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Fotografias de observadores da natureza revelam novas interações entre beija-flores e plantas no Pantanal
Pelo menos 18 espécies de beija-flores têm ocorrência confirmada no Pantanal, mas as plantas que visitam ainda são pouco documentadas. Fotografias compartilhadas por observadores da natureza ajudaram a preencher parte dessa lacuna, acrescentando 93 interações entre espécies de aves e plantas, ainda não documentadas na literatura científica consultada, ao conhecimento sobre a região.
As descobertas integram o artigo “Citizen-science data can fill the Eltonian shortfall in hummingbird–plant interactions: lessons from the Brazilian Pantanal”, publicado no periódico Journal of Tropical Ecology, em 2026. O trabalho reuniu informações de dez publicações científicas e de fotografias disponíveis nas plataformas WikiAves, eBird e iNaturalist.
Ao todo, foram examinadas 2.054 fotografias de beija-flores, das quais 194 registravam visitas a flores. A combinação dessas imagens com os dados da literatura permitiu reunir 145 interações distintas, envolvendo 15 espécies de beija-flores e 77 espécies de plantas.
Embora sejam frequentemente associados a flores tubulares e vermelhas, os beija-flores também visitam flores abertas, com diferentes cores, tamanhos e morfologias. Essa variedade pode ser observada nas fotografias reunidas, que ampliaram o conhecimento sobre os recursos florais explorados pelas aves no Pantanal.
Entre as espécies presentes nos registros, o beija-flor-dourado (Hylocharis chrysura) e Chionomesa fimbriata tiveram 16 interações cada que ainda não constavam na literatura consultada. Também se destacaram Phaethornis subochraceus, com 15 novas interações, Polytmus guainumbi, com dez, e Phaethornis nattereri, com nove.
O bico-reto-azul (Heliomaster furcifer) é um dos exemplos mais expressivos dessa contribuição. Embora sua ocorrência no Pantanal já fosse conhecida, não havia informações sobre as plantas visitadas pela espécie nas publicações científicas analisadas. As fotografias permitiram identificar oito interações florais, incluindo uma visita a Psittacanthus cordatus, planta da família Loranthaceae.

É certo que os beija-flores visitam flores em busca de néctar, uma importante fonte de energia para essas aves. Durante a alimentação, podem entrar em contato com as estruturas reprodutivas das plantas e transportar grãos de pólen entre flores, contribuindo para a reprodução vegetal. Mas nem toda visita resulta em polinização, o que requer outros estudos. Esses registros são importantes porque conhecer a ocorrência de uma espécie em determinada região não significa conhecer as plantas das quais ela obtém alimento. As fotografias ajudam a preencher essa diferença, acrescentando informações sobre as relações estabelecidas entre as aves e a vegetação local.
As fotografias também permitem observar o outro lado dessas interações: a diversidade de beija-flores que visita uma mesma espécie de planta. A Inga vera, por exemplo, está entre as plantas nativas mais visitadas. Suas flores apresentam numerosos estames longos, que lhes conferem uma aparência delicada e semelhante à de um pincel. Nas fotografias, foram registradas visitas de sete espécies de beija-flores às suas flores.

- Chionomesa fimbriata em Inga vera. Crédito: Dina Lúcia Lucas Bessa (WikiAves WA212071)
Pertencente à família Fabaceae, a Inga vera integra um dos grupos vegetais mais representativos entre os recursos florais documentados no Pantanal. A família também apresentou a maior riqueza de espécies entre as plantas identificadas nas fotografias, com 13 espécies.
Outras plantas presentes nos registros incluem Ceiba speciosa, da família Malvaceae, e Vochysia divergens, da família Vochysiaceae. Ao todo, 46 espécies vegetais utilizadas pelos beija-flores não apareciam nas publicações científicas consultadas, assim como 12 famílias botânicas.
As fotografias compartilhadas por observadores da natureza também ampliaram o período de informações disponíveis sobre essas interações. Enquanto as observações de campo das publicações científicas analisadas foram realizadas entre 1997 e 2016, os registros das plataformas de ciência cidadã se estenderam até 2023.
Essa contribuição é especialmente relevante no Pantanal, onde a extensão territorial e as mudanças sazonais na paisagem dificultam o acompanhamento contínuo das relações entre espécies. Ao reunir observações feitas em diferentes lugares e momentos, a ciência cidadã complementa os levantamentos científicos e ajuda a preencher lacunas no conhecimento sobre a biodiversidade da região.
Referência científica
ZANATA, Thais B.; PIACENTINI, Vítor Q.; ZEFERINI, Caroline Y. H.; ROSA, Leidy Anne R. A. da; PAULO, Letícia C.; KOCH, Ana Kelly; RIBEIRO, Ricardo S.; GUARALDO, André de Camargo; SZABO, Judit K. Citizen-science data can fill the Eltonian shortfall in hummingbird–plant interactions: lessons from the Brazilian Pantanal. Journal of Tropical Ecology, v. 42, e31, p. 1–9, 2026.
Disponível em: https://doi.org/10.1017/S0266467426100662