Oficina reconecta ceramistas com peça de 130 anos para exposição sobre o Museu Goeldi em São Paulo

Os participantes são da região de Cunani (AP), onde a urna funerária Aristé foi encontrada por Emílio Goeldi, em 1895. Réplica e registros audiovisuais da oficina serão expostos no Instituto Tomie Ohtake, em junho, durante exposição de arte sobre os acervos do MPEG.

Publicado em 16/04/2026 17:00
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Grupo da oficina com as réplicas da urna funerária Aristé
Grupo da oficina com as réplicas da urna funerária Aristé (Daniel Magno/MPEG)

Agência Museu Goeldi - Em parceria com o Instituto Tomie Ohtake, o projeto do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) “Replicando o Passado”, coordenado pela pesquisadora Helena Lima, realizou a “Oficina de reconexão e reprodução de cerâmica arqueológica Aristé”, entre os dias 6 e 10 de abril, no Campus de Pesquisa da instituição, no bairro de Terra Firme, em Belém. A atividade faz parte da preparação para a montagem da exposição “Quando o Museu é Rio”, com abertura ao público prevista para o dia 25 de junho, em São Paulo, com obras de arte inspiradas nos acervos e nas pesquisas do Museu Goeldi.

Curadora da coleção arqueológica do MPEG, Helena Lima explicou que a oficina foi pensada após a visita da equipe do Instituto Tomie Ohtake ao acervo. “A gente se deparou com a seguinte questão: a intenção de levar as urnas funerárias para a exposição em São Paulo. Mas isso vai contra à nossa política de acervo, que é uma política que respeita os povos, a relação que esses povos estabelecem com a ancestralidade, com os simbolismos que essas urnas funerárias e outros objetos sensíveis trazem”. Assim, surgiu a ideia de replicar a urna funerária Aristé, por meio do projeto “Replicando o Passado".

Para a tarefa, foram convidados ceramistas de Macapá, Mazagão e Calçoene, municípios do Amapá, região de origem das cerâmicas Aristé. Após a exposição em São Paulo, parte das réplicas será levada para os territórios onde as peças foram encontradas. “A gente decidiu não apenas mostrar o quanto essas réplicas estão próximas da original, mas trabalhar a peça em todas as camadas de significados. Assim, os produtos audiovisuais que vão ser gerados a partir desta oficina também serão exibidos, ou seja, o processo, o contato com o barro, o contato com a história é o que a gente vai levar para a exposição”.

A programação contou com uma visita à reserva técnica de arqueologia, com aulas teóricas conduzidas pelos pesquisadores Nelson Sanjad e Cristiana Barreto sobre as urnas Aristé e sobre as expedições dos pesquisadores Emílio Goeldi e Aureliano Lima Guedes na região do quilombo do Cunani, em Calçoene, no final do século 19. A oficina também ofereceu aulas práticas para a replicação da peça, ministradas pelos ceramistas Deo Almeida e Marivaldo Costa, ambos do projeto “Replicando o Passado”. Além de moldar as réplicas da urna funerária, os participantes acompanharam o processo de queima das peças.

Replicando o conhecimento

A reconexão dos artesãos à peça arqueológica foi marcada pela emoção. “A gente vai levar todo esse aprendizado e vai difundir dentro do nosso contexto territorial. Esse projeto é muito importante porque a gente jamais imaginava ter contato com as urnas originais. Foi emocionante quando a gente chegou aqui, muitos de nós choramos”, afirma o ceramista de Calçoene e descendente do quilombo do Cunani, Gidean Moraes. Ele fala da oportunidade de conhecer as peças originais para replicá-las de maneira mais fiel. “Tiramos as medidas exatas da urna. Faremos as réplicas em tamanho original, com morfologia, iconografia e grafismos exatos, na quantidade que as verdadeiras têm,” disse, no segundo dia da oficina.

Participante Gidean Moraes trabalhando na réplica em cerâmica da urna funerária Aristé
Participante Gidean Moraes trabalhando na réplica em cerâmica da urna funerária Aristé (Louise Di Fátima/MPEG)

O sentimento de reconexão foi geral entre os participantes e o compromisso de difundir o conhecimento em seus territórios é um ponto fundamental para eles. Para a artesã Maria do Carmo, conhecer de perto a urna funerária foi uma forma de se reconectar com ela mesma e com a história de seus antepassados. “Não dá nem para mensurar como isso está sendo relevante para a gente. Com o aprendizado técnico e científico, e com a oportunidade de estar próximo das urnas, conhecer um pouco mais da história, vamos conseguir difundir esse conhecimento no nosso município, quando formos fazer outras urnas”, afirma.

