Simpósio sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica discute os ecossistemas aquáticos
Evento atenta para as conexões essenciais entre água, territórios e sociobiodiversidade

Cerca de 200 pessoas entre professores, pesquisadores, estudantes, gestores ambientais, expositores e representantes da comunidade participam até amanhã (21/08) do XIV Simpósio sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica (Simbioma). O evento acontece no Museu de Biologia Professor Mello Leitão em Santa Teresa, ES, e é promovido pela Associação de Amigos do Museu (Sambio) em conjunto com o Instituto Nacional da Mata Atlântica. “Ecossistemas aquáticos da Mata Atlântica: da integridade dos rios à sustentabilidade dos territórios” é o tema do evento deste ano.
O papel das matas ciliares para os ecossistemas aquáticos
Na palestra de abertura do Simbioma, o professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA), Paulo dos Santos Pompeu, falou sobre o papel das matas ciliares para a conservação da fauna de riachos da Mata Atlântica e destacou que as matas ciliares ajudam a prevenir o assoreamento, evitam a contaminação, fornecem alimentos e abrigo para os peixes. Pompeu alertou para a relação essencial entre os ambientes aquáticos e a conservação.
“O riacho - não só pelas matas ciliares, mas por tudo o que acontece na bacia de drenagem - sintetiza tudo o que está acontecendo do ponto de vista da conservação, de atividades humanas. Se a gente tiver um ambiente equilibrado, uma cidade sustentável, isso tudo vai refletir, de alguma maneira, na qualidade desse ambiente aquático, na qualidade da água e dos animais que estão vivendo nesses riachos. O destino dos nossos rios, de alguma forma, anuncia o nosso. Se a gente quiser se manter de uma maneira sustentável no nosso planeta por muito tempo, sem dúvida, a gente tem que ter um olhar diferenciado sobre nossos rios e córregos”.
Um exemplo apresentado pelo professor foi o monitoramento da Bacia do Rio Doce, atingida pelo rompimento da barragem de Fundão em 2015. Pompeu destacou que a pesquisa revela boas e más notícias.
“A notícia boa é que o Rio é resiliente e a recuperação está em andamento, principalmente pelo fato de existirem afluentes que não foram afetados pelo rompimento. Independente das ações que estão ocorrendo para reverter alguns dos impactos, o Rio tem capacidade de recuperação e isso já acontece aos poucos: primeiro em regiões mais distantes ao desastre, já as regiões mais próximas ainda estão mais impactadas. O Rio não está morto e começa a se recuperar. A notícia ruim é que a abundância de espécies não nativas aumentou muito e isso vai ser um desafio adicional. Mesmo que a gente consiga recuperar as matas do Rio Doce e melhorar a qualidade da água, em algum momento, a gente vai ter que encontrar formas para reduzir essas espécies não nativas e aumentar a chance das espécies nativas retornarem à condições muito melhores do que elas estavam antes do rompimento”.
Pompeu também abordou a importância dos ecossistemas aquáticos no contexto das mudanças climáticas.
“Existem regiões brasileiras que tendem a ter menos chuva no futuro, como o nordeste brasileiro, enquanto que no sul do Brasil esses eventos extremos tendem a ser cada vez mais frequentes. Por outro lado, a conservação das matas ciliares é uma forma de regularizar as vazões, de manter maiores vazões no rio, garantir segurança hídrica para as populações e, ao mesmo tempo, prevenir tragédias. Ter uma mata bem preservada no entorno do rio evita desmoronamentos. A manutenção e conservação dos ambientes aquáticos é uma das estratégias para tentar evitar que grandes tragédias ocorram diante desse cenário”.
Bagrinho-de-kaetés: a espécie-símbolo do Simbioma 2026
A pesquisadora do INMA, Juliana Paulo da Silva Novelli, ministrou a palestra sobre a espécie-símbolo do Simbioma 2026, o bagrinho-de-kaetés (Trichogenes claviger). A espécie endêmica de riachos da Mata Atlântica do sul do Espírito Santo se encontra criticamente ameaçada de extinção.
“A floresta em torno de todo o curso de água garante uma temperatura ideal, porque é uma espécie de águas muito frias e muito limpas. Então a floresta em pé e bem preservada é uma garantia para a espécie continuar sobrevivendo. Ela está aí há milhares de anos, mas está muito restrita”, explicou Juliana.
A pesquisadora comentou a satisfação com o destaque que a espécie ganhou a partir do evento.
“Até o evento essa era uma espécie quase desconhecida pelo público em geral e, inclusive, pela área científica. Ter o bagrinho-de-kaetés como símbolo do evento, além de proteger a espécie, dá visibilidade aos ambientes aquáticos e a toda a biodiversidade. É um alerta de que esses ambientes também precisam ser observados, também precisam ser estudados e que tudo está interligado. Se não houver uma floresta sadia, os rios também não vão estar e vice-versa”.
Rios, peixes e pessoas na Mata Atlântica
A professora Luísa Sarmento Soares fez a palestra magna do Simbioma. Luísa destacou a importância da interação dos pesquisadores com as comunidades locais.
“Você tem que dar a devolutiva para quem vive no território. Quem é o verdadeiro guardião da biodiversidade? É quem vive no território. Nós temos que envolver as pessoas da comunidade. Quando você envolve, você passa a ter guardiões o tempo todo. Eles vivem ali, então vão estar sempre protegendo. Sem a população local a gente não vai ter sucesso nos objetivos de conservação”.
A professora trouxe o exemplo de um trabalho desenvolvido na Organização Não-Governamental “Instituto Nossos Riachos”, em Niterói, Rio de Janeiro.
“Nós estamos recuperando a mata ciliar de um riacho urbano desde 2019. A gente viu uma área degradada, com capim alto e lixo, se transformar em uma floresta. Hoje a gente colhe plantas para fazer chá, frutas para comer, as pessoas vão passear, porque é um lugar bonito e agradável. Cada um de nós pode fazer a transformação. Como no Simbioma a gente tem muitos estudantes, a nossa proposta é inspirá-los a fazer um trabalho integrando a vida humana com o mundo natural,” finalizou a professora.
O Simbioma termina nesta sexta-feira (21/08). Além de palestras, a programação conta com painéis, minicursos, mesas-redondas, apresentação de trabalhos científicos, concursos e atividades de integração.
“Eu acho incrível. É minha primeira vez no evento. Eventos como esse dão a oportunidade de mostrar nosso trabalho, mas também conhecer muita coisa. O tema é muito importante e muito atual. Estou aprendendo muita coisa”, disse a estudante de Biologia Elisa Magno, da UFES, campus São Mateus.
“Eu sou aqui do estado, cresci aqui no estado e conhecer pesquisadores de outras regiões é incrível porque a gente já pensa em redes de colaboradores, em outros contatos. Além da gente conhecer como os ambientes aquáticos são importantes para outras regiões. Conhecer novas linhas de pesquisa também é muito bom”, afirmou o estudante de Biologia Luan Nascimento de Souza, da UFES, Campus Goiabeiras.