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Brasil avança na busca por novas tecnologias para o manejo da gonorreia
Em um esforço contínuo para responder à crescente resistência antimicrobiana, o Brasil sediou o “Workshop sobre estratégias, perspectivas e desafios para os novos tratamentos de IST no Brasil” em Florianópolis/SC, na última semana. O evento reuniu especialistas em infecções sexualmente transmissíveis (IST) e representantes de diversas instituições nacionais e internacionais para debater estratégias, perspectivas e desafios na implementação da Zoliflodacina, um novo medicamento para o tratamento da gonorreia.
O workshop foi realizado pelo Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi/SVSA/MS), em parceria com Global Antibiotic Research and Development Partnership (GARDP) - organização internacional sem fins lucrativos que atua no desenvolvimento clínico da Zoliflodacina, considerado uma das principais inovações terapêuticas em estudo para a doença. Além disso, o Workshop também contou com a organização e parceria do Laboratório de Biologia Molecular, Microbiologia e Sorologia da UFSC (LBMMS/UFSC), o Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC Brasil e EUA), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o Centro Colaborador da OMS em Gonorreia e outras IST.
A discussão de novas estratégias terapêuticas ocorre em um contexto de alerta global da Organização Mundial da Saúde (OMS), que tem destacado a gonorreia resistente como uma ameaça à saúde pública. A bactéria causadora da doença, Neisseria gonorrhoeae (NG), integra a lista de patógenos prioritários da OMS para pesquisa e desenvolvimento de novos antibióticos, o que reforça a relevância de ampliar os esforços internacionais na busca por novas opções terapêuticas. Nesse cenário, iniciativas como a da GARDP têm papel estratégico ao promover o desenvolvimento de novos tratamentos voltados para infecções bacterianas prioritárias e acelerar o acesso global a essas tecnologias.
Desta forma, o workshop teve como objetivo principal aprofundar a discussão sobre a viabilidade de implantação e os critérios de uso da Zoliflodacina para tratamento da gonorreia no Brasil. Em âmbito internacional, este fármaco foi aprovado pelo FDA (U.S. Food and Drug Administration) em dezembro de 2025. Durante o encontro, que contou com cerca de 60 participantes, foram abordados o cenário mundial e brasileiro da resistência da NG aos medicamentos antimicrobianos; os resultados atualizados dos ensaios clínicos com Zoliflodacina; e os mecanismos de incorporação de novas tecnologias no Sistema Único de Saúde (SUS).
A coordenadora-geral de Vigilância das ISTs do Ministério da Saúde (Cgist/MS), Pâmela Gaspar, explica que a busca por novos tratamentos é constante, por causa da capacidade da bactéria de desenvolver resistência aos medicamentos existentes. "A discussão sobre a Zoliflodacina é fundamental para garantir que as pessoas tenham acesso a opções eficazes de tratamento. Nosso foco é fortalecer a resposta do SUS à resistência antimicrobiana e assegurar que as políticas públicas de saúde acompanhem as inovações científicas, sempre priorizando o cuidado integral e o bem-estar da população”, explicou.
Embora já existam relatos internacionais de isolados de NG com resistência a múltiplos antimicrobianos, os dados da vigilância nacional da susceptibilidade da bactéria aos antimicrobianos instituída há mais de 10 anos, indicam que, atualmente, os isolados circulantes no Brasil ainda respondem adequadamente ao tratamento recomendado no país. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (PCDT IST) recomenda atualmente a terapia dupla com ceftriaxona e azitromicina.
No entanto, a diretriz está em fase de atualização e poderá alinhar-se às recomendações internacionais para uma possível terapia com apenas um medicamento (ceftriaxona), considerando a crescente resistência à azitromicina e a manutenção da sensibilidade à ceftriaxona. Apesar disso, é importante que o Brasil participe ativamente das discussões globais sobre novas abordagens terapêuticas, antecipando cenários e fortalecendo a preparação do sistema de saúde frente ao avanço da resistência antimicrobiana.