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APOIO E RESPEITO
HU-Unifap celebra o abril Azul, reforçando que o autismo merece respeito e inclusão
Macapá (AP) - A campanha Abril Azul acontece durante todo o mês de abril, promovendo a conscientização e o respeito à neurodiversidade, combatendo o preconceito e dando visibilidade às pessoas com o Transtorno do Espectro Autismo (TEA). Esse ano, a campanha nacional de Conscientização do Autismo, tem como tema: “Autonomia se constrói com apoio e respeito”. O objetivo é mostrar que a autonomia de pessoas com TEA depende do suporte coletivo, família, escola, saúde e do respeito ao ritmo individual.
O Hospital Universitário da Universidade Federal do Amapá (HU-Unifap), vinculado à estatal HU Brasil, reforça seu compromisso com a causa, ressaltando a importância da inclusão e da conscientização sobre o Autismo. Com 12 colaboradores diagnosticados com TEA, o hospital mostra que, com direitos garantidos, respeito e inclusão, os neurodivergentes podem se destacar e contribuir significativamente no trabalho e na sociedade.
O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento de base genética e hereditária. Caracteriza-se por uma organização cerebral atípica que gera dificuldades persistentes na comunicação e interação social, além da presença de padrões de comportamento repetitivos, interesses restritos e sensibilidades sensoriais específicas.
Os colaboradores com TEA do HU-unifap desenvolvem suas atividades profissionais em diversos setores e departamentos do hospital, tais como: Divisão Médica (1), Setor de Abastecimento Farmacêutico e Suprimentos (1), Divisão de Logística e Infraestrutura Física (1), Unidade de Análises Clínicas e Anatomia Patológica(1), Unidade de Bloco Cirúrgico e Processamento de Material Esterilizado(3), Divisão de Gestão do Cuidado e Apoio Diagnóstico e Terapêutico(1), Unidade de Clínica Cirúrgica(2), Unidade de Clínica Médica(1) e Setor de Gestão da Qualidade (1).
Espaço de Inclusão
Para o chefe da Unidade de Clínica Cirúrgica, Juan Silva, a presença desses profissionais com TEA tem sido muito positiva para a equipe, porque amplia o olhar sobre o trabalho, sobre a convivência e sobre a importância de reconhecer as potencialidades de cada pessoa. “Eles contribuem não apenas com suas atribuições técnicas, mas também com perspectivas diferenciadas, muitas vezes marcadas por atenção aos detalhes, comprometimento, dedicação e formas singulares de compreender e executar processos”.
Juan Silva, enfatiza que as relações de trabalho ainda estão em adaptação para um acolhimento pleno. “Em muitos contextos, há um certo engessamento nas metodologias de trabalho e nas formas de organização institucional, quando o que a inclusão exige é justamente mais criatividade, escuta, flexibilidade e, principalmente, empatia”, disse.
“A inclusão verdadeira depende de uma mudança de cultura, de atitude e de disposição coletiva para construir ambientes mais acessíveis, respeitosos e humanos”, frisou Juan Silva.
Bem-estar do trabalhador
De acordo com a chefe da Unidade de Saúde Ocupacional e Segurança do Trabalho, Analu De Lavor, o HU-Unifap dispõe de iniciativas voltadas à promoção do bem-estar dos trabalhadores, incluindo pessoas neurodivergentes. Um exemplo é o Programa de Qualidade de Vida no Trabalho (PQVT), que contempla ações voltadas à saúde física e mental e a oferta de práticas integrativas no ambulatório institucional, contribuindo para o cuidado integral do trabalhador.
Outra iniciativa é “o Programa Acolhe, voltado ao apoio psicossocial, que oferece escuta qualificada, orientação e suporte aos colaboradores, favorece a adaptação ao ambiente de trabalho e o enfrentamento de demandas emocionais”, disse.
Ainda segundo Analu, “um ambiente inclusivo e humanizado, que valoriza as individualidades, promove uma cultura organizacional mais empática e acolhedora, melhorando relações interpessoais e a segurança assistencial”, concluiu.
Superando desafios
Muitas são as histórias de sucesso de trabalhadores autistas. Uma delas é a do enfermeiro Italo Cunha Barbosa, 39 anos, chefe substituto da Unidade de Bloco Cirúrgico e Processamento de Material Esterilizado (UBCME). Ele foi admitido no HU-Unifap em setembro de 2021 como técnico de Enfermagem, antes mesmo de descobrir seu diagnóstico de TEA.
“Em dezembro de 2023, fui convocado como enfermeiro”, conta Italo. No entanto, o caminho para o diagnóstico foi desafiador: “Diante do alto custo envolvido nos testes de investigação do TEA, só pude iniciar meu processo de acompanhamento com a neuropsicóloga após abril de 2024”. Ele recebeu o laudo da neuropsicóloga em dezembro de 2024 e do psiquiatra em fevereiro de 2025. “Minha maior dificuldade foi me adaptar às mudanças inesperadas em minha rotina diária, bem como o excesso de barulho. Em alguns momentos, tenho de usar abafador de ruído”.
