AVALIAÇÕES DE IMPACTO AMBIENTAL

Pesquisadores brasileiros alertam para a importância da inclusão de fungos em avaliações de impacto ambiental

Artigo publicado nesta terça-feira (23/06) na revista internacional Nature destaca que os fungos sustentam processos ecológicos essenciais para os ecossistemas

Publicado em 24/06/2026 08:20
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Fotografia em close de um cogumelo da espécie Amanita viscidolutea, vista de cima. O chapéu apresenta coloração amarelo-vivo e superfície brilhante, com formato circular e uma leve depressão no centro, onde há acúmulo de água.
Amanita viscidolutea, espécie rara de cogumelo nativo do Brasil, encontrado em áreas costeiras da Mata Atlântica. Foto: I.G. Baseia (Reprodução http://servicos.jbrj.gov.br/flora/search/Amanita_viscidolutea)

Um artigo publicado nesta terça-feira (23/06) na Nature, a principal revista científica internacional sobre Ciências da Natureza, alerta para uma lacuna ainda pouco conhecida nos processos de conservação da biodiversidade: a ausência dos fungos nas Avaliações de Impacto Ambiental (AIA) dos processos de licenciamento ambiental e programas de monitoramento que avaliam impactos de obras, atividades produtivas e mudanças no uso da terra. 

“Os fungos sustentam processos ecológicos essenciais, como decomposição da matéria orgânica, ciclagem de nutrientes, simbioses com plantas, formação dos solos e recuperação de ecossistemas. Apesar disso, continuam ignorados em avaliações de risco de extinção, políticas de conservação e no licenciamento ambiental”, destaca o pesquisador do INMA, Ricardo Ribeiro, um dos autores do estudo.

O alerta dos pesquisadores ocorre logo após a publicação da primeira lista nacional de fungos ameaçados do Brasil, divulgada em 1º de junho pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. A lista reconhece 24 espécies ameaçadas de extinção, sendo 21 classificadas como Vulneráveis e três como Em Perigo. 

“Embora represente um marco para a conservação em um país megadiverso, esse número corresponde a apenas cerca de 0,3% da diversidade de fungos conhecida no Brasil”, ressalta Ribeiro. 

Entre as espécies ameaçadas incluídas na lista nacional, está a Lactifluus marielleae, nome científico que faz homenagem à política e ativista brasileira Marielle Franco. A espécie ocorre nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina e está classificada como Em Perigo. 

“A nova lista brasileira deve ir além do reconhecimento formal das espécies ameaçadas. Ela precisa gerar mudanças práticas na forma como os impactos ambientais são avaliados. Fungos ameaçados devem ser incorporados aos estudos ambientais, especialmente em áreas afetadas por perda de habitat, infraestrutura, mineração, agricultura, silvicultura e outras atividades que possam alterar habitats e interações ecológicas”, ressalta a pesquisadora do INMA, Flávia Chaves, que também participa do estudo.

Os autores destacam que a lacuna é ainda mais evidente quando observada na escala da Mata Atlântica, um dos biomas mais diversos e ameaçados do mundo. O Brasil possui mais de 8,4 mil espécies de fungos conhecidas, das quais cerca de 3,4 mil ocorrem na Mata Atlântica. No Espírito Santo, há pelo menos 105 espécies documentadas, número que provavelmente ainda subestima a diversidade real da funga capixaba. Só no Herbário MBML do INMA há 290 registros de fungos.

O artigo “Do not leave fungi out of impact assessments” (Não deixe os fungos de fora da Avaliação de Impacto Ambiental) também tem a participação de Douglas de Moraes Couceiro, da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária (Embrapa) e Carlos Augusto Vidigal Fraga Jr., da Secretaria de Educação do Espírito Santo e integrante do Projeto Funga Capixaba, iniciativa que têm contribuído para ampliar o conhecimento sobre fungos e liquens no estado.

“A inclusão da funga no licenciamento ambiental exige protocolos mínimos de amostragem, participação de especialistas em micologia, dados abertos sobre a ocorrência das espécies e medidas de mitigação desenhadas também para fungos, e não apenas para plantas e animais”, destaca Flávia.

“A conservação permanecerá incompleta enquanto organismos fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas continuarem invisíveis nos processos que autorizam impactos ambientais. Não é possível avaliar adequadamente os impactos sobre a biodiversidade deixando os fungos fora do processo”, finaliza Ribeiro.

Link do Artigo: https://www.nature.com/articles/d41586-026-01972-0

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