XII Feira de Ciências de Caxiuanã destaca protagonismo de meninas e mulheres da floresta
Durante três dias, avaliadores do Museu Goeldi estiveram em escolas de Portel e Melgaço, onde estudantes apresentaram ideias desenvolvidas para atender a demandas de suas comunidades. Os projetos mais bem avaliados estarão na Olimpíada de Caxiuanã, em novembro.

Agência Museu Goeldi – “Ciência ribeirinha na Amazônia: meninas e mulheres como protagonistas do futuro”. O tema da XII Feira de Ciências de Caxiuanã, uma iniciativa do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), não passou despercebido pela adolescente Maria Victoria. Em meio à euforia de compartilhar a ideia de uma horta escolar que desenvolveu com colegas, ela fez questão de destacar que representava cerca de 1.400 estudantes de uma das 15 escolas que participaram da feira, ocupando, assim, o seu lugar de protagonista: “Adorei o tema escolhido. Achei muito interessante as mulheres estarem à frente desse projeto. Eu, como menina e mulher, gostei muito de estar aqui”, contou. Entre outras experiências e aprendizados, a feira reforçou a importância da presença feminina no território e na ciência feita a partir dele, na Amazônia.
Durante três dias, de domingo a terça-feira (de 23 a 25/08), estudantes, educadores e integrantes de comunidades do entorno da floresta compartilharam projetos de ciências e tecnologias sociais desenvolvidos a partir das reflexões da Jornada Pedagógica, realizada em abril deste ano. Na ocasião, um grupo de professores participou da formação, levou as temáticas a outros colegas de suas escolas e a suas comunidades. Juntos, eles instruíram os seus alunos a construírem os projetos apresentados na feira. Na sua 12ª edição, o evento anual cumpriu a segunda etapa do Programa de Extensão Educativo-Cultural da Estação Científica Ferreira Penna (PEEC-Caxiuanã). A iniciativa tem a parceria das prefeituras de Portel e de Melgaço e de comunidades ribeirinhas do arquipélago do Marajó, no Pará.

Mayara Larrys, chefe do Serviço de Educação do Museu Goeldi (Seedu), explicou que, nessa etapa do programa, uma equipe formada por profissionais da educação e pesquisadores foi até as comunidades conhecer os projetos de ciências que foram desenvolvidos. “Tivemos a oportunidade de visitar três comunidades. Elas apresentaram 15 trabalhos que resultaram ou podem resultar em tecnologias que resolvem demandas da comunidade, desde propostas que apresentam o artesanato local e sua perspectiva histórica, até a utilização de plantas medicinais, mapeando os saberes das comunidades, a produção de alimentos e a inovação, a partir de elementos que estão dentro do contexto e da realidade ribeirinha”, disse.
Sobre a temática do evento, Mayara Larrys disse que, na prática, é interessante perceber como as mulheres das várias e diferentes comunidades se tornam lideranças importantes, que lutam pela educação, pelos projetos de ciências, pelas formas de pensar, fazer e divulgar o conhecimento nos diferentes espaços, principalmente na ciência ribeirinha.
Além da chefe do Seedu, integraram a equipe do Museu Goeldi os avaliadores Lis Stegmann, pesquisadora do MPEG, e Leonardo Ryon, historiador e bolsista; Tatyanna Mariúcha, chefe da Estação Científica Ferreira Penna, e o pesquisador Antonio Carlos Lôla da Costa Antônio, que desenvolve projetos de pesquisa na Estação e acompanha o Programa de Educação desde sua origem.
Aproximando saberes
Maria Victória, a menina do início desta matéria, contou como a horta da sua escola virou uma realidade: “A comunidade doa os restos de alimentos, a gente faz a compostagem, espera os alimentos entrarem em decomposição. Depois, usa como adubo para plantar os vegetais, que são usados na merenda escolar. Isso faz com que a gente consiga ter uma dieta saudável na escola. É minha primeira vez no projeto, e foi muito emocionante, porque eu percebi que a escola se importa com a sustentabilidade”.
A estudante Brenda Pantoja defendeu o projeto de piscicultura em viveiros: “É importante, porque fornece renda para a comunidade local e ajuda a proteger os rios, ao diminuir a pesca na natureza”. Já Sinelma Nunes complementou: “A piscicultura é importante porque pode gerar alimentos não só para a escola, mas também para toda a comunidade”.
Luiz Filipe Rodrigues também participou pela primeira vez da feira de ciências. “O nosso projeto das ervas medicinais surge com o propósito de aproximar os saberes tradicionais e científicos, dando valor à cultura ribeirinha”, disse, acrescentando que o objetivo não é substituir os remédios feitos em farmacêuticas, mas incentivar as comunidades ribeirinhas a retomarem conhecimentos tradicionais sobre as plantas medicinais.
