PROJETO DE HISTÓRIA ORAL

Projeto de História Oral do INMA entrevista Celso Perota, referência da Arqueologia no Espírito Santo

Na visita ao Arquivo de História da Ciência do INMA, professor aposentado da UFES aproveitou para analisar itens do acervo

Publicado em 16/06/2026 16:23
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Imagem mostra três pessoas em uma sala de arquivo e pesquisa, observando materiais arqueológicos dispostos sobre uma mesa
Perota examinou parte do acervo arqueológico coletado por Augusto Ruschi no início da década de 1950

O arqueólogo Celso Perota visitou o Arquivo de História da Ciência do Instituto Nacional da Mata Atlântica (AHC/INMA) para conceder um depoimento ao projeto de História Oral, dedicado a entrevistar pessoas que conviveram com o cientista Augusto Ruschi (1915-1986). 

Durante a entrevista, Perota examinou parte do acervo arqueológico coletado por Augusto Ruschi no início da década de 1950, incluindo dezenas de artefatos em pedra, principalmente machados, e cacos de cerâmica datados de 1.200 anos atrás, aproximadamente. Ruschi produziu até um mapa arqueológico de Santa Teresa, contendo indicações dos locais onde ele coletou o material, com destaque para o norte do município, onde atualmente se encontra São Roque do Canaã. 

Perota, que é paranaense, recordou que, ao chegar em Vitória em 1968, veio à Santa Teresa para conhecer Augusto Ruschi porque ele já era uma referência. Por meio dele, teve acesso aos sítios arqueológicos da região. Sítios que Ruschi trabalhou para que fossem preservados como “amostra do que foi uma aldeia indígena, na terra do Vale do Canaan, no Estado do Espírito Santo, habitada durante tantos séculos pelos Botocudos”, como descreveu na edição nº 1 do Boletim do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, série Antropologia, publicada em 1953. Ruschi acreditava que os objetos fossem vestígios de povos indígenas genericamente chamados de “Botocudos”, mas Perota explicou:

“Todos os grupos indígenas que viveram no Espírito Santo tinham botoque e tembetá [adornos usados pelos indígenas nos lábios e orelhas]. Então, a partir de um determinado momento, todo mundo era Botocudo. Você não tinha essa perspectiva da Etnologia, depois da Arqueologia, que você vai separar os grupos. O Botocudo, a vida dele, era muito mais ligada a artefatos, casa, tudo de madeira, então, pouca coisa ficou de uma aldeia botocuda … porque o aldeamento botocudo é só com material vegetal”.  Segundo Perota, o material custodiado pelo INMA foi produzido pelo povo Tupiniquim.

A historiadora e curadora do AHC/INMA, Alyne Gonçalves, explicou a importância dessa entrevista para o acervo de História Oral que a equipe vem construindo. “O professor Perota é uma referência importantíssima para a Arqueologia do Espírito Santo, tendo liderado pesquisas pioneiras nessa área. Como ele foi um amigo muito próximo de Augusto Ruschi, tem muito a nos contar sobre sua relação de trabalho e amizade, bem como sobre a contribuição científica e política de Ruschi em relação aos povos indígenas, sobre a qual fala-se pouco quando o assunto é sua obra”.

Perota recordou que desenvolveu uma relação de amizade com o naturalista. “Ele sempre foi uma pessoa muito boa, nunca escondeu nada, sempre quis saber o que eu estava fazendo, então eu nunca tive conflito com ele”. 

O arqueólogo se emocionou ao recordar o encontro que teve com Ruschi antes de sua morte. “Quando eu visitei ele no hospital, ele simplesmente disse: Olha, eu vou morrer daqui a pouco. Quero que você continue fazendo o trabalho que você está fazendo”. 

Além da entrevista e da avaliação dos objetos arqueológicos, que também contou com a participação do servidor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Espírito Santo, Yuri Batalha, a visita rendeu outros dois desdobramentos promissores. Um deles é a intenção  de desenvolver uma cartilha de educação patrimonial sobre esses objetos com  a consultoria de Perota - um trabalho que vai ao encontro do interesse do AHC/INMA em ampliar o acesso público a esse acervo. 

O segundo desdobramento foi a participação do INMA no evento organizado pelo IPHAN em Vitória, com o objetivo de aproximar as instituições capixabas de guarda e pesquisa de bens arqueológicos e discutir formas de ampliar o acesso do público a esses bens culturais. Uma das possibilidades é a criação de uma rede estadual de instituições, voltada à cooperação e à difusão do patrimônio arqueológico.  

“Acredito ser fundamental o trabalho em rede entre  instituições que cuidam do patrimônio histórico e arqueológico brasileiro, uma vez que há grande carência de investimentos nessa área. Então, para que a sociedade não perca parte de sua memória e identidade, é preciso nos unirmos para ampliar o alcance desse trabalho”, finaliza Alyne.

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Ciência e Tecnologia
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