BIODIVERSIDADE

Escondida entre as rochas, nova espécie de antúrio é descoberta na Serra do Padre Ângelo, em Minas Gerais

Mesmo após mais de uma década de pesquisas e dezenas de espécies descobertas, montanhas do médio rio Doce continuam revelando uma biodiversidade ainda desconhecida pela ciência

Publicado em 29/09/2026 15:05
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Detalhe da espécie Anthurium occultum
Anthurium occultum possui distribuição conhecida extremamente restrita e foi classificada como Criticamente em Perigo de extinção

Uma nova espécie de antúrio acaba de ser descrita para a Serra do Padre Ângelo, no leste de Minas Gerais. Cientificamente batizada de Anthurium occultum, a planta é conhecida apenas dessa região e se soma à longa lista de novidades científicas encontradas nas montanhas do médio rio Doce nos últimos anos.

A descrição foi feita pelos botânicos Rodrigo Theófilo Valadares, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e Paulo Gonella, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), em estudo publicado no início de setembro na revista científica Phytotaxa.

O nome occultum, que significa “oculto” ou “escondido” em latim, faz referência ao hábito discreto da planta: ela cresce principalmente em fendas nas rochas, enquanto suas flores permanecem parcialmente encobertas pelas folhas. 

“É uma planta que faz jus ao próprio nome em vários sentidos. Mesmo em uma área que vem sendo intensamente estudada nos últimos anos, ela permaneceu escondida entre as rochas e ainda não havia sido reconhecida formalmente pela ciência. Isso mostra o quanto ainda temos para descobrir nesses ambientes”, explica Valadares.

Montanhas que surpreendem a ciência

A Serra do Padre Ângelo começou a despertar maior interesse científico há pouco mais de uma década. Desde então, sucessivas expedições têm revelado uma flora e uma fauna excepcionais, com espécies de distribuição muito restrita e algumas conhecidas exclusivamente dessas montanhas. O local é hoje reconhecido como um dos enclaves mais singulares de campos rupestres associados à Mata Atlântica.

Mais de 40 espécies de plantas já foram descritas nas montanhas do médio rio Doce nos últimos anos. Nesse contexto, encontrar um novo antúrio mesmo após diversos levantamentos de campo mostra que o conhecimento sobre a diversidade local ainda está longe de ser completo.

“Depois de tantos anos de trabalho de campo e de tantas espécies novas já descritas para a Serra do Padre Ângelo e montanhas vizinhas, seria razoável imaginar que grandes novidades começariam a se esgotar. O que estamos vendo vai em sentido contrário. Ainda encontramos espécies que estavam literalmente escondidas diante dos nossos olhos. Isso mostra que a biodiversidade da região continua subestimada e que ainda temos muito trabalho pela frente”, afirma Gonella.

A nova descrição também expõe um desafio recorrente para a conservação: algumas espécies chegam ao conhecimento científico quando os ambientes onde vivem já estão submetidos a diferentes pressões.

Nova para a ciência e já ameaçada 

Anthurium occultum possui distribuição conhecida extremamente restrita. Suas populações estão sujeitas a impactos como incêndios, presença de gado, espécies invasoras, abertura de acessos e visitação sem planejamento. Diante desse cenário, os pesquisadores propõem que a planta seja classificada como Criticamente em Perigo de extinção, de acordo com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

“Essas ameaças refletem um problema mais amplo na Serra do Padre Ângelo. Apesar de sua extraordinária riqueza biológica e de seu papel importante na provisão de água em uma área marcada por desastres ambientais, a Serra sofre com desmatamento, incêndios recorrentes, expansão de pastagens e cultivos, espécies invasoras e extrativismo”, alerta Gonella.

A proteção desse patrimônio natural avançou em 2025 com a criação de dois Parques Naturais Municipais em Conselheiro Pena, abrangendo áreas da Serra do Padre Ângelo e da Serra do Pinhão. As novas unidades representam um reconhecimento da importância ambiental dessas montanhas, mas os pesquisadores ressaltam que sua efetividade depende da implantação de instrumentos como planos de manejo, conselhos gestores, fiscalização e ações permanentes de prevenção a incêndios e controle de espécies invasoras.

Outra preocupação é que ambientes considerados importantes para a conservação da biodiversidade ainda permanecem fora das unidades existentes. Por isso, os autores defendem uma estratégia mais abrangente, com a formação de um mosaico de áreas protegidas capaz de conectar as unidades já criadas e incorporar outros ambientes relevantes, entre eles nascentes, florestas e áreas do entorno.

A descrição de Anthurium occultum acrescenta mais uma peça a um cenário que vem se tornando evidente a cada nova expedição: mesmo após anos de investigação, as montanhas do médio rio Doce continuam guardando espécies desconhecidas pela ciência. Preservar esses ambientes significa, portanto, proteger não apenas as espécies já registradas, mas também uma biodiversidade que a ciência ainda nem teve a oportunidade de conhecer.


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