MARCO HISTÓRICO

100 anos da visita de Marie Curie ao Brasil: a pioneira da Ciência Nuclear

A cientista polonesa, vencedora de dois prêmios Nobel, esteve no país em 1926, ministrando conferências, conhecendo importantes lideranças científicas e deixando um legado para a radioterapia.

Publicado em 17/07/2026 08:05Modificado há 6 dias
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Marie Curie acompanhada de sua filha, Irène Curie, e com outros intelectuais brasileiros em frente ao Morro do Pão-de-Açúcar, no Rio de Janeiro.
Marie Curie acompanhada de sua filha, Irène Curie, e com outros intelectuais brasileiros em frente ao Morro do Pão-de-Açúcar, no Rio de Janeiro. Foto: Autor desconhecido.

Cem anos atrás, o Brasil seria o palco de uma das duas turnês científicas realizadas por Marie Curie para fora da Europa, já que em 1921 havia cumprido uma série de visitas e palestras nos Estados Unidos. Por aqui, a primeira vencedora de dois prêmios Nobel em categorias diferentes da Ciência – Física (em 1903) e Química (em 1911) – permaneceu por 44 dias, entre 15 de julho e 28 de agosto de 1926.

Marie Skłodowska-Curie fez essa viagem acompanhada de sua filha, Irène Curie, que anos mais tarde também se tornaria uma reconhecida cientista que, assim como a mãe, venceria o Prêmio Nobel de Química. Na época dessa turnê, a cientista polonesa já estava viúva do marido e companheiro de laboratório, Pierre Curie, falecido vinte anos antes. 

Mãe e filha desbravariam um país que, na chamada “Belle Époque”, já desfrutava de intensa produção científica.  Após um início de século XX turbulento por conta do surto da varíola na então capital federal, Rio de Janeiro, resultando numa campanha massiva de vacinação à população, o Brasil avançou na área da Ciência com os trabalhos produzidos pelos médicos sanitaristas Oswaldo Cruz e Vital Brazil, além da criação da Academia Brasileira de Ciências (ABC) em 1916.

Destaca-se nesse período também a implantação das universidades do Brasil (atual UFRJ) e de São Paulo (USP) e de pesquisas médicas relacionadas a doenças tropicais. O Governo Federal da época passou a investir em áreas como agronomia, saúde pública e biologia e em pesquisas ligadas ao combate de pragas e à preservação da produção cafeeira, carro-chefe da economia nacional.

Com esse cenário, Marie Curie encontrou um solo fértil para difundir seus vastos conhecimentos na área de Ciência e Tecnologia. Isso se reforça, especialmente, na forma com que foi recebida. Se a Academia de Ciências da França recusou incluir Marie em seu grupo de membros, pelo fato de ser mulher, a Academia Brasileira de Ciências a admitiu por aclamação, na função de membro correspondente, através de uma carta formal compartilhada abaixo. A ABC deu um passo vanguardista para a época, reconhecendo o papel de uma mulher para o avançar da ciência no início do século passado.

Carta de título de membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências concedida à Marie Curie
Carta de título de membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências concedida à Marie Curie
Maria Curie, que é uma intelectual do gênero feminino, um gênero sub-representado nas ciências, e a nuclear também acompanha esse índice, só que intelectualmente ela possui dois prêmios Nobel em áreas distintas, algo que nenhum homem alcançou até hoje, então, é um marco diferenciado, e ela conseguiu isso numa época em que não se existiam coletivos de mulheres e que não existia a expressão ‘empoderamento’”, afirma a pesquisadora e vice-coordenadora do programa de pós-graduação do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN/CNEN), Dra. Luciana Carvalheira.

Discursos e Encontros Marcantes

Ao desembarcarem no Rio de Janeiro a bordo de um navio de luxo a vapor, Marie e Irène foram recebidas por uma comitiva de célebres intelectuais do país, entre eles, o médico Juliano Moreira, um dos pioneiros na psiquiatria brasileira e que combatia, através dos seus estudos, o racismo científico, provando que doenças mentais não tinham qualquer relação com a raça. Além de Moreira, a recepção contou com Edgard Roquette Pinto, considerado o pai da radiodifusão no Brasil, e fundador da Rádio Sociedade em 1923, veículo que transmitia conferências abertas de ciência em larga escala.