A adolescente Kevily Araújo também destacou a importância dos saberes tradicionais para a preservação ambiental e para a sobrevivência dos ribeirinhos que tiram dos rios a água e a comida, principalmente, segundo ela, os que não têm condições de cavar poços artesianos. “Eu me sinto muito honrada de ver as pessoas vindo de longe para nos ver apresentando os projetos”, disse. “Participar dessa feira de ciências trouxe muitos aprendizados, experiências que levaremos para a vida”, completou sua colega Arielma Fonseca.
José Vinicius, que fez parte do projeto de reciclagem de papel para produção de artesanato e como uma forma de dispersão de sementes (papel-semente), disse que a ideia vai além de evitar a poluição do meio ambiente, com o acúmulo de materiais destinados a lixões e aterros. “Ao ser jogado na mata, o papel-semente pode ser facilmente absorvido pela natureza podendo assim gerar nova vida”.
Educadores avaliam programa
Roberto Flores, coordenador pedagógico da Escolas de Referência Andreia Raulino, em Portel, ressaltou que os projetos apresentados são resultados do diálogo entre teoria (ensino formal) e a prática vivenciada a partir da necessidade e vivência da comunidade (saberes tradicionais). “Trazer assuntos que estão em voga e harmonizar natureza e sociedade são práticas que o mundo de hoje exige. Precisamos trabalhar de maneira sustentável para garantir o futuro”, destacou.
Já Vilmar Cruz, coordenador pedagógico da Escola Estefânia Monteiro, também em Portel, ressaltou a parceria com o Programa de Educação do Museu, que discute temáticas importantes, a partir da Jornada Pedagógica. “Cada professor volta à escola, socializa com os outros professores e amplia o conhecimento, envolvendo os alunos, discutindo com a comunidade escolar. Os alunos apresentaram os projetos decorrentes do que eles próprios pesquisaram. Isso é muito importante”, disse.
A professora Mara Cavalcante, coordenadora pedagógica da Secretaria de Educação de Melgaço, ressaltou que a feira é importante porque estimula os estudantes a serem pesquisadores em seus territórios, nos espaços que ocupam e moram.
Olimpíada encerra ciclo anual
A Olimpíada de Caxiuanã, que deve acontecer no próximo mês de novembro, vai encerrar o ciclo anual do Programa de Extensão Educativo-Cultural da Estação Científica Ferreira Penna. Realizado na Estação Científica, unidade do Museu Goeldi localizada na Flona, o evento vai reunir os representantes dos projetos mais bem avaliados. Na Olimpíada, alunos e educadores aprofundam seus conhecimentos concluindo a imersão científica em oficinas, debates e exposições, além de participarem de jogos educativos. A última edição do evento pode ser conferida AQUI.
Projetos e escolas participantes
Em Portel (Escola de referência Andreia Raulino):
Piscicultura em viveiro – Escola Andreia Raulino;
Reciclar hoje, preservar amanhã – Escola Santa Rita;
Titulação por iodometria (porcentagem de vitamina C) – Escola São Sebastião Marinaú;
Óleos vegetais: produção de sabão natural da escola São Sebastião – Escola São Sebastião;
Viveiro de mudas de espécies nativas ameaçadas de extinção: conservação da biodiversidade e educação ambiental – Escola Professora Rosinéia da Conceição Nunes Coelho;
Em Portel (Escola de referência Estefânia Monteiro):
Aguapé: da invasão à inovação – Escola Estefânia Monteiro;
H2O é vida (Escola Antônio Quaresma)
Educando com a horta hidropônica – Escola Edisvan Cordeiro
Plantas e ervas medicinais: unindo saberes da comunidade – Escola Rui Barbosa
Em Melgaço (comunidade Pedreira):
Mãos que contam histórias – Escola São Sebastião);
Resgatando conhecimento tradicionais das plantas medicinais – Escola Francisco Chagas da Costa);
Papel que gera vida – Escola Getúlio Vargas
Alimentação alternativa na escola – Escola Fazenda Laranjal
Memórias e identidade de seringueiros – Escola Nossa Senhora da Conceição
Horta escolar sustentável: compostagem com caroço de açaí e resíduos orgânicos como estratégia para educação ambiental e promoção da consciência socioambiental crítica no município de Melgaço – Escola José Maria Rodrigues Viegas Junior
Texto: Andréa Batista
Revisão: Carla Serqueira