ANSN testa resposta do setor nuclear a incidentes cibernéticos em cenários inéditos
Guardião Cibernético 8.0 reúne instituições e empresas em simulações voltadas à prevenção, à coordenação e à tomada de decisão diante de situações de crise.

Um ataque cibernético pode produzir efeitos que ultrapassam os sistemas digitais e atingir atividades essenciais do setor nuclear. Testar a capacidade de prevenção, resposta e atuação coordenada diante dessas situações é um dos principais objetivos da participação da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) no Exercício Guardião Cibernético 8.0, realizado de 21 a 25 de setembro, em Brasília (DF).
Nesta edição, todos os cenários destinados ao setor nuclear foram inéditos ou reformulados. Também foram adotadas novas dinâmicas de simulação, com maior interação entre os participantes e foco na avaliação de procedimentos, fluxos de decisão e capacidade de resposta.
Segundo Rafael Faria, inspetor da ANSN em Angra dos Reis e responsável pela organização do exercício no setor nuclear, a proposta é colocar as instituições diante de situações capazes de revelar, na prática, seu grau de preparação.
“É uma oportunidade para testar se as organizações estão preparadas para lidar com um ataque cibernético, se possuem procedimentos adequados e como reagem diante de um incidente”, afirma.
Para a ANSN, esse tipo de treinamento é especialmente relevante porque uma ocorrência cibernética pode afetar sistemas, processos e atividades sensíveis.
"Embora a principal responsabilidade da Autoridade seja assegurar a proteção radiológica e a segurança nuclear, um incidente também pode comprometer a continuidade das operações. Não desejamos que nenhum dos regulados tenha sua produção interrompida, seja de energia, seja de radiofármacos. Por isso, é importante que as ações de segurança cibernética sejam exercitadas”, destaca Rafael.
A nova resolução da ANSN sobre segurança cibernética está em consulta pública e este será um importante marco para o setor, que ainda não conta com uma regulamentação específica.
Coordenado pelo Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber), o exercício reúne cerca de 1.300 participantes de 300 organizações, com representantes de 14 países e de setores estratégicos como energia, transporte, águas e nuclear.
Simulações avaliam gestão e resposta técnica
O exercício conta com duas frentes principais. A simulação construtiva avalia aspectos relacionados à gestão, à tomada de decisão, à comunicação e à coordenação diante de um incidente cibernético. Já a simulação virtual é voltada à atuação técnica e coloca os profissionais de TI responsáveis pela resposta diante de situações que exigem decisões e ações em tempo real.
As mudanças introduzidas nesta edição buscaram tornar as discussões mais dinâmicas. Em uma das sessões, prevista inicialmente para durar 30 minutos, o debate entre os participantes se estendeu por 1 hora e 40 minutos.
Para Rafael, esse tipo de interação é um dos principais ganhos do exercício, porque leva as organizações a avaliar suas próprias capacidades, políticas e procedimentos.
“As empresas começam a avaliar se realmente têm todas as políticas e todos os procedimentos necessários para prevenir um incidente ou, ao menos, reagir de forma mais rápida e eficaz”, explica.
A expectativa é que esse processo continue depois do exercício, com os participantes levando os questionamentos para suas próprias instituições.
“Será que estamos preparados para tudo o que vimos aqui? Se os participantes voltarem com uma mentalidade mais madura, isso já representa um ganho para as empresas e para o país”, afirma.
Cooperação na construção dos cenários
A participação do setor nuclear é coordenada pela ANSN e pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), com a colaboração de diferentes instituições.
Desde a primeira edição, o setor conta com o apoio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Neste ano, a Universidade de São Paulo (USP) também contribuiu para a construção dos cenários, para o uso de ferramentas destinadas a tornar as simulações mais realistas e também com a condução do exercício.
Também participam do exercício as principais empresas e instituições do setor nuclear.
A construção conjunta dos cenários busca aproximar as simulações de situações reais e ampliar a capacidade de articulação entre as instituições envolvidas.
Cenário inédito aborda pequenos reatores modulares
Entre as novidades do EGC 8.0 está um cenário envolvendo pequenos reatores modulares, os SMRs, na sigla em inglês para Small Modular Reactors.
Por envolver aspectos relacionados ao ambiente naval, sua elaboração contou com a contribuição técnica de representantes da Marinha do Brasil e da Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ).
A inclusão dos SMRs incorpora ao exercício discussões relacionadas a tecnologias emergentes e a novos desafios de segurança cibernética no setor nuclear.
Para a ANSN, a participação no Guardião Cibernético permite avaliar não apenas recursos tecnológicos, mas também processos de gestão, comunicação, coordenação institucional e continuidade das atividades diante de situações de crise.
Ao reunir órgãos reguladores, instituições públicas, empresas e especialistas, o exercício reforça a importância da atuação integrada para ampliar a resiliência cibernética e a capacidade de resposta das infraestruturas críticas nacionais.

Comunicação
A componente de comunicação também esteve presente durante o exercício. A ANSN foi representada por Lígia Morais, coordenadora de comunicação substituta, que destacou a importância da área para a resposta a incidentes. Segundo ela, a atuação da comunicação depende do acesso rápido a informações técnicas precisas, que permitam compreender o cenário e traduzir seu conteúdo de forma clara e adequada para os diferentes públicos.
“Acompanhar o exercício e vivenciar o cenário, faz diferença para a Comunicação. A gente consegue compreender melhor o que está acontecendo, acompanhar a situação em tempo real e, a partir disso, traduzir o conteúdo técnico de uma forma mais clara e adequada para cada público. Quando a Comunicação tem esse acesso direto às informações e ao contexto, ela consegue estar mais preparada para agir”, afirmou.
Também participaram, pela ANSN, Victor Frazão, chefe da seção de Infraestrutura de Tecnologia da Informação - SECGIT/CGTI; Victor Vasconcelos, inspetor vinculado à Coordenação-Geral de Segurança, Transporte e Rejeitos - CGSTR; Richard Brandão, chefe do Distrito de Angra dos Reis - DIANG/CGRE; e Adino Americo Heilmlich, pesquisador vinculado à Coordenação-Geral de Reatores - CGRE.
O exercício teve como centro de comando Brasília, onde reuniu 768 participantes. Outros 1.529 acompanharam as atividades nos hubs de Manaus, Belém, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Curitiba, enquanto 2.650 pessoas participaram de forma remota. Ao todo, a mobilização envolveu mais de 4 mil participantes.