Ao longo de toda essa missão, Marie Curie esteve acompanhada da bióloga e diplomata Bertha Lutz, que era presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, responsável por organizar a comissão que recebeu as cientistas europeias. Bertha liderou o primeiro movimento feminista do Brasil, defendendo uma maior participação das mulheres em diferentes áreas da sociedade, incluindo a Ciência, tendo nesse ideal um elo com Marie Curie.

Após a longa viagem, Marie decidiu ficar reclusa no Hotel dos Estrangeiros, no bairro do Flamengo, e descansar por alguns dias, enquanto sua filha Irène logo quis aproveitar para se banhar nas praias cariocas. Um dos primeiros compromissos públicos de Marie foi ministrar a conferência inaugural na Escola Politécnica, que atraiu um público participante muito além do esperado (havendo registros de tumultos nos acessos ao local), e foi transmitida pela Rádio Sociedade.

Nessa conferência, a cientista abordou os estudos pioneiros sobre a Radioatividade, desempenhados ao lado do marido, Pierre Curie, e do cientista Henri Becquerel, e que abriram os caminhos para o uso desse fenômeno natural na medicina – a radioterapia. Curie ainda comandaria um total de doze conferências durante sua viagem, o que lhe garantiu, como retribuição, 75 mil francos (o equivalente hoje a R$419 mil) — 25 mil francos do governo francês, antes de zarpar, e 50 mil do governo brasileiro, ao chegar ao Rio.

Marie Curie em visita ao Museu Nacional, em julho de 1926.
Marie Curie (sentada) em visita ao Museu Nacional, em julho de 1926, com sua filha, Irène, e Bertha Lutz.

Ainda no Rio, Marie e sua filha visitaram outros símbolos da cultura e da ciência brasileira, como o Museu Nacional, no Parque da Quinta da Boa Vista, a mais antiga instituição científica do país, fundada em 1818, ainda no período imperial; conheceram importantes pontos turísticos, como o Corcovado, o Jardim Botânico e o Pão de Açúcar, este último já com o seu famoso bondinho; e ainda foram convidadas para uma solenidade no Senado Federal, localizado no extinto Palácio Monroe, onde foram saudadas pelo então vice-presidente da República, Estácio Coimbra.

Um presente para a radioterapia nacional

Antes de deixar o território fluminense, Marie Curie realizou uma excursão pela Estrada de Ferro Central do Brasil, tendo visitado as cidades interioranas de Vassouras, Barra do Piraí e Petrópolis.

A programação da turnê seguiu para São Paulo, onde a cientista proferiu uma conferência na Faculdade de Medicina e visitou instituições de pesquisa, entre elas o Instituto Butantan, que já possuía mais de 20 anos de atividades voltadas à pesquisa e a produção de imunobiológicos.

Já em Belo Horizonte, Curie conduziu uma palestra sobre radioatividade e suas aplicações no tratamento do câncer na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na plateia, jovens estudantes que, nos anos posteriores, tornariam-se importantes personalidades intelectuais e políticas do Brasil, entre eles Juscelino Kubitschek (futuro presidente do Brasil), Guimarães Rosa e Pedro Nava (futuros escritores). O último dessa lista, por sinal, descreveu a palestrante vinda da França da seguinte maneira em seu livro de memórias Beira-Mar, lançado em 1978:

Era pequena de estatura. Andava de vestido negro, saia arrastando. Apresentou-se sempre com a mesma roupa, mal penteada, mãos vermelhas maltratadas e vi suas botinas de salto baixo tendo abotoadas só o botão de cima. Mas, ensinando, transfigurava-se e as suas palavras nosso anfiteatro iluminou-se ainda mais — como se passassem por suas paredes raios urânicos, centelhas radioativas e faíscas ferromagnéticas".

