“Impressão digital” dos tamanduás-bandeira está nas marcas da pelagem

Estudo cria referência visual para diferenciar indivíduos a partir de fotografias e abre caminho para o uso de inteligência artificial

Publicado em 24/08/2026 16:26
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Foto de tamanduá-bandeira
As listras brancas do dorso variam em espessura, curvatura, distância e forma de convergência, enquanto as marcas do cotovelo e do “bracelete” apresentam diferenças de tamanho, formato e contraste

Um catálogo inédito e estruturado das variações da pelagem do tamanduá-bandeira foi publicado nesta quarta-feira (19), na revista científica Mammal Research, criando uma referência visual para pesquisadores que acompanham a espécie na natureza. O trabalho mostra como diferentes combinações de marcas da pelagem podem funcionar como uma espécie de “impressão digital”, ajudando a distinguir um animal de outro. O catálogo sistematiza características como as listras dorsais, manchas nos cotovelos e o chamado “bracelete” das patas dianteiras e pode tornar mais consistente a identificação de indivíduos em registros de armadilhas fotográficas.

Os pesquisadores analisaram 553 registros de tamanduás-bandeira obtidos por armadilhas fotográficas no Pantanal e no Cerrado. Após cerca de 120 horas de análise, 36 imagens que atendiam aos critérios de qualidade foram selecionadas para compor o catálogo. O estudo é assinado por Gabriel Favero Massocato, do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) e Houston Zoo; Alessandra Bertassoni, do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), ICAS e Universidade Federal de Goiás (UFG); Vitor Adorno, da UFG; e Arnaud L.J. Desbiez, do ICAS e da Royal Zoological Society of Scotland (RZSS).

O catálogo organiza a diversidade de padrões da espécie em diferentes características diagnósticas e auxiliares. As listras brancas do dorso variam em espessura, curvatura, distância e forma de convergência, enquanto as marcas do cotovelo e do “bracelete” apresentam diferenças de tamanho, formato e contraste. Características do pulso, do pé e da crista também podem auxiliar na diferenciação. “Trabalhamos com imagens obtidas em condições muito diferentes, inclusive durante o dia e à noite, e percebemos como é importante observar uma combinação de características da pelagem ao mesmo tempo. Uma única marca pode ser semelhante entre dois animais, mas a combinação de diferentes padrões fornece muito mais informação para diferenciá-los”, explica a pesquisadora Alessandra Bertassoni.

Estudos anteriores já haviam demonstrado que tamanduás-bandeira podem ser identificados individualmente por características da pelagem. O avanço agora é organizar a variação dessas marcas em uma referência visual estruturada, facilitando sua interpretação e tornando a identificação mais consistente e replicável. “O catálogo reúne essas características e mostra como diferentes padrões podem ser combinados para tornar a identificação mais consistente, inclusive quando a qualidade das imagens não é ideal. A identificação individual é importante para estudos sobre tamanho e dinâmica das populações e uso do espaço, contribuindo para o monitoramento e a conservação do tamanduá-bandeira, espécie classificada como Vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN)”, destaca Alessandra Bertassoni, pesquisadora do INMA.

O trabalho também abre caminho para o desenvolvimento de ferramentas automatizadas de reconhecimento. Bases de imagens organizadas e padronizadas podem contribuir para o treinamento de sistemas de inteligência artificial capazes de auxiliar pesquisadores na identificação individual de animais em grandes conjuntos de fotografias, como as coletadas por armadilhas fotográficas. A integração entre o conhecimento de especialistas e ferramentas de IA é apontada pelos autores como um dos próximos passos para ampliar o monitoramento ecológico da espécie. A abordagem também poderá ser explorada em outros mamíferos com padrões de pelagem sutis ou pouco contrastantes, como tamanduás-mirins, antas e onças-pardas.

Artigo: Enhancing individual identification of giant anteaters using natural pelage markings
Revista: Mammal Research
Autores: Gabriel Favero Massocato, Alessandra Bertassoni, Vitor Adorno e Arnaud L.J. Desbiez
Acesso ao artigo:https://link.springer.com/article/10.1007/s13364-026-00891-9

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Ciência e Tecnologia
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