Profissionais de saúde formados no Brasil fortalecem a saúde em Angola

Lançado em 2024, o Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde Brasil-Angola já se consolidou como uma das principais iniciativas de cooperação técnica Sul-Sul entre os dois países. Em apenas dois anos, mais de 800 profissionais angolanos participaram ou participam de formações em instituições públicas brasileiras, enquanto mais de mil profissionais também foram capacitados em Angola.
Durante missão realizada em Luanda, foram visitados hospitais e centros de saúde, e realizadas entrevistas a estes profissionais que realizaram parte de sua formação no Brasil e hoje atuam em diferentes especialidades da rede de saúde angolana.
Os depoimentos reunidos mostram como o conhecimento compartilhado pelas instituições brasileiras vem fortalecendo os serviços de saúde, qualificando profissionais e contribuindo para ampliar a qualidade da assistência prestada à população angolana.
Dr. André Salomão Pumas Pedra
Médico Anatomopatologista – Chefe do Departamento de Anatomia Patológica do Instituto Angolano de Controlo do Câncer (IACC)
Médico especialista em Anatomia Patológica, André Salomão Pumas Pedra realizou sua residência médica no Instituto Nacional de Câncer (INCA), no Rio de Janeiro, por meio da cooperação entre o INCA e o Instituto Angolano de Controlo do Câncer (IACC), iniciativa que deu origem ao atual Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde Brasil-Angola.
A Anatomia Patológica é uma das especialidades mais importantes no diagnóstico do câncer. O anatomopatologista analisa tecidos e células coletados por biópsias ou cirurgias para identificar a presença de tumores, determinar suas características e fornecer informações essenciais para que oncologistas e cirurgiões definam o tratamento mais adequado. Em muitos casos, é o diagnóstico emitido pelo patologista que orienta toda a conduta terapêutica do paciente.
Entrevista
ABC: Conte um pouco sobre sua trajetória profissional e sua atuação no Instituto Angolano de Controlo do Câncer.
Dr. André Salomão Pumas Pedra: Sou médico especialista em Anatomia Patológica e atualmente exerço a chefia do Departamento de Anatomia Patológica do Instituto Angolano de Controle do Câncer. Retornei a Angola em 2021, após concluir minha residência no INCA. Dois meses depois de chegar, assumi a chefia do serviço, pois o único patologista que atuava no Instituto retornou a Cuba, seu país de origem. Foi um grande desafio assumir sozinho um serviço tão importante, mas a formação recebida no Brasil me deu segurança para desempenhar essa responsabilidade.
ABC: A formação no INCA continuou fazendo diferença mesmo após o seu retorno?
Dr. André Salomão Pumas Pedra: Sem dúvida. Além da excelente formação técnica, mantive uma relação muito próxima com meus professores. Sempre que surgia um caso mais complexo, fotografava as lâminas e enviava para eles. Recebia orientações, discutíamos hipóteses diagnósticas e isso me deu muita confiança nos primeiros anos de trabalho. Até hoje mantenho esse vínculo, o que demonstra o compromisso dos professores brasileiros com a formação dos profissionais. Também essa grande vantagem de, durante a formação, mostrar dedicação, respeito, consideração. E aí, se eles virem que você cumpriu com esse pressuposto, eles te acompanham até na tua vida pós-acadêmica.
ABC: O senhor fez parte das primeiras turmas dessa cooperação entre o INCA e Angola. Como vê a expansão desse modelo para o Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde Brasil-Angola?
Dr. André Salomão Pumas Pedra: Fico muito feliz. Nós fizemos parte da fase inicial, fomos as sementes dessa cooperação e vivemos muitos desafios de adaptação. Fui da segunda turma. Acompanhávamos os médicos que fizeram parte da primeira turma, que foi de 2009 a 2012, e eles sempre tiveram aquela boa estima, tiveram boa dedicação, sempre exerceram a sua função com esmero, com aquele exemplo de medicina bem praticada na realidade.
