Eu Quero uma para Viver

O Brasil tem uma trajetória reconhecida mundialmente na resposta ao HIV e à aids — uma história marcada por políticas públicas inovadoras, avanços científicos e, sobretudo, pela defesa da vida em parceria com a sociedade civil. Neste espaço, celebramos as conquistas que colocam o país entre as lideranças globais no enfrentamento da epidemia. 

O compromisso com a disponibilização das melhores tecnologias biomédicas de saúde para diagnóstico, tratamento e qualidade de vida das pessoas reflete o esforço conjunto da sociedade civil, profissionais de saúde, gestores e pesquisadores brasileiros com a resposta à aids.

O trabalho do Brasil para a Certificação Subnacional de estados e municípios pela eliminação da transmissão vertical de infecções e doenças impulsionou uma conquista coletiva histórica, ser o primeiro país da América do Sul a eliminar a transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública. Mesmo com desafios logísticos de um país continental, o Brasil é o maior país do mundo a alcançar essa eliminação.

A ampliação das ações de Prevenção Combinada, representadas pela Mandala da Prevenção, demonstra avanços na abordagem da prevenção ao HIV e à aids por meio do fortalecimento da autonomia e consideração de diferentes contextos sociais e momentos da vida das pessoas. 

A oferta do tratamento preventivo para infecção latente por tuberculose (ILTB) às pessoas que vivem com HIV ou aids de forma gratuita pelo SUS é mais uma relevante conquista na resposta brasileira ao HIV e à aids. Além do tratamento antirretroviral para HIV altamente eficaz, as pessoas vivendo com HIV ou aids podem se prevenir da tuberculose e ter maior qualidade de vida. 

Cada conquista aqui apresentada é resultado de um compromisso coletivo que faz da resposta brasileira um exemplo de integração entre ciência, direitos humanos e políticas públicas. Registre essas conquistas na posteridade!

Metas 95-95-95

Aids e a agenda 2030: compromisso global e metas 95-95-95

Nenhuma pessoa é uma ilha — e nenhuma resposta ao HIV e à aids é eficaz sem a união de esforços entre governos, sociedade civil e academia. Com esse espírito de cooperação, os Estados-membros da Organização das Nações Unidas (ONU) adotaram, em junho de 2021, em Nova Iorque, a Declaração Política sobre HIV e Aids: acabar com as iniquidades e seguir rumo à eliminação da aids até 2030. O documento reafirma um compromisso coletivo: acelerar o fim da epidemia e garantir que ninguém seja deixado para trás.

Entre as metas pactuadas está o alcance do 95-95-95 — um marco que orienta o enfrentamento global da aids. Para atingir o objetivo de eliminar a doença enquanto problema de saúde pública até 2030, os países devem assegurar que 95% das pessoas com HIV conheçam seu diagnóstico, 95% das diagnosticadas estejam em terapia antirretroviral e 95% das pessoas em tratamento alcancem a supressão viral. O Brasil tem avançado de forma significativa: atualmente, registra 93-81-96, alcançando uma das três metas estabelecidas.

Resultado de uma trajetória iniciada em 2014 com o lançamento das metas 90-90-90 pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV e Aids (Unaids), as metas 95-95-95 trouxeram novos desafios e reforçaram a importância de seguir adiante com metas mais ambiciosas.

Ao colocar o diagnóstico, o tratamento e a supressão viral como pilares centrais, o mundo reconhece o papel das tecnologias biomédicas na resposta ao HIV. No entanto, nenhuma conquista é duradoura sem solidariedade, equidade e respeito aos direitos humanos e sociais. Por isso, a Declaração Política de 2021 enfatiza a necessidade de enfrentamento ao estigma, às políticas discriminatórias e a todas as formas de exclusão que ainda marcam a trajetória das pessoas que vivem com HIV ou aids e das populações-chave.

Mas afinal, o que é I=I=0?

Um dos avanços mais importantes no enfrentamento do estigma e da discriminação contra pessoas vivendo com HIV ou aids é a ampla divulgação da informação de que quando o tratamento para HIV é realizado corretamente, a carga viral fica reduzida a ponto de se tornar indetectável. Com isso, o vírus é intransmissível por meio de relações sexuais sem o uso de preservativo, ou seja, a carga viral é tão baixa que há risco zero de transmissão. 

Em 2016, foi realizada a campanha “i igual a intransmissível” (i = i). Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) utilizou, oficialmente, o conceito i = i num documento, mas a comunidade científica e o movimento internacional de resposta à aids já adotavam o conceito “i igual a zero” com o objetivo de afastar quaisquer dúvidas sobre a segurança da informação ou especificamente da prática. O Brasil passou então a utilizar o i = i = 0, uma junção dos dois conceitos.