Dentre todas as instituições que receberam a renomada professora e cientista, o Instituto de Radium (atual Hospital Borges da Costa), em Belo Horizonte, foi o que obteve um importante legado. De acordo com registros dessa visita, a física teria doado ao instituto três tubos de rádio-226 utilizados na curieterapia (braquiterapia), para serem acrescentados às outras agulhas já pertencentes ao Instituto. Os equipamentos estiveram em funcionamento por décadas e contribuíram para que a radioterapia, ainda iniciante no Brasil, ampliasse sua possibilidade de tratamento a pacientes diagnosticados com tumores cancerígenos

Após se despedirem do Presidente da República, Arthur Bernardes, no Palácio do Catete, antiga sede do Governo Federal, Marie e Iréne Curie retornaram à França em 28 de agosto de 1926. De dentro do navio, Marie enviou uma carta à cientista Bertha Lutz, que foi reproduzida pela imprensa através do Jornal do Commercio e de O Paiz, onde agradece o tratamento que recebeu nos dias de viagem, o esforço e dedicação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino para tornar viável e confortável a estadia dela e de sua filha ao país, compartilhou o seu encantamento com a natureza brasileira e destacou o interesse da comunidade científica brasileira em seus discursos. Veja a carta abaixo:

Carta de Marie Curie à Bertha Lutz, em 1926

O que ficou no Brasil depois da passagem de Marie Curie?

Na avaliação do professor Dr. Ildeu Moreira, presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e membro titular da Academia Brasileira de Ciência, a incursão de Marie Curie ao Brasil em meados dos anos 1920 não chegou a criar mudanças significativas ou repentinas na Ciência Brasileira. No entanto, o especialista afirma que essa viagem deixou algumas marcas relevantes:

- contribuiu para estimular a formação de grupo de cientistas locais;

- valorizou instituições científicas, destacando a importância da “ciência pura” e o uso da ciência na saúde;

- no campo da difusão da ciência, além do curso inovador sobre radioatividade e das várias palestras realizadas, a presença de Marie ao país obteve ampla divulgação na mídia, com repercussão junto ao meio acadêmico e a autoridades locais;

Moreira destaca que o ponto mais importante da vinda da célebre intelectual tenha sido o destaque dado ao valor da mulher na ciência e o estímulo ofertado às lutas feministas locais, em particular do grupo que se organizava na Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderado por Bertha Lutz, como a campanha pelo sufrágio universal, que concederia às mulheres o direito ao voto e o de pleitear um cargo público.  

Nas décadas seguintes, a institucionalização da ciência no Brasil se fortaleceu, especialmente no contexto pós Segunda Guerra Mundial, onde foram fundadas a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), instituições cruciais para a organização da ciência e tecnologia nacionais e para a formação e capacitação de professores.

O Projeto Manhattan, adotado pelos Estados Unidos em países aliados, ainda possibilitou que o Brasil recebesse investimentos e equipamentos a estimular o conhecimento da ciência nuclear em torno de iniciativas unicamente pacíficas. Nessa esteira, é criada a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), em 1956, para garantir que a tecnologia nuclear seja utilizada em território nacional de forma segura, estratégica e em benefício da sociedade, por meio de investimentos em pesquisa e desenvolvimento de projetos inovadores.

Esse trabalho se amplia através das cinco unidades técnico-científicas que compõem a CNEN, como o IEN/CNEN, que aplicam, em suas rotinas operacionais, toda a relevância e expertise da área nuclear, alimentada no Brasil há cem anos por um dos principais ícones desse campo do saber.  

Escrita por: José Lucas Brito (Secos/ IEN)

Referências Bibliográficas:

- BBC News Brasil: “A Visita ao Brasil de Marie Curie, única mulher a ganhar duas vezes o Nobel” - https://www.bbc.com/portuguese/articles/c517y8yvz73o

- Brasiliana Fotográfica: “A cientista Marie Curie (1867-1934) no Museu Nacional, Rio de Janeiro, 1926” - https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=11797

- Centro de Memórias da ABC: “Marie Curie no Brasil” - https://memoria.abc.org.br/marie-curie-no-brasil/

- Fiocruz: “Brasiliana – a divulgação científica no Brasil (1901-1945) - https://fiocruz.br/brasiliana/cgi/cgilua.exe/sys/starte88f.html?sid=15

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Ciência e Tecnologia
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