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DE OLHO NA PESQUISA
Rastreio de doenças neurológicas em pacientes com doenças reumatológicas e metabólicas é tema de estudo no Huap-UFF
Pesquisas contribuem para a melhoria da qualidade de vida em pacientes com doenças reumatológicas
A dor é um dos principais sintomas das doenças reumatológicas e metabólicas. Dependendo do caso, o impacto na vida do paciente é significativo, e pode revelar, ainda, problemas no sistema nervoso. O quadro “De olho na pesquisa” de junho abordará o tema, apresentando uma linha de pesquisa que auxilia na identificação dessas neuropatias e contribui para o tratamento de pacientes do Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap-UFF/HU-Brasil).
A pesquisa é coordenada pela neurologista Camila Pupe, professora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Neurologia e Neurociências da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ela explica que a linha de pesquisa parte de uma ideia central: “muitas doenças sistêmicas têm manifestações neurológicas que podem ser subdiagnosticadas, especialmente quando os sintomas são discretos, inespecíficos ou atribuídos apenas à doença de base”.
Em pacientes com doenças reumatológicas autoimunes, como lúpus, síndrome de Sjögren, vasculites, artrites inflamatórias, entre outras, o sistema nervoso periférico pode ser acometido de diferentes formas. “Podemos encontrar neuropatias sensitivas, neuropatias de fibras finas, mononeurites múltiplas, dor neuropática, disautonomia e quadros inflamatórios que, se identificados precocemente, podem mudar a condução terapêutica”, detalha a pesquisadora.
Já na síndrome metabólica, frequentemente associada a obesidade central, resistência insulínica, hipertensão, dislipidemia e risco cardiovascular aumentado, existe também maior risco de neuropatia periférica, dor crônica, disfunção autonômica e alterações metabólicas que impactam o sistema nervoso, afirma a professora.
Metodologia
Por meio de avaliação clínica estruturada, escalas de sintomas, exames neurológicos e testes sensitivos, o objetivo é rastrear precocemente alterações neurológicas nesses dois grupos de pacientes. A proposta, segundo Camila Pupe, é aproximar a neurologia da clínica médica, da reumatologia, da endocrinologia e da cardiologia, criando uma abordagem integrada para pacientes que não cabem em uma única especialidade. Participam, ainda, do projeto, a professora Márcia Sales, da semiologia médica, professora Auxiliadora Saad, da endocrinologia, e professor Luiz Eduardo Oliveira, da reumatologia.
Um dos principais estudos da linha de pesquisa é o rastreio de neuropatia em pacientes com síndrome metabólica, que busca identificar sinais de acometimento do sistema nervoso antes mesmo do diagnóstico do diabetes. “Esperamos identificar subgrupos de pacientes com maior risco de neuropatia, especialmente aqueles com maior resistência insulínica, obesidade abdominal, dislipidemia ou alterações glicêmicas iniciais. Isso pode permitir uma intervenção mais precoce, antes que a neuropatia se torne mais avançada ou incapacitante”, pontua.
Outro eixo envolve pacientes com doenças reumatológicas imunomediadas. Nesses casos, os estudos buscam compreender quais manifestações neurológicas são mais frequentes, quais sintomas devem servir como alerta e como integrar melhor neurologia e reumatologia no cuidado desses pacientes. “Um paciente com dor, dormência, queimação, fadiga intensa ou sintomas autonômicos pode ter uma manifestação neurológica da doença sistêmica, e não apenas uma queixa inespecífica”, explica.
Diagnóstico precoce melhora qualidade de vida
Para a pesquisadora, uma neuropatia ou uma manifestação neurológica em fase inicial identificada precocemente permite a intervenção médica antes que o paciente desenvolva dor crônica, perda funcional, quedas, limitação para caminhar, distúrbios do sono ou sofrimento emocional associado.
“No caso das neuropatias, muitas vezes o paciente passa anos relatando dormência, queimação, fadiga, sensação de choque ou dor difusa sem que isso seja adequadamente reconhecido como um problema neurológico. Quando damos nome ao sintoma, investigamos corretamente e explicamos o mecanismo, o paciente se sente validado e passa a ter um plano de cuidado mais objetivo”, ressalta a professora.
A pesquisa pode, ainda, ajudar a organizar fluxos de atendimento, pois permite identificar quais pacientes precisam de investigação neurológica mais detalhada, quais deles podem ser acompanhados clinicamente e quais necessitam de tratamento medicamentoso, reabilitação, controle metabólico mais intensivo ou ajuste da imunoterapia. Para o paciente, isso pode significar menos dor, mais autonomia, melhor adesão ao tratamento e melhor comunicação entre especialidades, tornando o cuidado mais personalizado e integrado.
Pesquisa é compromisso com a sociedade
Camila Pupe é graduada em medicina pela UFF e desde cedo se encantou pela neurologia, pois, segundo ela, trata-se de uma especialidade que exige uma combinação muito particular de raciocínio clínico, escuta cuidadosa e integração entre sinais, sintomas e exames complementares. Após se especializar na área, ela utiliza a pesquisa como ferramenta de formação para médicos, residentes e alunos de pós-graduação, e busca formar profissionais com pensamento crítico, sensibilidade clínica e compromisso social.
“A pesquisa entrou naturalmente na minha vida porque, no hospital universitário, a assistência levanta perguntas todos os dias. Muitos pacientes chegam com sintomas complexos, diagnósticos difíceis, doenças raras ou manifestações neurológicas ainda pouco reconhecidas. A pesquisa, para mim, nasce desse encontro entre a dúvida clínica e a responsabilidade de transformar essa dúvida em conhecimento útil, aplicável e capaz de melhorar o cuidado”.
Ela conclui dizendo que um hospital universitário não é apenas um lugar para se tratar doenças, mas um local de construção do futuro da medicina, pois reúne assistência, ensino, pesquisa e compromisso social, permitindo que as perguntas de pesquisa nasçam da realidade dos pacientes e que as respostas retornem para melhorar o cuidado.
“Para mim, ensinar e pesquisar em um hospital universitário é também uma forma de devolver à sociedade. A universidade pública tem a missão de produzir conhecimento, formar pessoas e melhorar o cuidado oferecido à população. Quando fazemos pesquisa clínica de qualidade dentro do hospital, conseguimos transformar a experiência de um paciente em aprendizado para muitos outros”, finaliza.
Sobre a HU Brasil
O Huap-UFF faz parte da HU Brasil desde 2016. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – Ebserh. É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Em 2026, em um reposicionamento junto à sociedade, ao mercado e instituições parceiras, passou a ter um novo nome, que carrega sua essência: HU Brasil.
Por Paola Caracciolo
Gerência Executiva de Comunicação Social/HU-Brasil