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COLEÇÃO DE OVOS E NINHOS
Pesquisadores da Universidade de Brasília avaliam coleção de ovos e ninhos do Museu de Biologia Professor Mello Leitão
Três pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) visitaram o Museu de Biologia Professor Mello Leitão entre os dias 9 e 12 de março. Eles avaliaram os ninhos, ovos e peles de aves que integram a Coleção Zoológica do MBML. O material foi coletado entre as décadas de 40 e 80, mas a maior parte dos ovos e ninhos estava sem o nome do coletor.
“O Espírito Santo era uma região em que tínhamos poucos registros em nosso banco de dados e viemos ao MBML, a principal instituição do Estado onde há material arquivado, para conseguir o máximo de informação sobre a reprodução das aves. Esse material vai complementar outros dados que temos de outras regiões do Brasil,” explica Miguel Ângelo Marini, professor do Departamento de Zoologia da UnB.
A visita ao Museu faz parte de uma investigação sobre a reprodução das aves nas Américas do Sul, Central e Caribe que começou há mais de dez anos. O professor Miguel Ângelo Marini já visitou 40 museus de história natural e acumula mais de 57 mil registros sobre a reprodução das aves. O principal objetivo do trabalho é compreender como as aves estão se adaptando às mudanças climáticas.
“Temos vários problemas ambientais acontecendo - como o desmatamento, as mudanças climáticas e a poluição. Ao comparar dados históricos com informações mais atuais, vemos como as aves estão se adaptando às novas condições ambientais. Com o aquecimento da Terra, temos algumas regiões ficando mais secas, outras mais chuvosas e isso muda as condições de reprodução das aves. É muito difícil para as aves saberem qual é o momento bom de reproduzir. Nós queremos demonstrar isso com dados científicos”, comenta o professor.
Entre as principais informações identificadas pela investigação, estão o número de ovos, a data da coleta, o nome do coletor e a localização. Esses dados são confrontados com a distribuição geográfica de cada espécie. Um trabalho minucioso de investigação que ainda verifica anotações de Augusto Ruschi.
“Aqui a gente consegue dados reais sobre o número de ovos, o tamanho dos ovos e a época em que elas estão reproduzindo. Tudo isso ajuda a entender como as aves estão respondendo às mudanças climáticas”, explica o professor.
“A gente tenta entender um pouco mais sobre a Ecologia, sobre como conservar a espécie, o que é importante para a espécie se reproduzir e sobreviver na natureza. Se a gente entender como a espécie funciona, a gente entende como preservar aquela espécie”, comenta o estudante de Ciências Biológicas da UnB, Alexandre Campos.
“A gente brinca que é um trabalho de Sherlock Holmes (risos), encontra uma pista como o número no catálogo, mas precisa olhar a pele ou o ninho pra encontrar de fato as correspondências", comenta a mestranda em Ecologia da UnB, Márcia Dias.
Documentos localizados no Arquivo de História da Ciência do INMA também ajudaram a identificar exemplares. “Nós encontramos dois ovos de Seriema aqui na coleção e encontramos a carta da pessoa que coletou e doou esse material. Foi uma carta da década de 70, endereçada para Augusto Ruschi. Essa é uma outra maneira de identificar a origem do material analisado”, revela o professor.
Durante quatro dias, os pesquisadores avaliaram cerca de 200 ninhadas. Infelizmente, a maior parte da coleção foi afetada pelas enchentes que ocorreram nos últimos anos. Com isso, etiquetas acabaram se desprendendo dos exemplares da coleção, o que torna difícil e onerosa a identificação do material.
“Receber a equipe do professor Marini foi excelente porque a coleção de ninhos e ovos precisava ser avaliada. Temos um livro de registros de ovos e não conseguimos fazer correspondência dele com o material científico guardado nos armários. Agora, vamos acondicionar adequadamente e organizar os materiais confiáveis para pesquisa e conseguir separar quais podem ser destinados para outras atividades, como as exposições e eventos de divulgação científica, que também são objetivos do Museu”, avalia a curadora da Coleção Zoológica de Vertebrados do MBML, Thais Condez.
A boa notícia é que os pesquisadores conseguiram identificar cerca de 30 por cento da coleção. Um dos registros mais completos encontrados foi de uma Marianinha-amarela (Capsiempis flaveola). Os pesquisadores localizaram o ninho com dois ovos dentro, o exemplar da ave e ainda o registro no livro de campo. Todas as etiquetas estavam completas, possibilitando comprovar a correspondência entre os registros.
“Essa é a situação ideal, mas, ao mesmo tempo, a mais rara de todas. Porque você tem a pele preservada do adulto que estava naquele ninho, em geral a fêmea, você tem também o ninho e os ovos. Aqui o pesquisador tem toda a informação que precisa e, no mesmo conjunto, elas se complementam”, explica Marini.
Um dos registros que mais instigou os pesquisadores foi a informação de que a coleção possui três ninhos de Tangarazinho (Ilicura militaris), alguns desde 1940. Apesar de ser uma ave comum na Mata Atlântica, os ninhos e ovos da espécie são desconhecidos pela ciência.
“Nenhum cientista registrou os ninhos e ovos dessa espécie até hoje. Não existe nenhuma informação, apenas algumas fotografias de longe. Infelizmente, esses ninhos ainda não foram encontrados. Se a gente localizar esses ninhos, vamos resgatar uma informação rara. Seria muito importante disponibilizar para o mundo científico esses registros importantes do passado”, avalia Marini.

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“A construção de um ninho é um processo criativo e complexo. Você consegue, muitas vezes, separar as espécies pela arquitetura do ninho. As espécies usam diferentes materiais, como gravetos, folhas, fungos, pelos de animais, até peles de cobras. Existem diferentes nós de amarração e alguns ninhos possuem camadas, em que cada camada tem um material diferente em uma espessura diferente e em uma sequência muito específica. Então os ninhos têm muitas informações sobre a espécie. Por exemplo, se você tem uma espécie que precisa de capim - e você tem uma área que foi queimada - ela não vai conseguir reproduzir porque a área foi queimada, falta a matéria-prima para a construção do ninho. Ela vai ter que esperar, talvez o ano seguinte, para achar o capim ou vai ter que voar muito longe para achar o que procura. Então a vegetação onde as aves vivem afeta o local em que elas se reproduzem”, explica Marini.
Outro ponto de alerta é o lixo encontrado no ninho das aves. Na coleção do MBML, os pesquisadores encontraram um ninho da década de 80 com materiais como fio de lã e plástico em sua composição.
“A gente vê muitas aves usando lixo para a construção dos ninhos. Elas coletam coisas absurdas. Eu já vi barbante, plástico, papel, arame, papel higiênico. Já usaram fios nas cores vermelha e azul. Em estudo que fiz em Brasília, vimos que ninhos que têm lixo são mais predados, pois ficam mais visíveis aos predadores. Outro exemplo que já encontramos foram ninhos com fios de cobre, material brilhante e que esquenta. Então, o descarte inadequado do lixo pode estar prejudicando as aves”, finaliza o professor.