Não sei se em todo o Brasil, mas o INCA tem uma particularidade: todo estrangeiro, quando vai para um outro país para se formar, tem receio de ser tratado de forma diferenciada. Mas o INCA não mostrou esse lado, todos do INCA me trataram igual, na minha turma eu era um estudante angolano, com sete colegas brasileiros. Mas eles me acolheram como uma família, me ajudaram.
Ver que hoje essa experiência se transformou em um programa nacional, envolvendo diversas instituições brasileiras e angolas, com diferentes especialidades, é motivo de orgulho. Angola precisa formar muitos profissionais e essa expansão representa um enorme avanço para o sistema de saúde.
ABC: Qual é a importância da Anatomia Patológica no diagnóstico do câncer?
Dr. André Salomão Pumas Pedra: Costumo dizer que o patologista é um detetive. Reunimos todas as informações clínicas e laboratoriais para emitir o diagnóstico definitivo. A partir do nosso laudo, o oncologista define o tratamento mais adequado. É uma especialidade de enorme responsabilidade, porque muitas decisões terapêuticas dependem diretamente da precisão do diagnóstico anatomopatológico.
ABC: Houve conhecimentos adquiridos no Brasil que o senhor ainda busca implementar em Angola?
Dr. André Salomão Pumas Pedra: Sim. Hoje realizamos o diagnóstico histopatológico convencional, mas ainda estamos desenvolvendo áreas complementares muito importantes, como a imuno-histoquímica e a biologia molecular. Essas tecnologias permitem diagnósticos mais precisos e ajudam na definição do tratamento. Temos parcerias que nos apoiam. Mas com algumas limitações. Então, seria bom se nós tivéssemos o controle dessas áreas. Porque nós aprendemos e queremos materializar. Tivemos contato com essas técnicas durante a residência no INCA e trabalhamos para que elas também estejam plenamente disponíveis em Angola.
ABC: Como o senhor avalia a situação do câncer em Angola atualmente?
Dr. André Salomão Pumas Pedra: O número de diagnósticos tem aumentado de forma consistente. Isso pode estar relacionado tanto ao crescimento da incidência quanto ao fato de mais pacientes chegarem aos serviços especializados. Desde quando eu retornei do Brasil até a data atual, as estatísticas só aumentam. Cada ano que passa a tendência é subir. Não sei se a população está sendo mais esclarecida, mais orientada em lugares apropriados, porque havia casos perdidos que não chegavam até o tratamento e tinham outro desfecho. Há uma tendência de subida considerável nos casos de neoplasias malignas. O pico está mesmo a verticalizar.
Felizmente, Angola também vem ampliando sua capacidade de resposta, com novos centros de referência e expansão do tratamento oncológico para outras unidades além do IACC. O diagnóstico está mais precoce. A neoplasia da mama tem sido tratada em outros centros, em Lubango, por exemplo, e é a maioria de casos de câncer no país atualmente.
ABC: Que conselho daria aos profissionais angolanos que terão a oportunidade de participar do Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde Brasil-Angola?
Dr. André Salomão Pumas Pedra: Aproveitem cada momento. O INCA oferece excelentes professores, grande volume de casos e uma formação de altíssimo nível. O sucesso depende muito do comprometimento de cada profissional de saúde. Quem se dedica retorna ao país preparado para fazer a diferença. Até hoje mantenho contato com meus professores, que continuam colaborando quando surge alguma dúvida mais complexa.
ABC: Gostaria de deixar uma mensagem final?
Dr. André Salomão Pumas Pedra: Espero que essa cooperação entre Angola e Brasil continue crescendo. O país ainda precisa formar muitos profissionais de saúde para atender às necessidades da população, que é nosso grande objetivo. Esse programa representa uma oportunidade extraordinária para fortalecer o sistema de saúde angolano e melhorar a qualidade da assistência prestada aos pacientes. Por isso essa parceria existe.