Ciência para além dos laboratórios: alunas da Baixada Fluminense visitam o CBPF
Em outubro, estudantes de escolas da região participaram de atividades com pesquisadoras e pesquisadores, conheceram laboratórios e tiveram contato com diferentes formas de produzir e compartilhar conhecimento científico.
Como é o trabalho de uma cientista? Que perguntas movem uma pesquisa? Como o conhecimento produzido nos centros de pesquisa chega à sociedade? Ao longo de outubro, alunas de escolas da Baixada Fluminense estiveram no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) para buscar respostas a essas e outras perguntas. Em duas visitas realizadas em parceria com o programa “Tem Menina no Circuito”, as estudantes participaram de palestras com pesquisadoras e pesquisadores e conheceram laboratórios da instituição.
No dia 13 de outubro, estudantes do CIEP Gelson Freitas, em Mesquita, assistiram à palestra de Nina da Hora, pesquisadora da área de computação, que discutiu a relação entre ciência, comunicação e plataformas digitais. No dia 29 de outubro, foi a vez de alunas do Instituto de Educação Professor Carlos Pasquale, em Nilópolis, participarem de uma palestra da pesquisadora do CBPF Tatiana Rappoport, que falou sobre o trabalho de uma cientista e física. Elas também conheceram laboratórios da instituição.
Mais do que apresentar temas científicos, as atividades abriram espaço para que as estudantes se aproximassem de quem faz ciência e conhecessem ambientes de pesquisa que, muitas vezes, parecem distantes de seu cotidiano. O contato com pesquisadoras e pesquisadores também possibilita ampliar as referências sobre a carreira científica e os diferentes caminhos que podem levar meninas à pesquisa.

Compartilhar conhecimento também é fazer ciência
Na palestra Ciência em praça pública: divulgar quando o algoritmo decide o que é conhecimento, Nina da Hora chamou a atenção para as transformações na circulação de informações em um mundo mediado por plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial. Os algoritmos influenciam os conteúdos que chegam às pessoas, enquanto a linguagem e os formatos utilizados podem facilitar ou dificultar o acesso ao conhecimento.
A pesquisadora também apresentou iniciativas que buscam tornar a computação mais acessível, como o canal Computação sem Caô, criado para explicar conceitos da área em linguagem simples. A proposta parte de uma questão fundamental: a ciência não deve se restringir ao diálogo entre especialistas. Para cumprir seu papel social, precisa também encontrar formas de conversar com quem está fora dos ambientes acadêmicos.

Ao falar sobre a relação entre pesquisa e divulgação científica, Nina resumiu sua perspectiva: “Eu não consigo fazer ciência sem fazer divulgação.” A comunicação, para ela, não deve ser compreendida como uma etapa acessória, realizada apenas depois da pesquisa, mas intrínseca ao próprio processo de construir e compartilhar conhecimento.
A discussão sobre a circulação e o acesso à informação científica também se relaciona com a proposta das visitas ao CBPF: aproximar a ciência de novos públicos, criando oportunidades para que estudantes conheçam os espaços de pesquisa, conversem com quem produz conhecimento e descubram diferentes áreas de investigação.
Para Júlia de Assis, por exemplo, conhecer o LabNano – o Laboratório Multiusuário de Nanociência e Nanotecnologia é um centro de pesquisa avançada focado na fabricação e caracterização de materiais na nanoescala – foi uma das experiências mais marcantes. “Eu gostei mais do LabNano porque ele mostra as coisas bem de pertinho. São partes que a gente não consegue identificar a olho nu. Vai muito além do que eu imagino, do que a gente pode imaginar”, contou.
Meninas conhecendo a ciência por dentro
A parceria com o programa Tem Menina no Circuito contribui para aproximar estudantes da Baixada Fluminense da pesquisa científica e de mulheres que atuam nessa área. O contato com pesquisadoras e com os espaços em que os experimentos e estudos são realizados permite conhecer a ciência para além de livros e aulas, mostrando-a como uma trabalho movido por perguntas e construído coletivamente.
Para algumas estudantes, a experiência também ajudou a ampliar as possibilidades imaginadas para o futuro. Gabriella Martins, que já se interessava pela área de exatas e pensava em cursar Matemática, conta que a participação no projeto a levou a considerar a pesquisa científica como caminho profissional. “De uns tempos para cá, depois de entrar no Circuito, eu comecei a pensar mais em pesquisa também. [...] Agora, aqui, eu estou realmente considerando ir para pesquisa.”

O contato com mulheres atuando em diferentes áreas da ciência também teve significado para as estudantes. Victoria Santos, que pensa em seguir carreira na Medicina, destacou a importância de encontrar essas referências: “Ver tantas mulheres aqui dentro trabalhando e atuando em diferentes áreas foi muito bonito pra mim.”
Ao conhecerem diferentes áreas, conversarem com cientistas e observarem de perto o trabalho realizado no CBPF, as meninas podem descobrir novos interesses e reconhecer que também podem fazer parte da construção do conhecimento científico. Iniciativas como essa ajudam a criar oportunidades para que a ciência seja vista não apenas como um conteúdo estudado na escola, mas como um campo de atuação, descoberta e possibilidades para o futuro.