MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Disponibilidade de água exerce maior influência na sobrevivência das plantas do que o aumento da temperatura

Estudo publicado na revista Nature Communications avaliou a resiliência das espécies vegetais no contexto das mudanças climáticas

Publicado em 22/07/2026 08:52
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Floresta úmida vista de baixo para cima, com palmeiras de folhas longas e árvores altas cobertas por musgo.
Uma das espécies estudadas pelos pesquisadores foi a palmeira-juçara (Euterpe edulis). Foto: Gabriel Santos

Por que algumas populações de plantas são mais resilientes do que outras no cenário de mudanças climáticas? Para responder a essa pergunta, aparentemente simples, pesquisadores do Departamento de Biologia da Universidade de Oxford e do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) analisaram dados sobre crescimento, reprodução e sobrevivência de 121 populações de plantas de 78 espécies, distribuídas em diversas partes do mundo.  As informações — provenientes de estudos realizados ao longo de sete décadas — foram obtidas no banco de dados de acesso aberto COMPADRE Plant Matrix Database (www.compadre-db.org), organizado pelo professor Roberto Salguero-Gómez, do Departamento de Biologia da Universidade de Oxford.

“Ao reunir informações de populações vegetais de diferentes partes do mundo, o uso do banco de dados COMPADRE permite identificar padrões ecológicos amplos que seriam impossíveis de detectar por meio de estudos de caso isolados”, pontua Gabriel Santos, um dos autores do estudo que atuou como pesquisador do INMA entre 2021 e 2023.

O estudo revelou que — para as plantas — permanecer viva de um ano para o outro é mais importante do que crescer ou se reproduzir. E o fator ambiental principal para a sobrevivência das plantas não é a temperatura, mas o grau de aridez, isto é, a variação na disponibilidade de água ao longo do tempo.

“Curiosamente, características do ciclo de vida das espécies estudadas —  como crescimento rápido e vida curta ou crescimento lento e vida longa — mostraram-se fracos indicadores da resiliência das plantas. O mesmo ocorreu com a estratégia reprodutiva, incluindo espécies que se reproduzem apenas uma vez ao longo da vida ou diversas vezes durante vários anos. Esses resultados foram inesperados, pois essas características são amplamente utilizadas para prever como as populações vegetais responderão às mudanças climáticas”, explica Gabriel. 
"Durante décadas, os ecólogos tentaram prever como as populações respondem às mudanças ambientais com base nas características moldadas por sua história evolutiva. Nossos resultados mostram que a resiliência não é determinada apenas pelos atributos das espécies. Em vez disso, ela emerge do equilíbrio constante entre sobrevivência, crescimento e reprodução em um ambiente em permanente transformação", destaca o pesquisador Rob Salguero-Gómez. 

“Isso nos oferece uma nova e poderosa maneira de identificar quais populações são mais vulneráveis à instabilidade climática e onde os esforços de conservação devem ser concentrados”, avalia Gabriel.

Uma das espécies estudadas pelos pesquisadores foi a palmeira-juçara (Euterpe edulis), espécie endêmica da Mata Atlântica que se encontra ameaçada de extinção. 

“Estudos recentes já alertavam que as mudanças climáticas e as alterações nos regimes de chuvas serão um problema crítico para a juçara. Esse cenário tende a se intensificar ainda mais pela ação humana direta. Por exemplo, os estudos feitos por Mendes, Gaudino e Portella (2022) mostram que, embora a retirada dos frutos não afete a população, a extração do palmito leva à morte do indivíduo, dizimando rapidamente as populações — um exemplo claro na Mata Atlântica de que a sobrevivência da planta é mais importante do que sua reprodução. Diante dessa vulnerabilidade climática somada à extração ilegal do palmito, pensar em estratégias de conservação mais eficientes torna-se ainda mais urgente”, finaliza Gabriel.

Link do artigo https://doi.org/10.1038/s41467-026-73720-x

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Ciência e Tecnologia
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