Retirados do território na ditadura, povos Katxuyana e Kahyana se reconectam com pertences no Museu Goeldi
A instituição guarda o maior acervo do Brasil sobre os dois povos. Pesquisadores indígenas e não indígenas identificaram 891 peças em museus de cinco países. A história da retomada dos territórios e dos patrimônios culturais dos Katxuyana e dos Kayana está em cartaz no Parque Zoobotânico, na exposição “Katxar kum neero - Nossos lugares verdadeiros”.

Agência Museu Goeldi – O ano 1968, na história do Brasil, é conhecido como o mais duro da ditadura militar. O assassinato do estudante Edson Luís, em março, no Rio de Janeiro; a Passeata dos Cem Mil contra o autoritarismo, em junho, também no Rio; o congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em outubro, em Ibiúna, no interior paulista, que terminou com saldo de centenas de pessoas presas; e a edição do Ato Institucional (AI) nº 5, em dezembro, que fechou o Congresso Nacional, cassou mandatos de deputados e afastou ministros do Supremo Tribunal Federeal (STF) estão entre os marcos mais conhecidos. Porém, fora do eixo Rio-São Paulo, o início dos “anos de chumbo” também abriu feridas ainda não curadas entre os povos indígenas, na “longínqua” Amazônia.

Em 23 de fevereiro de 1968, no município de Óbidos, no Pará, aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) decolaram das terras próximas ao rio Katxuru (Cachorro) e ao rio Kahu (Trombetas), onde viviam os Katxuyana e os Kahyana, arrancando de seus cotidianos dezenas de famílias. O destino, previsto no projeto “FAB/Missão/Índios” do Estado brasileiro, foi o Parque Nacional Indígena do Tumucumaque, na fronteira com o Suriname. Embora a alegação para a transferência forçada fosse as epidemias, o projeto político de integração nacional, com a ocupação geopolítica da Amazônia, começava a ganhar força sob o pretexto de abrir caminhos para o progresso econômico. Durante a ditadura militar, pelo menos 8.350 indígenas foram mortos, conforme o volume II do relatório da Comissão Nacional da Verdade, publicado em 2014. Após décadas, os Katxuyana e os Kahyana nunca desistiram de voltar para os seus territórios, os seus “lugares verdadeiros".
No dia 17 de novembro de 2025, durante a COP30, em Belém (PA), a demarcação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, nos municípios de Faro e Oriximiná, no Pará, e em Nhamundá, no Amazonas, foi homologada pelo governo federal. “A gente sempre pensou em retornar e retomar o nosso território. Fomos levados em 1968 e fizemos o processo de retomada no ano 2000, quando as primeiras famílias voltaram, mas o território, em si, nunca ficou abandonado”, disse Juventino Kaxuyana, durante a abertura da exposição Katxar kum neero, concebida e narrada pela Associação Indígena Katxuyana, Tunayana e Kahyana (Aikatuk), em cartaz no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) de quarta a domingo, a exposição, resultado da parceria entre a Aikatuk, o Museu, o Instituto Iepé e a Universidade Federal Fluminense (UFF), conta a história da retirada e do retorno dos povos Katxuyana e Kahyana ao território e fala sobre o processo de reconexão com seus modos de viver, a partir do reencontro com objetos de seus antepassados.
“Para onde levaram os nossos artefatos?”
Nos últimos anos, lideranças dos povos Katxuyana e Kahyana, em contato com pesquisadores durante expedições em seus territórios, passaram a interferir nos estudos e, ao invés de responder às perguntas, começaram a fazê-las. Endereçada à doutora em Memória Social Adriana Russi, docente da UFF, uma das perguntas foi: “para onde levaram os nossos artefatos?” A partir de um mapeamento ainda em curso, iniciado em 2012, a pesquisadora identificou 891 peças em museus de cinco países da Europa (520) e do Brasil (371). No Museu Goeldi, foi identificado o maior acervo sobre os Katxuyana e Kahyana no território nacional, com 186 artefatos. Parte desse patrimônio pode ser visto na exposição.
Na Europa, as 520 peças representam 58% do total de artefatos identificados e estão distribuídas em museus da Dinamarca, Inglaterra, Noruega e Alemanha. Já no Brasil, os 371 artefatos (42%) estão em museus de cinco estados: Pará, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Havia outros 28 objetos identificados no Museu Nacional (RJ), mas foram destruídos no incêndio ocorrido em 2018. Outro dado que a pesquisadora apresentou como preocupante se refere ao Museu do Índio, instalado no Convento Ipuarana, em Lagoa Seca, na Paraíba. Das 400 peças que deveriam estar preservadas lá, segundo ela, atualmente existem apenas 136. Ainda conforme Adriana Russi, os objetos que pertenceram aos Katxuyana e Kahyana identificados em museus representam uma cobertura temporal de 89 anos, sendo a coleção mais antiga datada, aproximadamente, de 1924, localizada no Museu do Estado de Pernambuco (Mepe), e a mais recente, de 2013, encontrada no Museu Nacional dos Povos Indígenas (MNPI), no Rio de Janeiro.

