Diversidade de formigas fortalece funções ecossistêmicas nas montanhas da Mata Atlântica
Artigo publicado nesta quarta-feira (22/07) na revista internacional Journal of Biogeography mostra que a dispersão de sementes e a predação de insetos são mais intensas em altitudes intermediárias e podem ser afetadas pelas mudanças climáticas

As formigas desempenham funções importantes para os ecossistemas, como remover e dispersar sementes, predar outros animais, revolver o solo e participar da ciclagem de nutrientes. Um estudo - publicado nesta quarta-feira (22/07) na revista internacional Journal of Biogeography – avaliou, especificamente, como a dispersão de sementes e a predação de insetos variam ao longo de diferentes altitudes na Mata Atlântica.
O trabalho foi desenvolvido em dez unidades de conservação do Sudeste do Brasil, principalmente, na Serra do Mar e áreas próximas. Essas unidades de conservação abrangem uma variação de altitude de pouco mais de mil metros. A pesquisa integra a tese de doutorado de Mariana Rabelo, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da Universidade Federal de Lavras, Minas Gerais.
“Esse amplo gradiente permitiu comparar comunidades submetidas a diferentes condições de temperatura, precipitação e produtividade da vegetação. Com isso, conseguimos avaliar não apenas quais espécies estavam presentes, mas também como as funções realizadas por elas mudavam ao longo das montanhas. Como este é o primeiro estudo com formigas na maior parte das áreas amostradas, os resultados também fornecem dados inéditos sobre a estrutura das comunidades e suas funções, ampliando o conhecimento dos ecossistemas da Mata Atlântica”, destaca a pesquisadora.
O estudo identificou 58 espécies e mostra que a diversidade de formigas está relacionada à intensidade das funções ecossistêmicas. Locais com mais espécies apresentaram maior dispersão de sementes e maior predação de insetos.
“Essas funções são realizadas durante a busca por alimento e contribuem para o equilíbrio e o funcionamento dos ecossistemas. Ao remover e transportar sementes, as formigas podem contribuir para a dispersão das plantas e para a regeneração da vegetação. Ao predar outros animais, especialmente insetos, elas também ajudam a controlar suas populações. Isso mostra que conservar a biodiversidade não significa proteger apenas uma lista de espécies, mas também os processos ecológicos que elas realizam e que mantêm o funcionamento e equilíbrio dos ecossistemas”, explica o pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica, Chaim Lasmar, que liderou o estudo.
Os pesquisadores também identificaram que são em altitudes intermediárias, próximo de 300 metros, que a diversidade de espécies e a intensidade das funções ecossistêmicas atingem seus valores máximos. Acima das altitudes intermediárias, verificou-se menor número de espécies e menor intensidade nas atividades de dispersão de sementes e predação de insetos.
História evolutiva e vulnerabilidade
Além de identificar as espécies, os pesquisadores compararam o grau de parentesco evolutivo entre as formigas encontradas em cada local. Nas maiores altitudes, apesar de serem encontradas menos espécies, as formigas estavam mais distantes de seus parentes evolutivos, evidenciando linhagens evolutivas distintas.
“Essa combinação pode tornar as funções ecossistêmicas das regiões montanhosas mais vulneráveis. Com menos espécies capazes de desempenhar essas atividades, o desaparecimento de apenas uma delas pode representar a perda de uma linhagem evolutiva singular e reduzir a capacidade da comunidade de manter determinada função”, aponta Chaim Lasmar.
Efeitos do clima
O estudo também identificou a influência da temperatura nas funções desempenhadas pelas formigas. A dispersão de sementes e a predação foram mais intensas nos locais mais quentes.
“Como as formigas dependem da temperatura do ambiente para regular sua atividade, o calor pode aumentar sua movimentação e a busca por alimento, desde que não ultrapasse os limites tolerados por cada espécie”, explica Chaim.
Os pesquisadores ressaltam que o resultado não significa que o aquecimento global será benéfico para esses insetos.
“A pesquisa mostrou que a diversidade evolutiva das formigas é menor em ambientes mais quentes e com maior variação de temperatura ao longo do ano. Nos ambientes mais quentes e secos, as espécies também tendem a ser evolutivamente mais próximas entre si. O aumento da temperatura pode intensificar a atividade das formigas no curto prazo. Porém, as mudanças climáticas também podem tornar o clima mais irregular, aumentar as variações de temperatura ao longo do ano e provocar períodos mais secos. Essas condições podem reduzir a diversidade evolutiva das formigas responsáveis por essas funções e diminuir a capacidade dos ecossistemas de resistir e se recuperar de mudanças”, enfatiza Chaim.
Diante das mudanças climáticas, os pesquisadores ressaltam que preservar os ecossistemas em diferentes altitudes é ainda mais importante para conservar essas comunidades e os processos ecológicos dos quais elas participam.
Link para a publicação: Ant-mediated ecosystem functions along a tropical elevational gradient