E sabe por que a informação é importante? Porque muitas pessoas a desconhecem e, infelizmente, cometem atitudes discriminatórias contra pessoas que vivem com HIV ou aids. O avanço da terapia antirretroviral promove a autonomia de pessoas com a infecção pelo HIV, permitindo-lhes relações sexuais baseadas na confiança e na ciência, com prevenção não apenas da saúde individual como também de parcerias sexuais.

Prevenção Combinada

As formas de prevenir o HIV e a aids evoluíram muito ao longo dos anos. De ações isoladas, passamos a estratégias integradas, que combinam ciência, comportamento, direitos e cidadania. Neste espaço, essa trajetória ganha forma no tapete da Prevenção Combinada, uma representação visual da diversidade de caminhos que se unem em uma resposta única e coletiva, sem hierarquizar as estratégias a partir da compreensão que  toda a diversidade disposta na mandala importa para a escolha de cada pessoa.

A Prevenção Combinada reúne diferentes métodos — biomédicos, comportamentais e estruturais — para reduzir a vulnerabilidade ao HIV e promover escolhas informadas. Envolve o uso de preservativos, antirretrovirais, testagem regular, educação em saúde, e o enfrentamento dos determinantes sociais que ampliam a exposição de indivíduos e populações específicas ao vírus.

Essa estratégia também inclui ações de redução de danos, especialmente entre pessoas que usam drogas injetáveis, vacinação contra hepatite B e HPV, e políticas públicas voltadas à promoção dos direitos humanos e à eliminação do estigma e da discriminação.

Mais do que uma política de saúde, a Prevenção Combinada expressa uma visão de mundo: a de que ninguém alcança a intransmissibilidade do vírus sem condições dignas de vida. 

Nascer sem HIV

A transmissão vertical do HIV ocorre quando o bebê é infectado pelo vírus durante a gravidez, o parto ou a amamentação. Para evitar a transmissão, é necessário que gestantes e suas parcerias sexuais realizem a testagem para a infecção pelo HIV durante o pré-natal e, nos casos em que houver a conclusão do diagnóstico, a pessoa  gestante e o bebê precisam receber tratamento de forma imediata, reduzindo a quantidade de vírus no corpo da pessoa  gestante a níveis que impedem a transmissão para o bebê.

O Brasil incentiva e reconhece com a certificação e selos os municípios e estados que cumprem as metas estabelecidas internacionalmente para o alcance da eliminação da transmissão vertical do HIV enquanto problema de saúde pública. A certificação mostra que, com acesso universal ao diagnóstico e ao tratamento, é possível quebrar a cadeia de transmissão do HIV, garantindo um futuro mais saudável para a próxima geração.

Graças ao trabalho de gestores, profissionais de saúde e sociedade civil desenvolvido ao longo dos anos, o Brasil recebeu, em 2025, a certificação pela eliminação da transmissão vertical do HIV pela Organização Mundial da Saúde. Este marco global coloca o Brasil novamente em destaque internacional em saúde pública, inspirando outras nações.

Tuberculose e HIV: uma resposta integrada

Ao celebrar 40 anos da resposta brasileira ao HIV e à aids, o Brasil também reafirma suas conquistas na prevenção da tuberculose, uma das principais causas de adoecimento e morte entre pessoas que vivem com HIV ou aids. A elevada mortalidade associada à tuberculose nesse grupo evidencia a importância da prevenção e do cuidado integrado.

Nesse cenário, o tratamento preventivo da tuberculose, o TPT, ocupa papel central. A estratégia impede o desenvolvimento da forma ativa da doença em pessoas infectadas pelo Mycobacterium tuberculosis, especialmente naquelas com maior vulnerabilidade, como as que vivem com HIV ou aids.

O Brasil disponibiliza, gratuitamente pelo SUS, diferentes, seguros e eficazes esquemas terapêuticos: a rifapentina associada à isoniazida (3HP), em 12 doses semanais; a isoniazida isolada (6H/9H); a rifampicina (4R); e o esquema combinado de rifampicina e isoniazida por três meses (3RH).

A ampliação do acesso ao TPT traduz o compromisso do país com a integração entre as ações de HIV e tuberculose, promovendo cuidado integral, redução da morbimortalidade e avanço rumo às metas globais de eliminação da tuberculose e da aids como problemas de saúde pública.

Celebrar 40 anos da resposta ao HIV e à aids é, também, valorizar a prevenção integrada — que une diagnóstico precoce, tratamento adequado e TPT como estratégias essenciais para salvar vidas e reduzir iniquidades.

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