Do acervo do Museu Goeldi, participam da exposição 47 objetos da cultura dos Katxuyana e dos Kahyana, sendo a maior parte coletada em 1957. Em uma das vitrines, um conjunto de nekwa (imagens xamânicas) representa as conexões espirituais dos indígenas. Coletados em 1969 e em 1972, pelo então pesquisador do Museu Goeldi, o missionário e antropólogo Protásio Frikel, e pela linguista Ruth Wallace, 14 desses objetos retratam como os piyasï (pajés) se conectavam com espíritos auxiliares, que os orientavam em processos de cura e de proteção. Em maioria na forma de animais, as estatuetas eram guardadas nos puwahuwa (estojos de palha), também expostos, podendo um deles ser tocado. Antes de integrarem a exposição, os objetos passaram por um ritual com os amu kumu (os velhos) dos povos Katxuyana e Kahyana, realizado, de forma reservada, no Parque Zoobotânico, no dia 25 de agosto, véspera da exibição ao público.
Um elemento de reconexão entre os yana
Uma das curadoras da exposição, Angela Kaxuyana, ao se apresentar na mesa de abertura da mostra, precisou explicar a violência que carrega no próprio nome, decorrente da retirada forçada de seu povo do território. “Meu nome é Angela Kaxuyana, mas eu sou Kahyana. A explicação tem a ver com todo esse processo de violência, de negação, e com a ‘necessidade’ dos karaiwa (não indígenas) de unificar a diversidade dos povos indígenas. Por isso, meu nome no registro é Kaxuyana, mas eu sou do povo Kahyana, porque sou do rio Kahu. Assim a gente fala: o Juventino é Kaxuyana porque ele é do rio Kaxuru”.

Vista por mais de 1.400 pessoas desde 26 de agosto, a exposição Katxar kum neero foi elaborada no âmbito de dois projetos: “Artes do Txamatxama: documentando nossas práticas e saberes, salvaguardando nossos modos de vida”, conduzido pela Aikatuk e pelo Instituto Iepé, com apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e o projeto “Povos Indígenas e museus: reconectando os Katxuyana e Kahyana com seu patrimônio cultural”, executado com o apoio do British Council, uma instituição do Reino Unido. Com a participação das pesquisadoras Luísa Girardi, Manuella Sousa e Denise Fajardo, os projetos foram concebidos pelos próprios indígenas e narrados em áudios e em reuniões online. “Esse projeto foi construído com muito choro, porque, a cada narrativa que a gente trazia, a gente rememorava muitas questões: a violência, a resiliência, a vida das pessoas que se perderam nesse processo de negação de território”, disse Angela.
Para idealizar a exposição, os indígenas realizaram oficinas nos territórios e ouviram os mais velhos. “Começamos a conectar e a conversar com os velhos e a pensar qual era o objeto que interligava a gente à espiritualidade. Tem vários, como o rapé. Mas não se faz uso do rapé se não for com o txamatxama. Não se dança e não se canta se não for com o txamatxama. Não se conectava a nenhuma espiritualidade sem o txamatxama. Então, estava na cara: o que nos interliga, o que a gente realmente precisa trazer como um elemento importante de retomada do território e das nossas existências, da permanência dos yanas como yanas que são – porque fomos reduzidos de vários yanas a poucos yanas –, é o txamatxama”, explicou, ao se referir à coroa plumária, símbolo da identidade dos povos yana. O projeto, assim, foi inspirado na necessidade de reconectar os yanas. “Por isso, o txamatxama é tão importante quanto a homologação da terra indígena. Para mim, ele é uma homologação do reconhecimento das nossas existências”.

Uma exposição de sentimentos
A tarefa de transformar as narrativas indígenas em uma exposição para visitação pública contou com a experiência da equipe da Coordenação de Museologia do Museu Goeldi, liderada pelo museólogo Emanoel Junior e pela arquiteta Karol Gillet. “Nosso trabalho foi o de materializar as narrativas, em colaboração com a curadoria indígena. A exposição busca mostrar os sentimentos envolvidos em todo esse processo, começando pelo luto, pela tristeza, até a retomada do território durante a COP30, passando por objetos que revelam a cultura dos Katxuyana e dos Kahyana. É uma exposição cíclica, então, cada vez que é visitada, permite novos olhares”, afirmou Gillet. Ela ressalta a preocupação em promover a acessibilidade. “No percurso, existem fotos táteis e objetos que podem ser tocados, com o objetivo de ampliar o acesso à exposição para públicos diversos”, acrescentou.
Entre as vitrines e as paredes que contam a história da retomada dos povos indígenas, o txamatxama ganha destaque no centro da exposição, embaixo de uma representação do tamiriki, casa comunal dos yanas, onde são tomadas as decisões políticas e realizadas as cerimônias e festividades. No processo de retorno ao território, os Katxuyana e os Kahyana reconstruíram o tamiriki pela primeira vez, em 2010, após cerca de 40 anos da retirada forçada na década de 1960. A partir de então, outros tamiriki foram erguidos nas aldeias da região do rio Kaxuru e Kahu. Além do txamatxama, os artefatos expostos incluem cerâmicas, cestarias, joalherias, vestimentas, ferramentas de caça, além de fotos, áudios, vídeos e exemplares de livros raros preservados pelo Museu Goeldi.

