Galeria de Imagens
INCLUSÃO
Hospitais da Rede HU Brasil reforçam respeito à neurodiversidade e avanços na terapêutica do autismo
Nesta matéria, você verá:
Brasília (DF) – Avanços no conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) têm ampliado as possibilidades de desenvolvimento, autonomia e participação social. Na rede HU Brasil, composta por 47 hospitais universitários federais, atividades assistenciais, de ensino e de pesquisa contribuem para qualificar o cuidado, combater a desinformação e promover a inclusão e o respeito à neurodiversidade.
O que é o Transtorno do Espectro Autista
O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits na comunicação e interação social, além da presença de padrões de comportamento, interesses ou atividades restritos e repetitivos. “O termo espectro surgiu pela heterogeneidade de características clínicas, com dificuldades, habilidades e necessidades de suporte diferentes em pessoas com autismo”, explica a neuropediatra Fernanda Dubourg, que conduz atendimentos e pesquisas no Hospital Professor Edgard Santos da Universidade Federal da Bahia (Hupes-UFBA).
A ginecologista Rochele Elias, da Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC-UFRN) e mãe de um jovem autista, reforça essa diversidade. “Há pessoas que não falam e pessoas que falam muito bem, com uma comunicação robusta, e ainda há aqueles que falam, mas não conseguem se comunicar e estabelecer uma conversa. É uma diversidade bastante grande. Por isso o nome espectro é o mais adequado”, descreve.
Segundo Fernanda, a forma como o autismo é compreendido e diagnosticado evoluiu nas últimas décadas. “Com a publicação do DSM-5, em 2013, e a definição de espectro, passamos a olhar não uma condição única, mas uma variedade de perfis clínicos, com necessidades diferentes”, afirma. Para ela, a compreensão da neurodiversidade permite a desconstrução de estereótipos e o desenvolvimento máximo de cada indivíduo dentro de suas características e singularidades.
Mitos, preconceito e o caminho até o diagnóstico
Rochele observa que o preconceito em torno do autismo muitas vezes nasce da desinformação. “Um exemplo comum é de uma criança tem uma crise sensorial confundida com uma birra. Existe desinformação, tanto para querer que tudo seja autismo quanto sobre o que representa o autismo”, pontua. Entre os mitos mais comuns, ela cita a associação do autismo a estereótipos de filmes, como superdotação e altas habilidades. “A realidade, muitas vezes, é totalmente diferente”, diz.
O diagnóstico do TEA é clínico. “Você não tem um exame até hoje que possa caracterizar isso. A gente sabe que ele é causado por mais de um fator genético”, explica Rochele. Segundo ela, é fundamental que as famílias observem os marcos do desenvolvimento, como o olhar, a interação e a resposta ao chamado, e levem relatos e vídeos familiares aos médicos para auxiliar no diagnóstico.
Para quem recebe o diagnóstico tardiamente, na vida adulta, a descoberta costuma ser libertadora. “Quase todos eles se colocam com ‘eu sabia que eu tinha algo, eu sabia que eu era diferente, mas eu não sabia o que era’. Agora ele sabe por que age assim, e isso é libertador”, relata Rochele. Ela destaca ainda o papel das redes sociais nesse processo. “Já houve pessoas que, em uma palestra de conscientização, perceberam que aquela descrição se encaixava para elas, procuraram atendimento e foram diagnosticadas.”
Tratamentos baseados em evidência
Não existe uma única terapia eficaz para todas as pessoas com TEA. Segundo Fernanda, as intervenções com melhores resultados científicos são aquelas adaptadas às necessidades de cada indivíduo e focadas no desenvolvimento de atividades para a vida cotidiana. Entre elas, estão terapias comportamentais e desenvolvimentistas naturalísticas, programas de orientação para as famílias, fonoaudiologia, terapia ocupacional e suporte educacional individualizado. “As abordagens com maior evidência de eficácia e benefício são baseadas na ciência da Análise do Comportamento Aplicada (ABA)”, afirma ao citar recomendação da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil.
Rochele detalha como esse cuidado se traduz na prática. “A psicologia, a terapia ocupacional e a fonoaudiologia são baseadas em evidência científica. Pode ser feito também hidroterapia, natação terapêutica e outras práticas, dependendo da necessidade de cada pessoa”, explica. Ela ressalta que alguém que fala não está impedido de buscar atendimento fonoaudiológico, por exemplo. “Ele pode falar, mas pode não ter uma conversa efetiva. Então ele vai para o fonoaudiólogo para aprender a se comunicar.”
Sobre o uso de medicamentos, Fernanda explica que não existem fármacos aprovados para tratar os sintomas centrais do TEA. “Os medicamentos são utilizados principalmente para tratar condições associadas, como irritabilidade, agressividade, hiperatividade, ansiedade e alterações do sono”, afirma. Em relação à cannabis medicinal, deve haver ponderação. “Os estudos disponíveis sugerem possíveis benefícios em alguns domínios, mas os resultados ainda são heterogêneos, e as evidências científicas não permitem afirmar que seja um tratamento estabelecido para os sintomas centrais do autismo.”
Alberto: uma história de conquistas
Para Rochele, o Dia do Orgulho Autista, 18 de junho, é reconhecimento de conquistas que, para outras pessoas, seriam consideradas simples. “O autista pode celebrar o fato de se vestir sozinho, se alimentar sozinho, ter autonomia na vida adulta, tomar um banho, escolher ir a um restaurante, conseguir chegar a uma universidade e a um emprego. Isso são coisas a serem celebradas por qualquer pessoa. E, para o autista, não é diferente”, diz.
Seu filho, Alberto, hoje cursa a faculdade de Gastronomia em Natal (RN), acompanhado por uma cuidadora que estuda ao seu lado desde que ele tinha um ano de idade. “Ele realmente se encontrou, passou a ter hábitos. Ele até passou a tomar cafezinho junto com os colegas”, conta Rochele.
Em um estágio recente em uma pizzaria, Alberto chamou a atenção do chefe do setor. “Ele disse que Alberto monta pizza melhor do que muita gente que chegou para trabalhar nesse serviço e que não tem nenhuma dificuldade”, relembra a mãe, com orgulho.
Rochele resume a trajetória com uma reflexão sobre expectativas e aceitação. “Eu nunca imaginei que eu iria chegar aqui. Meu filho é uma pessoa que tem muitos amigos, é muito querido e feliz”, conclui. Para ela, divulgar essa história tem um propósito claro: “Que outras pessoas vejam que tem possibilidades em um filho autista. A pessoa continua podendo ser feliz e realizar o que deseja. É possível reconhecer os desafios do autismo sem reduzir a pessoa ao diagnóstico. Respeitar as diferenças, garantir acesso a cuidados adequados e promover inclusão são objetivos que unem todos os lados dessa discussão”, afirma.
Sobre a HU Brasil
Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – Ebserh. É responsável pela administração de 46 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Em 2026, em um reposicionamento junto à sociedade, ao mercado e instituições parceiras, passou a ter um novo nome, que carrega sua essência: HU Brasil.
Reportagem: Luís Fernando Lourenço, com edição de Danielle Campos
Gerência Executiva de Comunicação Social da Rede HU Brasil