, nesse sentido, reafirmar a qualidade da pesquisa produzida em nossas universidades e o pensamento que se constrói a partir delas”, diz.

Intitulada “A Psicologia das Massas: Uma Leitura Interseccional”, a tese de Renata, orientada pelo professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (PPGF-UFS), Antônio José Pereira Filho, investiga como questões de raça, gênero e outros marcadores sociais atravessam a formação e o comportamento dos indivíduos inseridos em grupos ou multidões.

Ao todo, foram quase dez anos de estudo. A tese, segundo Renata, parte dos estudos sobre as multidões desenvolvidos no final do século XIX, especialmente por autores como Gustave Le Bon e Gabriel Tarde, e acompanha a posterior apropriação desse debate por Sigmund Freud e por pensadores da Teoria Crítica.

“Esse objeto foi se transformando comigo”, conta a professora. “A originalidade da tese está em usar a interseccionalidade para refazer as perguntas sobre as massas e mostrar que os recortes sociais não desaparecem quando o indivíduo se integra a um grupo. Eles continuam determinando o lugar e o tratamento desses sujeitos dentro das massas”, observa.

Uma ciência conectada às características da região

Mais do que revelar o desempenho de instituições específicas, os resultados evidenciam a diversidade e a relevância da ciência produzida no Nordeste, conectada aos desafios e às potencialidades de seu território — da saúde pública às mudanças climáticas, dos recursos hídricos e da sustentabilidade às energias renováveis, à educação e às tecnologias.

Essa vocação ganha novo impulso com a Rede de Pesquisa e Desenvolvimento da Região Nordeste, lançada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES/MEC) em 2026, com previsão de até R$ 114,8 milhões para fortalecer a pós-graduação, a pesquisa, a inovação e o desenvolvimento regional.

A iniciativa busca ampliar a produção científica e tecnológica, interiorizar a pós-graduação, formar e fixar pesquisadores e fortalecer a cooperação entre instituições dos nove estados nordestinos.

Ao priorizar áreas como sustentabilidade, saúde, educação, energias renováveis, mudanças climáticas, segurança alimentar e hídrica, oceanos e tecnologias de fronteira, a Rede reforça uma ciência produzida no Nordeste, conectada às características da região e capaz de contribuir para seu desenvolvimento.

Para a professora Renata Dias, fortalecer a presença da pesquisa científica em diferentes campos do conhecimento no Nordeste é fundamental para ampliar a autonomia da região na produção de conhecimento e garantir que suas especificidades sejam consideradas na definição das prioridades científicas do país. “Produzir conhecimento no Nordeste significa partir dos nossos problemas, experiências e demandas. Fortalecer a pesquisa na região é ampliar as condições para que possamos definir nossas próprias questões de pesquisa e garantir o reconhecimento da produção científica nordestina”, afirma.

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) é uma Fundação vinculada ao Ministério da Educação (MEC). A reprodução das notícias é autorizada desde que contenha a assinatura ASCOM/CAPES.

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