REGISTRO INÉDITO

Primeiro registro de atropelamento de papagaio-chauá alerta para nova ameaça à ave em risco de extinção

Ave foi atropelada próximo a corredor florestal no Espírito Santo que abriga algumas das últimas populações da espécie

Publicado em 22/05/2026 14:35
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Papagaio-chauá morto no acostamento de rodovia
Registro ocorreu em 4 de novembro de 2025, na BR-101, no município de Sooretama

Um registro inédito acendeu um alerta para a conservação da biodiversidade brasileira: pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) documentaram, pela primeira vez, o atropelamento de um papagaio-chauá (Amazona rhodocorytha), uma espécie endêmica da Mata Atlântica, classificada como vulnerável de extinção.

“O papagaio-chauá enfrenta pressões significativas, como a perda contínua de habitat e a captura ilegal. Nesse contexto, mesmo eventos isolados de mortalidade podem ter implicações relevantes em nível populacional”, ressalta a bióloga e pesquisadora do INMA, Flávia Guimarães Chaves.

O registro foi publicado nesta sexta-feira (22/05) na revista internacional especializada em conservação Oryx e representa uma nova ameaça à espécie.

“Até então, colisões com veículos não eram consideradas uma ameaça relevante para os papagaios-chauá. A espécie habita principalmente a parte mais alta das florestas - como as copas das árvores (como documentamos em 2025 com os Ipês) - e tende a evitar as bordas, o que, historicamente, reduz sua exposição ao risco de atropelamentos”, explica o biólogo e pesquisador do INMA, Ricardo Ribeiro.

Os cientistas avaliam que mudanças recentes na paisagem vêm alterando o comportamento das aves.

“A perda de habitat, associada à fragmentação florestal, tem forçado indivíduos a se aproximarem das bordas da mata, aumentando a probabilidade de colisões com o tráfego rodoviário. Esse risco pode ser ainda maior durante o período reprodutivo, entre os meses de setembro e novembro, quando a espécie pode explorar áreas marginais com maior frequência”, avalia Flávia.

O registro ocorreu em 4 de novembro de 2025, na BR-101, no município de Sooretama, no Espírito Santo, em um trecho estratégico que conecta duas das principais áreas protegidas para a espécie: a Reserva Biológica de Sooretama e a Reserva Natural Vale. De acordo com os pesquisadores, esse corredor florestal abriga algumas das últimas populações viáveis do chauá, ou seja, algumas das últimas populações com condições de superar o risco de extinção. O corredor está localizado na zona de amortecimento das unidades de conservação. As zonas de amortecimento correspondem a uma faixa de aproximadamente 3 km que circunda os limites geográficos das Unidades de Conservação,  uma espécie de faixa de proteção que busca reduzir o impacto das atividades humanas sobre as áreas protegidas. Os pesquisadores avaliam que faltam investimentos de infraestrutura rodoviária no local para a proteção da biodiversidade.

“Apesar da relevância ecológica da região, o trecho da BR-101 onde ocorreu o registro não apresenta estruturas eficazes de redução de velocidade nem sinalização adequada para alertar os motoristas sobre a presença de fauna silvestre. Redutores de velocidade e monitoramento sistemático são necessários tanto dentro das Unidades de Conservação quanto fora delas, nas zonas de amortecimento”, enfatiza Ricardo .

“A integração entre planejamento de infraestrutura e conservação da biodiversidade é fundamental para garantir a manutenção desses corredores ecológicos e evitar que ameaças emergentes comprometam ainda mais a sobrevivência de uma das espécies mais emblemáticas da Mata Atlântica”, completa Flávia.

Os pesquisadores também destacam que atropelamentos de aves ainda são subnotificados no Brasil. “A maior parte dos registros é concentrada em mamíferos, o que pode mascarar a real magnitude do problema para espécies ameaçadas. Assim, o caso documentado não apenas amplia o conhecimento sobre os riscos enfrentados pelo chauá, mas também funciona como um alerta para a necessidade de incorporar a mortalidade por atropelamento nas estratégias de conservação”, finalizam os pesquisadores.

Link do artigo: “First recorded roadkill of Amazona rhodocorytha (Psittacidae) raises concern about a new threat to the species” (https://www.cambridge.org/core/journals/oryx/article/first-recorded-roadkill-of-amazona-rhodocorytha-psittacidae-raises-concern-about-a-new-threat-to-the-species/1D96D310877E596C690604EEE4FC9DB5)

Leia também: “Monitoring of Amazona rhodocorytha (Psittacidae) reveals new population of Handroanthus riodocensis (Bignoniaceae) in the Rio Doce basin, Brazil” (https://www.cambridge.org/core/journals/oryx/article/monitoring-of-amazona-rhodocorytha-psittacidae-reveals-new-population-of-handroanthus-riodocensis-bignoniaceae-in-the-rio-doce-basin-brazil/62AA153F44206EE57D8DC2764A3D25A5

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