“Todos os registros possíveis vão ser repassados para os participantes. Eles vão sair daqui com muitas técnicas do segmento arqueológico que ainda não dominam”, contou Marivaldo Costa, um dos oficineiros. Deo Almeida, o outro ceramista que ministrou a aula prática, falou sobre a importância do contexto histórico da oficina. “Eles estão reproduzindo, através da argila, o conhecimento da própria cultura. Cada réplica conta um pouco da história do território deles. Acho isso muito importante. E para nós, é importante repassarmos as técnicas, porque já adquirimos esse conhecimento”. Como partilhadores de conhecimento, os ceramistas explicam a importância de replicar exatamente a forma original da peça. “Tudo tem um porquê. Tem alguma coisa que alguém fez com algum propósito. Tudo que está descrito nela tem uma função. Se eu tirar, esquecer alguma coisa, a peça está incompleta”, finalizou o oficineiro.

A urna funerária original, com 130 anos de existência, conta com o guardião Raimundo Teodorio dos Santos. Conservador-restaurador do Museu Goeldi há cerca de 40 anos, ele recebeu o reconhecimento cultural do Fórum de Museus de Base Comunitária e Práticas Socioculturais da Amazônia por sua contribuição ao patrimônio arqueológico na Amazônia. Vigilante, durante toda a oficina, ele não saiu do lado da urna funerária Aristé. Só ele podia mover a peça de lugar. “A minha participação aqui é cuidar desse material, fazer o manejo. Estou guardando e protegendo a peça arqueológica”, afirmou, orgulhoso da função.

Conservador-restaurador Raimundo Teodoro e a urna funerária Aristé original
Conservador-restaurador Raimundo Teodoro e a urna funerária Aristé original (Louise Di Fátima/MPEG)

A exposição em São Paulo

Superintendente artística do Instituto Tomie Ohtake e curadora da exposição sobre o Museu Goeldi em São Paulo, ao lado de Vânia Leal e Sabrina Fontenele, Ana Roman participou da oficina no Campus de Pesquisa. “A gente tem discutido muito os processos reparatórios e as transformações do museu contemporâneo e de que maneira um acervo, que é constituído de maneira extrativa e colonial, que tem um contexto naturalista na sua formação e origem, pode ser revisto e ter novas camadas e contextos. Esse processo de refazer a urna, de algum jeito, é uma forma de devolução, mesmo que simbólica, desse saber fazer”, afirmou.

Para Helena Lima, o fato de a urna funerária participar da exposição a partir da produção de réplicas pela população originária do território onde ela foi encontrada significa uma inversão na história. “Tem umas coisas que, para mim, são muito fortes. Tem uma foto, em preto e branco, de 1895, do Lima Guedes com o pé em cima da urna. Era um tempo em que esses objetos arqueológicos, que são belíssimos, eram como espólios de guerra da dominação. Hoje o movimento é oposto, o movimento é de aproximação, de reconexão. Atualmente, essa peça cumpre o papel de virada de lugar, de posição, de protagonismo. Hoje ela está por cima e não mais debaixo do pé de ninguém”, refletiu a pesquisadora.

Curadora do Instituto Tomie Ohtake Ana Roman e coordenadora do Replicando o Passado Helena Lima
Superintendente artística do Instituto Tomie Ohtake Ana Roman e coordenadora do projeto “Replicando o Passado” Helena Lima. (Daniel Magno/MPEG)

Além das réplicas e das imagens da reprodução da urna funerária Aristé, segundo Ana Roman, o público, em São Paulo, verá novas obras elaboradas pelos mesmos artistas que participaram da exposição “Um Rio Não Existe Sozinho”, que ficou em cartaz no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi entre novembro e dezembro de 2025.

“Muitos artistas quiseram repensar um diálogo com os acervos do museu. A gente convidou, por exemplo, a Mari Nagem, a artista que fez a intervenção que fala sobre ondas de calor no chão do parque. Na exposição, ela irá se aproximar das pesquisas do Esecaflor e entender um pouco das especificidades deste projeto. A Mari vai fazer um trabalho a partir dos resultados encontrados. Já o PV Dias, que é um artista de Belém, está olhando para os arquivos para falar sobre o processo de circulação de informações em torno do Museu. Também haverá trabalhos relacionados à importância do acervo para os indígenas Kayapó. Tem ainda o acervo didático, que é incrível, que vai estar presente na nossa exposição”, adiantou Ana Roman, acrescentando que a exposição conta com a curadoria científica do pesquisador Nelson Sanjad, da Coordenadora de Comunicação e Extensão, Sue Costa, e da chefe do Serviço de Comunicação, Sâmia Batista, todos do Museu Goeldi.

Texto: Isabella Gabas e Carla Serqueira

Edição e revisão: Denise Salomão

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Educação e Pesquisa
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