Com as amigas francesas, a belenense Rayssa Andrade, que há dez anos mora em Limoges, na França, visitou a exposição. “Eu era criança quando eu vim no Museu pela primeira vez. Há muito tempo eu não voltava aqui. Então, pensei: por que não voltar e mostrar esse lugar para elas? Eu não lembrava que era tão legal e que tinha tantas exposições. Eu achei essa exposição bem interessante. Acho importante documentar a história de povos que estão lutando”, disse ela, ao lado das turistas estrangeiras, que valorizaram a importância de divulgar as narrativas dos povos retirados de seus territórios. As visitantes também consideraram interessante conhecer a cultura dos Katxuyana e dos Kahyana e as lutas que enfrentam na atualidade, em uma única exposição.

Museu Goeldi guarda artefatos de 119 povos indígenas
Na abertura da exposição, a museóloga Lúcia van Velthem, pesquisadora aposentada do Museu Goeldi, falou sobre a formação do acervo etnográfico da instituição, no decorrer dos seus quase 160 anos de existência. “Segundo o primeiro relatório de Emílio Goeldi, que foi um dos primeiros diretores da instituição, a coleção etnográfica do século 19 era composta por apenas 291 peças. Em 1921, o antropólogo alemão Curt Nimuendaju elaborou um catálogo em que listou 2.662 peças de 56 povos indígenas amazônicos”, detalhou. De acordo com Lúcia van Velthem, a coleção etnográfica do MPEG abriga, na atualidade, cerca de 14.600 artefatos representativos da cultura material de 119 povos indígenas na Amazônia brasileira e peruana.
“Há algum tempo, ocorre uma mudança na natureza das relações dos museus etnográficos com as comunidades de origem, de onde procedem os seus acervos. Nesse sentido, um importante movimento passou a ser efetivado nessas instituições, visando a conexão e a sincronização com a realidade atual das demandas indígenas, relacionadas com o acesso à sua própria história e ao seu direito à memória, e que se expressam nos objetos das coleções – o que é atestado pelos próprios indígenas ao conhecê-las”. Para Lúcia van Velthem, na atualidade, é necessário que os museus garantam e efetivem a acessibilidade plena às suas coleções, reconhecendo a importância dos saberes dos povos indígenas na identificação e na gestão dos acervos que criaram, confeccionaram e utilizaram. “Esse movimento ampliou os intercâmbios institucionais e as práticas de museologia colaborativa, nas quais os povos indígenas participam da ação de salvaguarda, de documentação e de exposição, como é o caso da exposição Katxar Kum Neero”, enfatizou.
Pela primeira vez, em 2019, lideranças dos povos Katxuyana e Kahyana visitaram o acervo etnográfico do Museu Goeldi, no Campus de Pesquisa da instituição, localizado no bairro da Terra Firme, em Belém (PA). Uma segunda visita ocorreu em junho de 2025, alguns meses antes da homologação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana. No processo de buscas pelos artefatos e pelos modos de viver de seus antepassados, em 2025 e 2026, os indígenas também visitaram o Museu Britânico, em Londres, onde puderam ver uma canoa tradicional e reencontrar um txamatxama. Durante a viagem, construíram outro txamatxama para ficar exposto ao lado do que já estava no Museu Britânico, por entenderem que os objetos representam seus parentes e não devem ficar distantes sozinhos.
19 anos da Declaração dos Povos Indígenas
Vale mencionar que, no último domingo, dia 13 de setembro, a Declaração das Nações Unidas sobre Direitos dos Povos Indígenas completou 19 anos. O documento, aprovado em 2007, reconhece, no âmbito global, direitos como a autodeterminação dos sistemas políticos e sociais, a manutenção das culturas, a repatriação de patrimônios furtados ou roubados e a preservação das línguas. Os avanços oficiais decorrem dos esforços dos próprios indígenas que, na esfera internacional ou nacional, nunca desistiram. A exposição “Katxar kum neero - Nossos lugares verdadeiros” é realizada no âmbito do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) das Artes do Txamatxama, apoiado pelo Iphan. Também integra o Ano Cultural Brasil-Reino Unido 2025-26, promovido pelo British Council. A mostra conta ainda com o apoio da Nia Tero, do Bezos Earth Fund e do Instituto Peabiru.
Texto: Carla Serqueira
Edição: Andréa Batista
SERVIÇO: Exposição Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros |
|---|
Visitação: de quarta a domingo, das 9h às 16h. Local: Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi. Centro de Exposições Eduardo Galvão (mezanino). Avenida Magalhães Barata, 376 – São Brás. Belém (PA). Acesso ao parque: R$ 3, com meia-entrada e gratuidades previstas em leis. |