Jornada pedagógica do Museu Goeldi reúne professores de 16 escolas ribeirinhas na Floresta Nacional de Caxiuanã

Formação integra o Programa de Extensão Educativo-cultural da Estação Científica Ferreira Penna do MPEG que, nesta edição, trabalhou temas como educação ambiental crítica, restauração biocultural e tecnologias sociais com educadores dos municípios de Melgaço e de Portel.

Publicado em 28/04/2026 09:59
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Dois homens estão lado a lado diante de parede com papéis colados durante dinâmica de grupo
Foram dois dias com oficinas preparatórias para a Feira de Ciências e as Olimpíadas de Ciências de Caxiuanã, que irão ocorrer no segundo semestre do ano (Matheus Neves/MPEG)

Agência Museu Goeldi – Dezesseis escolas ribeirinhas de Melgaço e de Portel, localizadas no arquipélago do Marajó, no Pará, estiveram representadas na Jornada Pedagógica do Programa de Extensão Educativo-cultural da Estação Científica Ferreira Penna, promovida anualmente pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em parceria com as prefeituras dos dois municípios, na Floresta Nacional de Caxiuanã. Ao todo, 21 professores participaram da formação que abordou temas como educação ambiental com metodologias críticas, restauração biocultural e tecnologias sociais. Sendo esta a primeira etapa de uma programação que se estende até o final do ano letivo, a jornada também contou com o apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), órgão ao qual o Museu Goeldi está vinculado, e da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa).

Mulheres vestidas com camisetas verdes da jornada assistem aula. Uma delas escreve num caderno.
Professoras aprendem sobre educação ambiental crítica (Matheus Neves/MPEG)

Entre os dias 17 e 18 de abril, os professores participaram das oficinas preparatórias para a Feira de Ciências, que acontece nas comunidades ribeirinhas, e para as Olimpíadas de Ciências de Caxiuanã, que ocorrem na Estação Científica, ambos os eventos no segundo semestre. “As ideias discutidas na jornada culminam em resultados que serão apresentados na próxima etapa do programa: a Feira de Ciências, com apresentação pública dos trabalhos científicos e das tecnologias sociais produzidas a partir dos projetos. Os projetos mais bem avaliados na feira participam da Olimpíada de Ciências, onde os estudantes aprofundam conhecimentos e interagem com pesquisadores, fortalecendo a conexão entre escola, ciência e comunidade”, explicou a chefe do Serviço de Educação do Museu Goeldi, Mayara Larrys.

Professores ao redor de uma mesa seguram um cartaz com a frase "tecnologias sociais na escola"
Jogos foram trabalhados em oficina de tecnologias sociais (Matheus Neves/MPEG)

De acordo com ela, desde 2025, a jornada pedagógica do MPEG é construída a partir da perspectiva metodológica de ensino e de pesquisa do educador Paulo Freire, com formações ministradas por pesquisadores doutores ou mestres da área da educação e de outras áreas de interesse das comunidades locais. “O objetivo da jornada é qualificar professores para desenvolver os projetos de ciências nas escolas. Ao articular demandas das escolas e problemáticas locais, estes projetos contribuem para a melhoria da qualidade do ensino, podendo resultar em tecnologias sociais autossustentáveis, com potencial de gerar renda, e ainda para a valorização dos saberes tradicionais”, disse Mayara Larrys, contando que, no primeiro dia da jornada, foram trabalhadas as orientações, as expectativas e os critérios para a construção dos projetos que serão apresentados na Feira de Ciências.

Novos olhares para os desafios ambientais

Também no primeiro dia da programação, a doutoranda em educação em ciências e matemáticas Barbara Sepulvreda conduziu a oficina “Educação Ambiental e Metodologias Críticas”, elaborada a pedido dos educadores da Flona de Caxiuanã. “O objetivo foi promover discussões que ajudassem os professores a desenvolverem os projetos nas escolas e a melhorar suas práticas didáticas nas salas de aula. Com isso, eles poderão construir conhecimentos de forma mais engajada com as questões socioambientais”, afirmou ela que, ao longo do ano, também participa do planejamento e da implementação das agendas que integram o Programa de Educação da Estação Científica Ferreira Penna.