“A aceitação do diagnóstico e compartilhamento com todos os que trabalham comigo foi o ponto primordial e focal para conseguir lidar com as dificuldades”, afirma o chefe. “Aliado ao TEA, também fui diagnosticado com TDAH, com predomínio de desatenção. Posso afirmar que o acompanhamento profissional e uso dos medicamentos trouxeram maior qualidade de vida”. Ele destaca a compreensão dos colegas: “Os colegas de trabalho compreenderam o fato de eu ser neurodivergente, e são bastante empáticos nos momentos que tenho as crises de ansiedade ou irritabilidade”.
“Com experiência profissional, conhecimento técnico, vivências e muita dedicação, consegui conquistar uma vaga na chefia da UBCME”, enfatiza o enfermeiro, destacando o apoio da equipe: “Tenho muito apoio das equipes que trabalham comigo, como os enfermeiros e técnicos de Enfermagem do Bloco Cirúrgico e da CME”. Sobre seus planos para a unidade, ele afirma: “Temos investido em treinamentos, aperfeiçoamento das rotinas atuais, criação de POP's e instituição de novos protocolos. O foco atual é sobretudo no desenvolvimento de habilidades e competências das equipes da UBCME”, disse.
“No primeiro momento, pensei em esconder meu diagnóstico temendo sofrer preconceito dos colegas de trabalho”, confessa. “Entretanto, após acompanhamento em psicoterapia, tornar público minha condição diferenciada foi a melhor solução”. Ele reflete: “Percebi que o TEA não me faz menor que os outros, apenas me permitiu enxergar o mundo de maneira diferente”. Italo buscou o laudo para se entender melhor: “Busquei o laudo para me entender melhor quanto ser humano, e verificar até que ponto isso influenciaria em minha vida profissional”. Ele enfatiza o acolhimento no trabalho: “Consigo lidar bem com os prejuízos que essa condição me trouxe, e posso afirmar que sou bem acolhido no meu ambiente de trabalho. Recebo apoio, sou respeitado diante das minhas limitações e evitam sempre situações que possam ser gatilhos ruins para mim”.
“Acredito que o HU-Unifap tem feito uma boa inclusão no ambiente hospitalar”, avalia o profissional. Ele reforça a importância da campanha do abril Azul: Achei importante citar essa pauta tendo em vista que os colaboradores com TEA existem, conseguem desempenhar muito bem as suas funções, não ‘pobres coitados’ e estão no ambiente de trabalho para entregar sempre o seu melhor”. E acrescenta: “Meu objetivo foi justamente provocar reflexões sobre a vida profissional desses indivíduos para que sirvam de exemplo de força, resiliência, e principalmente superação de barreiras”, finalizou.
Obstáculos na profissão
Outra profissional que faz a diferença no HU-Unifap é a enfermeira Graciane Corrêa, 36 anos, que compartilha sua experiência. “No início não foi fácil, enfrentei muitas dificuldades de adaptação ao gerenciamento da equipe, pensei em desistir após um episódio de assédio moral. Ela destaca situações de preconceito: “Percebi que as pessoas costumam ter muito preconceito com relação às diferenças”. Graciane buscou formas de melhorar: “Tive dificuldade para lidar com uma equipe tão grande e pelas várias atribuições do enfermeiro no setor. Busquei formas de saber lidar melhor com a equipe, modulando minhas reações, analisando minha forma de lidar com cada profissional”.
“Eu atuo no bloco cirúrgico gerenciando a equipe de enfermagem, organizando o setor, garantido a segurança do paciente com relação ao procedimento cirúrgico, e o material necessário para a realização dos procedimentos”. A enfermeira é responsável por garantir os recursos necessários para a realização dos procedimentos cirúrgicos: equipamentos, materiais instrumentais e equipe técnica (cirurgião, anestesista e técnicos), sem comprometer o fluxo do setor.
Saiba mais
Para o psicólogo Organizacional e do Trabalho do HU-Unifap, Wendell Rogério Marques, a importância central do diagnóstico precoce reside na plasticidade cerebral da primeira infância. “O diagnóstico precoce permite intervenções terapêuticas enquanto o sistema nervoso é mais adaptável, o que maximiza o desenvolvimento de habilidades funcionais, promove a autonomia e reduz significativamente a necessidade de suporte intensivo na vida adulta”, afirmou.
Segundo ele, o aumento de casos de Autismo não é atribuído a uma causa biológica isolada, mas a fatores metodológicos e sociais. Conforme a literatura atual, isso se deve ao refinamento diagnóstico, com critérios mais abrangentes que unificaram antigos transtornos sob o termo "Espectro". “Melhor rastreio com profissionais para identifica sinais sutis, maior visibilidade e diagnóstico crescente em mulheres e adultos antes negligenciados, além de fatores biológicos como idade paterna avançada e maior acesso a testes genéticos, podem contribuir para o aumento de casos”, concluiu.
Sobre a HU Brasil
O HU-Unifap faz parte da Rede HU Brasil desde 2022. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil foi criada em 2011, tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – Ebserh, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Neurizete Duarte
Coordenadoria de Comunicação Social da Rede HU Brasil