Uma senhora segura uma folha em um ambiente ao ar livre durante aula sobre restauração biocultural
Professora Ana Marques divide experiência com uso de plantas (Matheus Neves/MPEG)

Já o segundo dia da jornada pedagógica contou com a oficina “Restauração biocultural", com diálogos sobre a restauração de ambientes a partir de saberes tradicionais. “Na oficina, tentamos mostrar o conceito de diversidade de forma holística, mais ampla, contemplando dimensões tanto da diversidade biológica e linguística como também cultural, para que os professores possam trabalhar nas escolas essa temática de maneira mais completa”, explicou a doutora em biologia e pesquisadora do Museu Goeldi, Lis Stegmann. Ela promoveu a atividade ao lado da bolsista PCI [Programa de Capacitação Institucional] do MPEG, Maria Gois. “Trabalhamos como as práticas educativas podem fortalecer a conservação da biodiversidade e também as identidades locais”, complementou Maria.

Tecnologias sociais no centro dos debates

Duas mulheres estão agachadas de frente uma para outra segurando sementes em aula ao ar livre
Oficina articula saberes tradicionais com conhecimento científico (Matheus Neves/MPEG)

Antes da noite cultural, no último dia da programação, a jornada pedagógica finalizou com a oficina sobre as tecnologias sociais, que promoveu a instrumentalização do que já é produzido dentro desta temática nas escolas, e apresentou formas de captação financeira para impulsionar os projetos. “A gente trabalhou tanto a parte conceitual e as características da tecnologia social, quanto discutimos com os professores alguns exemplos e aplicações de tecnologia social que sejam aplicados para a melhoria da infraestrutura e do ensino-aprendizagem nas escolas da Amazônia”, explicou Diana Cruz Rodrigues, doutora em administração e tecnologista do Museu Goeldi.

Dois professores estão lado a lado diante de papéis colados na parede em dinâmica de grupo
Professor Vilmar Cruz fala em dinâmica sobre restauração (Matheus Neves/MPEG)

Ana Marques, professora das escolas Francisco Chagas da Costa e Fazenda Laranjal, ambas em Melgaço, participa dos projetos de educação na Estação Científica Ferreira Penna desde 1997, quando possuía apenas a 4ª série do ensino fundamental. Com as formações em Caxiuanã, recebeu estímulo para chegar ao ensino superior e concluir uma especialização em métodos e técnicas de ensino. Nesta jornada, aprender sobre como trabalhar as plantas alimentícias e medicinais na sala de aula foi importante para ela. “Esse é o tema do projeto da Escola Francisco Chagas para a Feira de Ciências. É uma bagagem que estou levando para compartilhar com os professores com os quais eu trabalho e com os nossos alunos da pré-escola, do ensino fundamental e do ensino médio”.

Coordenador pedagógico da Escola Referência Estefânia Monteiro, Vilmar Cruz representa nove escolas da região. Ele começou a frequentar as formações na Estação Científica Ferreira Penna em 2013, precisou se afastar por alguns anos e retornou em 2025, acompanhando os alunos na Feira de Ciências e nas Olimpíadas de Ciências de Caxiuanã. Segundo ele, a jornada pedagógica ajuda a planejar as atividades na sala de aula. “A jornada nos ajuda a ter um alinhamento, a encontrar a problemática, a questão que a gente quer desenvolver na escola e a identificar os melhores projetos. A formação pedagógica nos dá norte, nos dá um caminho para que a gente possa se planejar, se organizar e, a partir disso, fazer o passo a passo daquilo que a gente quer para as nossas escolas, daquilo que a gente adquiriu com esse alinhamento de futuro”, concluiu o professor.

Texto: Carla Serqueira

Revisão e edição: Andréa Batista

Categorias
Educação e Pesquisa
Tags:Pará
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